Verdade ou Desafio

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TW: Homofobia

***

Era um daqueles dias difíceis de sair da cama por vontade própria, onde o céu estaria azul às sete da manhã e o sol bateria em seu rosto com uma persistência única, mas você ainda teria que usar sete camadas de roupa e enfiar a cara em algum cachecol para que seu nariz não congelasse enquanto caminhasse até o colégio. Cebola sente que seus movimentos foram restringidos ao máximo com seus casacos e agasalhos - todos de cores berrantes como verde e amarelo - mas pelo menos eles não deixavam o calor ir embora quando tudo o resto parecia congelado em seu caminho.

Ele se sente meio bobo com tudo aquilo, tendo noção que a touca protegendo suas orelhas lembra muito um castor gigante ou um lenhador estranho da Rússia. Mas ninguém que chega no colégio parece ligar, ocupados demais tentando esquentar as próprias mãos ou correndo para as salas de aula para despejar os livros pesados das costas.

- Bom dia, Cebola. - Xaveco passa por ele com um sorriso tenso pelo frio e com roupas não muito melhores, mas bem menos coloridas. - Que milagre você vir nesse gelo.

- Preciso ver as aulas de revisão para recuperação. - Cebola resmunga e continua andando com Xaveco colado ao seu lado, claramente divertido em ter que acompanhar os passos de pinguim do outro. - Geografia é uma bosta.

- Eu fiquei em Física. Pode me dar uma mão com alguns exercícios?

- Só se você me ajudar com os meus.

- Ei, troca letras! - Toni chama, grudado na parede do corredor como um chiclete mastigado, acompanhado de Do Contra intencionalmente olhando para os próprios pés de um lado e de algum garoto mal encarado que Cebola não se dava o trabalho de saber o nome do outro. - Roupa foda. Tá fazendo cosplay da sua mãe?

- Na real, é mais o seu pai. - Cebola diz sem nem olhar naquela direção, um sorriso travesso escapando ao ver Xaveco segurando um riso assustado. - Ah, espera. Você não tem pai, né? Foda.

Um barulho de botas pesadas repercute pelo corredor, junto com pedidos desesperados do garoto secundário para Toni segurar seu temperamento antes, pelo menos, que o dia comece de verdade. Além do inconfundível começo de uma risada silenciosa, e quando Cebola ergue a cabeça para tentar entender aquele último som, Do Contra passa por ele com um sorriso torto na boca.

O rapaz não diz nada, mas Cebola sabe que ele quer. Pode sentir quando suas botas se arrastam pelo corredor petulantemente e de propósito para causar o maior nível de irritação em quem passa, na maneira como olha para Cebola como se fosse uma piada - vergonhosa e surpreendente ao mesmo tempo. Como ele fica confuso em Cebola não fazer mais parte do lado em que humilharia as vestes de seus amigos ou qualquer parte minimamente fora do padrão e às vezes acontece de fazer parte do outro lado. Dos humilhados. Mas humilhados que teimam em lutar de volta.

Ambos não dizem nada e seguem caminhos opostos no corredor gigante e gelado do colégio, mas Cebola sabe que Do Contra não vai conseguir manter a boca fechada por muito tempo. Provocações e olhares como aquele faziam parte do seu dia a dia desde que Do Contra decidiu terminar com Mônica sem motivo aparente, deixando Cebola com muitas pulgas atrás da orelha, o sentimento de antecipação que vem antes de uma briga e uma esperança infantil de poder reatar seu antigo namoro. Não que Mônica lhe desse qualquer mínima chance, mas ainda não era proibido sonhar naquele país.

Ele também não tinha muito tempo para fazer algo ou pensar na garota, para ser extremamente justo. Não com o colégio enforcando suas notas, monstros para combater dia sim e dia não e o futuro já batendo na sua porta com diplomas e empregos duvidosos. O ex da sua ex sendo mais estranho do que o comum, então, não estava nem na última linha de sua lista sobre coisas que realmente tinham relevância ou que precisavam ser resolvidas com certa urgência.

Covardes Por Decidirem Viver (Dcebola)Stories to obsess over. Discover now