Capítulo 01

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A vida como ela é

Olho para o computador e sinto meus olhos arderem e implorarem por um distanciamento daquela tela irritantemente clara, mas o trabalho acumulado em cima da mesa não me permite descansar, pelo menos não por mais duas horas, que é quando meu expediente termina.
Incrível como apenas algumas horas de trabalho já me deixaram cansada.
- Anna? – Vejo uma cabeça aparecer pela fresta na porta. Rafael. Meu melhor e mais antigo amigo, com seus cabelos e olhos escuros (e com uma altura desnecessária), olha para mim e ao ver meus olhos vermelhos entra e se senta em uma das cadeiras à frente da minha mesa. – Você precisa descansar um pouco.
- Eu sei, mas simplesmente não gosto de deixar o trabalho acumular. – Digo jogando meu peso para trás e olhando para o teto por um instante.
- Você nunca deixa trabalho acumular, sempre faz tudo com antecedência. – Rafa me olha cético, me fazendo revirar os olhos.
Nós ficamos nos encarando por um tempo, em uma pequena luta silenciosa para ver quem tem razão.
- Ok, admito. – Jogo meus braços para cima em redenção. – Mas o que você quer que eu faça?
- Que você viva. – Ele diz, se levantando e vindo em minha direção. – Você ainda é muito nova para ficar trancada aqui o dia inteiro, todos os dias.
- Quer dizer que quando estiver velha eu posso ficar trancada aqui para sempre? – Pergunto, cruzando os braços fingindo estar com raiva.
- Ah, com certeza, ninguém vai querer ver a sua cara feia enrugada. – O infeliz diz e finge um calafrio.
- Idiota. – Digo, semicerrando os olhos mas rindo também.
- Você me ama que eu sei. – Ele diz enquanto se aproxima e deixa um beijo na minha testa, voltando a se sentar. – Quero sua ajuda para fazer Mariana sair comigo.
- Você me pede isso toda semana e até agora ela não aceitou nem uma única vez. – Digo, revirando os olhos.
- Mas agora ela vai aceitar. – Ele diz parecendo confiante e eu o olho cética. – Eu sinto isso.
- Sente, é? – Levanto uma sobrancelha para ele.
- Sim. – Ele balança a cabeça e coloca a mão no peito. – Aqui.
- Isso são gases, amigo.
- Engraçadinha. – Nós rimos e ele me conta o mais novo "plano infalível" dele.
- Você parece o Cebolinha com essa história de "plano infalível", só tá faltando trocar o 'R' pelo 'L' – Comento, dando ênfase em "plano infalível", depois dele terminar de me explicar sua ideia em detalhes demais.
- Não pareço não. – Ele diz emburrado e fazendo biquinho que nem criança pequena, mas começa a rir e vai em direção à porta. – Vou ficar te esperando para o treino de sete horas, ouviu?
- Sim, senhor. – Reviro meus olhos e o vejo sair da minha sala rindo.
Decido me levantar e esticar um pouco o corpo, talvez tomar uma água, antes de voltar ao trabalho. Me direciono para a copa, mas paro no escritório do meu pai no caminho, para dar um oi.
Bato na porta, mas não espero que me mandem entrar e já enfio minha cabeça na porta.
- Oi. – Digo sorrindo, mas então percebo um homem sentado de costas para a porta. Vejo apenas suas costas cobertas por um terno feito sob medida e uma cabeleira ruiva presa em um coque bem preso. O homem se mantém encarando meu pai, mesmo com minha interrupção. – Ah, perdão, volto outra hora.
Saio da sala com a mesma rapidez com que entrei e vou para a copa, resmungando sobre como tenho que parar com essa mania de invadir os lugares. Chegando na copa decido colocar água para ferver. Enquanto espero, separo uma bandeja com biscoitos e uma xícara. Faço meu café e levo tudo para minha sala.
***
Quando o expediente acaba saio da sala louca de fome, os biscoitos que comi parecem ter aberto ainda mais meu apetite. Acho que a melhor ideia agora é comer alguma coisa, se eu for treinar deste jeito é capaz de desmaiar de fome.
Aperto o botão do elevador e enquanto não chega, pego meu celular e mando uma mensagem para o Rafael, avisando que provavelmente irei atrasar.
- Anna. – Escuto alguém me gritar e ao me virar vejo meu pai vindo em minha direção, parecendo bastante apressado. Meu pai é um senhor de cinquenta e sete anos de idade, mas sua aparência é bem mais nova, seu corpo magro, mas em forma, vestido em um terno alinhado e seu cabelo ralo cortado bem baixinho.
- Ah, oi, pai. – Digo assim que ele se aproxima.
- Está indo para onde?
- Comer alguma coisa. – Digo fazendo careta, já pressentindo o sermão.
- Agora? – Apenas balanço a cabeça afirmando. – Meio cedo para o jantar, tarde para almoçar, mas a vida é sua, a saúde também.
Fico surpresa com a tranquilidade que meu pai esboça com minha alimentação irregular e acabo rindo, o que o faz revirar os olhos e deixar um beijo em minha testa.
- Ia te chamar para apresentar a empresa para um sócio, mas ele pode vir outro dia. – Ele diz e começa a voltar em direção à sua sala. – Vá comer.
- Sim, senhor. – Digo e me viro para o elevador e aperto o botão.
Assim que saio do elevador vejo Rafael andando na minha direção parecendo bastante obstinado.
- Não vou treinar com você hoje, estou indo falar com Mariana. – Ele diz com um sorriso que parece que vai rasgar a cara ele. – Ela topou sair comigo. Me deseje sorte.
Mariana é minha amiga e vizinha e Rafael é apaixonado por ela desde que os apresentei, quando ainda erámos adolescentes cheios de espinhas e aparelhos nos dentes.
- Você não precisa de sorte. – Digo e ele me olha cético. – Mas boa sorte.
Ele finalmente sai e eu fico rindo.

DestinoWhere stories live. Discover now