- Fuja Mavie!!!
Acordo ofegante e o coração disparando freneticamente. Mais um pesadelo, parece que nada nunca muda. Já se passaram 6 invernos, 6 primaveras, 6 verões e 6 outonos desde o acontecido, mas ainda revivo tudo de novo a cada amanhecer . Hoje, exatamente, 7 de março às 4:00 hs da manhã desta quarta-feira luto contra a vontade de permanecer no único lugar em que encontro paz, minha cama. Olho para as paredes tonalizadas em creme com algumas rachaduras e a tinta meio gasta, na escrivaninha meus livros bagunçados e logo ao lado uma trouxa de roupas jogadas no chão. Ultimamente não tenho vontade de fazer absolutamente nada, vou pro trabalho apenas por necessidade. Sinto um vazio tão imenso dentro de mim, é como se estivesse o tempo todo a procura de algo, eu sinto que estou sempre procurando algo ou alguma coisa, não sei se procuro alguém, não sei se procuro um lugar, não sei se procuro um emprego, não sei ao certo o que me falta, mas parece que sempre estou procurando algo ou alguém, ou talvez a minha mente esteja um turbilhão. O clima ainda permanece frio e com temperaturas baixas, é meio difícil sair da cama em dias como esse.
- Bom dia meu bem ! Precisa levantar ou assim vai se atrasar.
- Bom dia mãe.
- Seu pai ligou, queria falar com você.
- Talvez em outro momento retornarei a ligação.
- Não pode perder o contato, ele é seu pai ! Sei que é difícil não guardar nada, mas não deixe que a situação te consuma.
- Vou tomar um banho e me arrumar. O que tem para o café ?
- Torrada e geléia. Desculpe, faz um tempo em que só comemos isso.
- Tudo bem, eu amo torrada.
Meu estomago não suporta mais torrada, faz semanas que só comemos isso, não é por escolha e sim por falta de escolha. Mamãe tem lutado para nos criar, digo, eu e meu irmão Nick. Parece que desde o momento que pisamos os pés na terra tem dado tudo errado. Mamãe pensou ter casado com um homem maravilhoso em que viveria ao seu lado para sempre e felizes, porém logo após o casamento ele mostrou de fato como era, um narcisista em que a tratava com indiferença e sem um pingo de empatia e afeto, através dele perdemos tudo. Sinto a bile subir e tento me manter calma para que o pânico não volte a me consumir. Mamãe é analfabeta e por conta disso encontra uma dificuldade muito grande na procura por um emprego, como a nossa situação só foi piorando a cada dia que passava, larguei os estudos e agora trabalho em uma lanchonete, não supre totalmente nossas necessidades mas ajuda um pouco. Tenho uma imensa gratidão pela dona Ella, não tinha nenhum currículo adequado para o trabalho mas ainda sim me deu a oportunidade. O salário não é lá essas coisas, contudo ainda assim ajuda bastante.
Aqui estou eu, vestindo minha calça preta de todos os dias, se duvidar ela já sabe sair de casa e voltar sozinha, fazer o que né ? Não tenho culpa se ela é minha segunda pele. Também coloquei uma blusa branca e prendi o cabelo em um rabo de cavalo firme, afinal, em hipótese alguma, pode a ver a chance de cair um fio de cabelo na comida, inclusive trabalho como cozinheira da Doceria da Dona Ella, esse realmente é o nome, no começo achava sem criatividade mas hoje acho que ela tem sua personalidade.
- Mãe já estou indo.
- Certo amor, corre que vai chegar atrasada.
Pego um agasalho e saiu de casa. Tenho só três buzões para pegar até chegar ao destino. O lado bom é que posso colocar minhas leituras em dia, no momento estou lendo " A balada dos felizes para nunca", me sinto totalmente envolvida a história, tô até pensando em procurar a igreja do arcano para fazer um pedido, vai ver assim minha vida pega um rumo diferenciado, de repente um príncipe se apaixona por mim e depois um tal de Jacks.
- Tchau seu Bean, muito obrigada.
- Tchau querida, tenha um bom dia.
Seu Bean é o motorista do último ônibus que pego, me leva todos os dias de graça além de oferecer ajuda sempre. A rua que fica a doceria é simplesmente perfeita, passa um ar de conforto, possui árvores como cerejeiras porém como é inverno se encontram sem folhas e flores, em frente a loja tem uma faixa de pedestre com a tinta laranja meio gasta, a arquitetura do prédio é rústica e bonita visualmente.
Enquanto passo pela pela pista, penso nos doces que devo fazer, porém meu pensamento é interrompido. Olho em direção a loja e vejo um carro preto estacionado em frente, sinto um arrepio correr pela minha espinha, não sei explicar direito mas é um mal pressentimento. Uma pergunta que não quer calar, quem seria tão cedo ? Não recebemos pessoas nesse horário. Adentro a doceria, está totalmente silenciosa! Está tudo fora do lugar como se tivesse passado um furacão, não vejo Susie organizando a vitrine. De fato a algo de errado. O silêncio é tão grande que se caísse um alfinete no chão escutaria sem esforço algum.
- Por favor me perdoe, me dê uma chance - uma voz que parece a de Susie diz melancolicamente.
Sem aviso prévio sons de algo rasgar e um líquido cair ecoa pela loja vazia.
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4runner
FantasíaMavie, uma jovem que parece viver com uma maldição, um fardo que uma pessoa sozinha seria incapaz de carregar, a felicidade parece reinar na vida de todos, exceto na dela. Contudo, com uma cartada do "destino", tudo muda. "Até onde seria capaz...
