Capítulo 1

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- Não Theo, sem condições. Isso não vai dar certo.
- Vai sim, fica quieto e desabafa.
- Como vou ficar quieto e desabafar ao mesmo tempo?

Contextualizando, Theo notou que ando cabisbaixo ultimamente e quer fazer uma sessão de terapia comigo. Mas não tem como levar isto a sério, ele fica com uma cara séria demais quando está na "terapia", isto é engraçado.
Estamos na sala do meu irmão, Atlas. Josh está sentado na poltrona, e eu, sentado nesta cadeira de plástico extremamente desconfortável. Como se fosse realmente uma sessão de terapia.

- Vamos logo Josh! Você está dificultando o meu trabalho.
- Certo, certo - Suspiro fundo e ajeito minha posição - Bom, tenho ficado um pouco chateado ultimamente porque Atlas não tem estado em casa direito, ele apenas sai com a Lily e deixa a Emmy comigo. Não que eu desgoste disso, mas eu apenas gostaria de receber um pouco de atenção do meu irmão.

Ao olhar para Theo, falho miseravelmente na minha tentativa de levar isso a sério e começo a rir. Ele lança um olhar fulminante para mim, acho que se pudesse me matar com os olhos, ele já teria feito.

- Dá pra levar isso a sério? - Diz o Theo, claramente estressado.
- Não com você me encarando desse jeito, e vem cá, pra que tudo isso? Esse lugar realmente lembra uma sala de psicólogo, é por isso que não consigo levar nada aqui a sério.

Ele suspira fundo e olha para mim com um olhar abatido, como se tivesse perdido uma guerra que ele mesmo criou na mente dele. Theo pega uma caneta e começa a escrever algo. Não pude deixar de me sentir curioso, ergo meu pescoço para tentar ver o que estava escrevendo, mas ele rapidamente percebe e coloca o braço na frente.

- O que está escrevendo? - pergunto.
- Coisas... Algo que você está precisando ouvir.

Theo termina de escrever e me entrega o papel, seguro o papel na frente do meu rosto e leio em voz alta.

- "Pa-lhi-a-ço"? É sério isso?
- Foi o que você pichou, não tenho culpa de você não saber como se fala palhaço.
- Sabe Theo? As vezes eu tenho uma vontade gigantesca de esfolar você vivo.
- Boa sorte, palhiaço.

Eu ainda vou matar esse garoto, eu juro. Só não o mato aqui porque estamos no restaurante de Atlas e não quero causar problemas. Franzo a testa de frustração, e ao contrário de mim, Theo ri como se fosse uma criança. Este lado dele me irrita.

- De verdade, eu não sei como que meu irmão consegue te aturar.
- O Atlas me ama, ele me ama mais do que te ama.
- Ha-Ha, ótimo piadista. Já pensou em participar de um stand-up?
- Não, eu sou bom demais para estar lá.

Reviro meus olhos em deboche e rio de Theo, apesar de tudo, ele é meu único e melhor amigo. Ele se levanta da cadeira e olha pro seu relógio de pulso.

-Vamos, está na hora de ir pra escola - ele alerta.
- Certo, vamos.

Me levanto e pego as bolsas que estavam no canto da sala, entrego a dele para o mesmo e ponho a minha nas costas. Saímos da sala e vamos até a rua para poder pegar o ônibus para a escola.

...

Felizmente, Theo é bem mais esperto do que eu, ele sempre me ajuda nas matérias que tenho dúvidas, e se não pode ajudar, ele me passa cola. Então eu não preciso me preocupar tanto. Mas uma coisa tem que ser admitida, Theo é muito melhor ensinando do que nossos professores.
Enquanto a professora de Biologia Grace passava a matéria, noto algumas risadas no fundo da sala. Quando olho para trás, vejo Rick e seus amigos dando algumas risadas irritantes, eles arrancam uns papéis do caderno e as amassam. Não pode ser, eles vão jogar essas bolinhas de papel no Theo?

Rapidamente me levanto da minha mesa e corro até Rick e sua turma, infelizmente, não cheguei a tempo de impedir que jogassem as bolinhas, mas puxo Rick pelo colarinho e o levanto. Sem deixá-lo dizer qualquer palavra, começo a distribuir socos em seu rosto. Apesar de estar bem ocupado naquela hora, consigo notar o olhar apavorado de Theo sobre mim, o sangue de Rick espirra em meu rosto e então imediatamente paro de socá-lo.

- Josh, que merda foi essa? - Theo me pergunta com os olhos arregalados, seus olhos quase saíam de seu rosto.
- Ainda pergunta? Esse idiota jogou papel em você.
- Isso é um problema meu, você não tem que se intrometer nisso.

Por algum motivo, o que Theo está falando faz de fato algum sentido, porém não posso ficar parado vendo meu melhor amigo sofrer esse tipo de perseguição.
Antes que eu pudesse dizer algo, o diretor chega na sala.

-Josh Corrigan! Para a minha sala. Agora!
- Droga -murmuro.

...

Atlas está sentado ao meu lado, escutando tudo que o diretor está dizendo em silêncio, assentindo com a cabeça. Estou assustado, minhas pernas tremem de ansiedade. E se ele me bater? E se ele me tratar com desprezo? E se ele ficar igual aquela mulher?

- Apenas fique de olho em seu irmão, Sr. Corrigan. A punição será quatro dias de suspensão, já é a terceira vez este mês. Se acontecer de novo, não terei opção a não ser expulsá-lo.
- Sinto muito pelo o ocorrido, não irá se repetir. Não é mesmo, Josh?

Não consigo respondê-lo, sinto que vou engasgar e sufocar a qualquer momento, apenas balancei a cabeça em sinal positivo, concordando com o que ele havia me perguntado.

- Não me leve a mal, Sr. Corrigan, mas não quero que nossa escola seja influenciada pelo comportamento do seu irmão. Sei que o passado dele foi difícil, mas isso não dá à ele o direito de interromper a aula da professora e quebrar o nariz de um dos nossos estudantes.

Que mentira, ele só está preocupado assim porque o pai do Rick é quem mantém a escola funcionando. O próprio Rick admitiu, dizendo "Meu pai doa bufunfas de dinheiro para o diretor, essa escola estaria falida se não fosse por ele. E em troca, o diretor me protege de qualquer coisa."

- Sim, nós entendemos isso. Já encerramos por aqui? Tenho coisas para resolver - Atlas diz em um tom um pouco grosseiro.
- Sim sim, obrigado pela colaboração Sr. Corrigan. Tenha uma ótima tarde.

Os dois fazem um aperto de mão, Atlas está obviamente estressado, ele lança um olhar assustador para mim, como se estivesse prestes a me enforcar ali na frente do diretor. Estou com medo.
Ao sairmos da sala, Atlas não dirige uma palavra sequer até que cheguemos ao carro, ele abre a porta e se senta no banco do motorista e eu me sento ao seu lado, ponho o cinto. Porém ele continua parado, com as mãos no volante. Estou ferrado, ele vai me bater agora mesmo.

-Como está o outro garoto? Rick é o nome dele?
- Como? - pergunto.
- O nome do garoto que você bateu, ele se chama Rick?
- O nome dele é Ricardo, mas ele diz que esse nome é de classe baixa e que prefere ser chamado de Rick.
- Certo, e o nariz dele? Quebrou?
- Sim, sinto muito.
- Ótimo, poderia ter quebrado o braço dele também.
- Atlas? O que você está dizendo?
- Que você poderia ter quebrado o braço dele também.

Ah sim, eu esqueci. O Atlas não é aquela mulher. O Atlas é o Atlas.

- Cara, você me assustou. - Digo aliviado.
- Sinto muito, mas eu precisava fazer o papel de irmão rígido. Mas por que você bateu nele?
- Ele jogou algumas bolinhas de papel no Theo. E isso me deixou irritado.
- Entendi, você realmente deveria ter quebrado o braço dele.
- Talvez... Acho que eu deveria ter quebrado o braço e a perna dele.

...

Ao chegar em casa, vejo a Lily e a Emmy brincando com algumas massinhas, abraço a Lily e faço um carinho no cabelo de Emmy e subo para o meu quarto. Jogo a bolsa na cadeira e ligo meu videogame. Antes de iniciar uma partida de Call Of Duty, ouço uma voz familiar chegar e começar a subir as escadas, ele bate na porta e a abre.

- Call Of Duty? Sério?
- Sim, por que não se junta a mim, Theo?

A Terapia do AmorWhere stories live. Discover now