001 | Cartas Para Michael

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California, Los Angeles
Santa Barbara, Los Olivos
Rancho Neverland Vale
Michael Jackson -

Abri e fechei os olhos devagar. Estava fraco demais para continuar de pé, porém, a minha curiosidade continuava falando mais alto. Eu precisava descobrir quem era a mandante das minhas cartas de amor. Ainda mais agora que comecei a receber mensagens carinhosas, aparentemente de uma fã que age como terapeuta psiquíatra.

Faz longos meses que terminei meu casamento com Lisa. Me fechei para o amor, me permiti tirar férias. Me reclusei das pessoas do lado de fora. Não muito diferente do que fazia antes, todavia, existia uma incoerência.

Eu fugia da maldade dos outros. Dos tabloides sem fim. Da perseguição descabida em que me subtemeram. Para eles eu era um alguém ruim, que por ser negro não deveria ter o direito de comprar e nem adquirir nada.

Na realidade, sou só mais um inocente que está tendo sua imagem manchada pela mídia insalubre de hipócritas. Hoje em dia as esperanças se perdem muito fácil para quem não tem a mente aberta para tudo e qualquer coisa que pode vir em nossa direção.

── Onde está? ── me perguntei automaticamente. E a primeira vez que vejo as cartas se atrasarem na chegada.

Estava ansioso para ler as palavras de afeto. Me sinto na necessidade de sentir isso na pele, mas não acho ninguém a altura que esteja repleto de sonhos, coberto por fôlego e, sordidamente apaixonado por coisas fúteis.

Quando você se permite amar, você ama, e quando ama muito, é porquê é verdadeiro. Pensei que com a Lisa seria assim. Mas, para a minha decepção, amor não era o bastante para fazê-la feliz. Lisa queria viver, eu só precisava fugir e me apegar a paz e descanso pelo tempo que me fosse dado.

Só Deus sabe os planos que eu tinha para nós dois. Uma casa no campo, muitos filhos, uma vida feliz e divertida. Eu trocaria tudo por isso. Uma família. Não é todo dia que nós teremos uma oportunidade como essa, de aproveitar algo tão perfeito quanto o que o destino nos oferece.

Ouvi a campainha tocar do andar debaixo, me sentei na cama deliberadamente cansado e, usufrui do momento para respirar fundo. Retirei todas as forças que ainda restavam em mim e levantei da beira onde estava.

Abri a porta e desci as escadas aos poucos. Quando me esgueirei até o cômodo da frente olhei para o lado de fora da fresta e vi fios loiros de cabelos longos e olhos celestiais tão azuis quanto o mar oceânico que eu um dia conheci. A luz do sol refletia em suas íris reluzindo o aquarela em verde esmeralda.

Desconcertado com sua beleza, me endireitei corretamente diante da porta e abri-a dando-me a visão completamente angelical de uma mulher linda. É a primeira que vejo depois de meses e me sinto extremamente atraído. Como se o fogo me consumisse e derretesse lentamente a grade de ferro que eu coloquei no espaço profundo do meu coração.

Foi tão intenso quanto imprevisível.
Perfuramente calmo e singelamente torturante. Eu me compadecia com sua alma, mesmo sem conhecê-la totalmente como deveria. Fiquei impressionado e admirado com sua postura. Sua boca carnuda me extasiou de modo reconfortante.

Tratei de pigarrear para quebrar o clima estranho que surgiu no ar. Eu sabia que estava olhando demais, mas era mais forte que eu. Não conhecia controlar para onde os meus olhos deveriam olhar. Fiquei tanto tempo me mantendo em casa que me esqueci do cavalheirismo. Espero não tê-la assustado.

── Desculpe-me pelo atraso Sr. Jackson!

Assim que ela ia se virar para ir embora com sua bike roxa e rosa eu lhe parei no caminho e cocei a garganta na intenção de reformular todo o clima de tensão entre nós. Abri os portões de Neverland e disse aos guardas que lhe permitissem entrar aqui sempre quisesse.

Não sei o que me ocorreu. Mas, essa garota acabou de mexer muito comigo e abalar todas as minhas estruturas. Agora me sinto como um adolescente no auge dos 14 vivendo um amor impossível e proibido. Na minha época, pessoas negras não se misturavam com as brancas. Viviámos como animais em cativeiro, tendo se afastar dos nossos iguais só pela nossa cor.

── Espero vê-la de novo, srta?

Ela sorriu de um jeito tão adorável que meu peito se aqueceu e ela estendeu sua mão amigavelmente em minha direção para me cumprimentar.

── Lay Becker. ── seu sorriso aumentou e seus dentes brancos se tornavam mais fitáveis.

Beijei o dorso de sua mão enquanto a olhava nos olhos com certo acalento e avistava suas bochechas tomarem a cor vermelha para si.

Deixei-a ir embora para seguir rumo ao seu curso e olhei para as variadas cartas em minhas mãos, embaladas em um jornal e presas por um elástico amarelo.

Voltei para dentro do rancho e fechei a porta novamente sem trancar. Logo mais começaria o horário de expediente de trabalho dos meus funcionários. Não gosto que entrem pela porta detrás. São seres humanos normais não escravos.

Suspirei firme e esperei dona Remy chegar aqui, ansiosamente encorajado a contar para ela sobre a minha mandante secreta.

Retirei o elástico de uma das cartas e abri a mesma para pegar o papel de doces palavras apaixonadas. Indiretas de uma admiradora sofisticada e visivelmente tímida.

Comecei a ler a carta até o final da última palavra: "eu te amo". E percebi que minha querida mandante anônima havia apresentado o seu nome no fim da folha com a seguinte frase:

── Com amor, Lorelay. ── dei um sorriso em comemoração por ter descoberto a chave que abria o baú do meu tesouro.

Com amor, LorelayStories to obsess over. Discover now