A Morte

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Thomas era apaixonado por aquela biblioteca. Seria impossível ler a coleção gigantesca que se espalhava por corredores sem fim, mas ele estava determinado a ler pelo menos um livro de cada prateleira. Havia começado há 12 anos e, agora com 23 contava apenas mais duas prateleiras para concluir a sua missão. A bibliotecária Tori, uma senhora idosa que, na cabeça de Thomas, estava ali desde que a biblioteca fora construída já o conhecia e sempre preparava uma sugestão da prateleira seguinte na lista.

Até na seção de auto-ajuda – e ele odiava auto-ajuda – ela tinha encontrado livros que ele achara proveitosos e enriquecedores. Tinha certeza que nessas últimas duas ela encontraria algo único e especial para que terminasse brilhantemente essa jornada. Thomas entrou na biblioteca com o antepenúltimo livro na mão e se surpreendeu ao não encontrar a senhora no balcão. Se surpreendeu mais ainda ao não encontrar ninguém no lugar inteiro. Deu de ombros, estava determinado a terminar em breve o que havia começado. Faria como no começo e escolheria o livro que mais lhe chamasse a atenção.

Caminhou até o final do saguão e entrou na salinha destinada aos livros reservados aos sócios da biblioteca. Relíquias que haviam sido adquiridas pela direção do lugar. Thomas não fazia ideia de quem eram, mas tinham excelente gosto e uma habilidade incrível de encontrar edições sensacionais. Em alguma das seções lera Oliver Twist com um autógrafo do próprio Dickens e em outra uma edição de Hamlet que pertencera à Rainha Vitória. Fazia questão de pagar a taxa de cem dólares mensais por aquele acesso exclusivo.

Se pegou passando os dedos pelos livros, sentindo o papel, o couro dos livros encadernados na mão. Estava tão animado por estar tão perto do fim, mas sua alegria acabaria rapidamente. A penúltima prateleira da última estante era sobre demonologia e Thomas conhecia alguns dos nomes que estampavam os títulos. Pegou em suas mãos uma edição antiga e leu em voz alta "A personificação do Lete". Guardou o livro na bolsa que carregava. Se preparava para sair quando percebeu que a última prateleira só tinha um livro. Parecia tão antigo quanto o tempo, mas tão novo quanto uma semente. A capa dizia "O livro da vida". Thomas folhou as páginas e não teve tempo de se surpreender quando leu "Seu nome não está aqui" em sangue em todas elas.

Tori entrou gritando na salinha "FOGO! FOGO, THOMAS! CORRA, A BIBLIOTECA ESTÁ EM CHAMAS! NÃO VOLTE MAIS". Thomas a olhou confuso, mas as cortinas que separavam a salinha do resto da biblioteca já brilhavam em vermelho. Tori o olhou, agora com uma calma sobrenatural "Você está morto, Thomas, e este é seu inferno. Você já queimou com esta biblioteca milhares de vezes. Eu sempre te digo para não retornar, mas você sempre escolhe o maldito livro de Lete e esquece tudo". Thomas mal teve tempo de gritar antes de ser carbonizado pelo fogo.

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