CÃES DE CAÇA (Enzo Da Cruz)

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PARTE UM

Engasgada com o próprio choro, Ângela tentava quebrar um silêncio contínuo desde que sentei ao seu lado. As palavras não faziam sentido, mas me entristeciam. O desespero, a raiva, os traumas, expressões melancólicas diversas e inespecíficas pareciam enrolar-se a língua dela, ricocheteando repetidamente todas aquelas declarações.

Meu corpo induzia-se a tentar resolver a terrível questão. Minhas mãos secavam suas lágrimas, pouco antes de incitarem o movimento geral de envolvê-la com os braços, enquanto minha boca espalhava palavras de conforto. Conforme insistia nas práticas, minha garota acabava ficando menos ofegante, menos barulhenta, menos humana.

Enquanto a gradação tornava-se aparente, finalmente decido observar meu entorno. Sentado ao chão de uma floresta fantástica, em frente a uma cachoeira que desaguava ao meio de toda fantasia verde, pouco a pouco deixava-se ir com a própria natureza. Lágrimas escorrem de meus olhos, na mesma velocidade em que os dela fechavam lentamente. No completar do processo, afasto-a do conforto de meu abraço e posiciono seu corpo frio ao chão, para envolve-lo outra forma. Com uma força inexplicavelmente humana, pego-a em meus braços, como uma causa perdida, caminhando afora para despejar a crueldade da notícia real.

O fim do verde marcava-se pelo atravessar de uma extensa estrada. Ali, vendo-me carregar minha mulher, da minha sogra ao primo distante do campo, o mundo caía em desespero sob a exibição explícita daquela verdade trágica.

As sirenes chegam ao local, tarde demais.
A polícia questiona os parentes mais significativos, os mais distantes observavam o transtorno, aterrorizados. Os peritos tiram-na de minha posse física e fazem seu trabalho.

O enterro dela não demorou muito. De praxe, um evento que distribuiu rostos vazios. Não pela alta dose de melancolia contextualizada, mas pela falta de significância na presença de tantos ali. Entre diversos "Peguei essa aí no colo em 96", pouquíssimos sequer haviam sentido o molhado do desespero que expande nos ombros, a falta de ar que tenta estourar a garganta num show avassalador de autopiedade como carta na manga pra própria salvação, o combate direto contra o admirar do trauma sob a eclosão de um discurso que preocupa, enfim, todas esses micróbios carniceiros que chegam à espreita da compaixão.

PARTE DOIS

Ao pairar certeiro da umbra temporal, vi-me dirigindo até ao berço da tragédia na semana seguinte. Era uma tarde amena, daquelas que o sol não machuca a pele e o vento enfia goela abaixo uma vontade de estar vivo com um sopro leve de brisa no rosto, quase que saindo da boca divina.

Parado ao lado do meu carro no mesmo lugar em que surgi com meu coração nos braços, o magnetismo da memória me chama floresta afundo. Enquanto caminho, o entorno e as visões andavam de mãos dadas, a pureza mescla sua essência na saudade e me sinto à vontade para fechar os olhos e deixar o sentimento fluir.

Ao cravejar da idealização, um estrondo monstruoso ecoa ao espaço. Abro-me a vista e percebo um novo cenário. O destino havia colocado uma tocha na boca da mãe natureza, as árvores e os animais fundiram-se com fogo, a fumaça sobe com meu desespero. Ainda assim, opto pela apreciação do meu próprio silêncio, espectador do barulho da chamusca generalizada.

Enquanto observo tamanha destruição, ouço uma quebra melódica inesperada: Um choro infantil chega aos meus ouvidos e gera uma ação quase instantânea de busca, fazendo-me correr fogaréu adiante à procura daquela criança.

Completamente carregado pela intuição, meus passos levam-me ao lugar em que encontrei Ângela à beira da morte. Exatamente ali, as cordas vocais arranhadas de um bebê recém nascido eclodiam sofrimento.
Enrolado num pedaço de cobertor velho, o pequeno encarava-me como um propósito.

Tendo certeza do que significava, pego a criança no colo e levo-nos ao carro, percorrendo todo aquele rastro de destruição, mas chegando ao automóvel com segurança.


PARTE TRÊS

A campainha grita de pavor conforme aperto-a compulsivamente. Passos lentos demonstram o aproximar do único alguém capaz de me ajudar a resolver tamanha questão.

Enxergo-a quando abre a porta. Quase uma noiva cadáver, o pomposo vestido preto construía uma identidade específica, sendo exibido ao adicional de um véu preto cobrindo a face.

A única coisa que impede seu corpo de camuflar-se com ambiente, é a chama fina de um candelabro que carregava na mão que não segurava a porta.
Sem dizer uma palavra, ela guia-me com seu caminhar pelo apartamento escuro. Sigo-a, com a criança ainda em meus braços. O percurso é minúsculo e logo encontro-me na posição necessária.

Sala de estar, duas poltronas, uma mesa de centro com aquele candelabro em sua superfície. Direcionada à minha frente, a terapeuta tira o pano responsável por cobrir seus rostos.

A delicadeza estrutural que trazia em suas vestes, contrasta ao imediato quando revela uma cabeça de labradores siameses, onde deveria carregar um semblante de mulher. Carregando a força de sua voz simultaneamente duplicada em tons graves e agudos, diz:

- Ela ainda faz parte da sua alma, não é?

Num tom de concordância absoluta, respondo imediatamente:

- De cada partezinha dela.

Tais quatro olhos observam o pequenino em meu colo e seus focinhos entregam-me uma pergunta pretensiosa:

- E você tem evitado, senhor?

- Eu tenho feito o possível.

- Essa coisa em seus braços demonstra o contrário. Como deixou isso acontecer?

- Foi instintivo, só senti que deveria voltar naquele lugar.

- Imagino que a esse grau de longevidade das nossas conversas, você sabe que é difícil espremer algo que te conforte desse instinto.

- Foi isso! Tentei enxergar aquele contexto sobre outro ponto de vista e ressignificar tudo, mas a conduta só me trouxe destruição e essa criança.

- É um incômodo ver você achar que essas coisas se curam desse jeito. Ressignificar? Porra...

- Preferia que eu colocasse uma aliança no que restou dela?

- Não. Deveria ser de sua preferência nunca mais pisar naquela maldita floresta sabendo que sempre vai enxergar ela da mesma forma! Ângela faz parte de ti e você não parece ter condição de ressignificar a presença dela, o seu coração não concorda com as suas intenções.

Um silêncio geral esbanja meu choque, que ocasiona em um choro libertador. Ao decorrer do que cai de meus olhos, as faces dos cães de caça aproximam-se do meu rosto, dizendo:

- Deixe ela ir.

EPÍLOGO

Casa 74, numa rua próxima a da minha residência. Posiciono uma caixa de papelão comum ao tapete de boas vindas, com um bilhete colado em sua estrutura. Bato levemente na porta e volto ao meu carro, estacionado em outra calçada.

Pouquíssimos minutos depois, Ângela abre a porta do local, pega a encomenda e lê o escrito: "suas coisas".
Ela sorri.

GAS(H)LIGHTNINGWhere stories live. Discover now