"Era de manhã quando te conheci, você, tão linda e serena, mantendo a mesma carinha fechada de sempre. Naquele dia tive a certeza de que eu a amaria até que fosse tirado meu último suspiro, nunca imaginei o quanto sua presença mudaria o rumo da minha vida..." Disse ele antes de partir e deixar-me nesse beco de solidão e mágoas.
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[16/09/2025]
Após anos sendo tratada como uma inútil, que não seria nada além de uma perda de tempo e dinheiro para meus pais, decidi que era a hora de mudar. Meu pai não gostou da idéia de eu arrumar um emprego, ele disse que eu não precisava fazer isso, que eu tenho tudo que preciso e quero...Ele me trata como uma verdadeira princesa, tenho que confessar, sou uma garota extremamente mimada, não posso me culpar por isso, meu pai sempre me fez acreditar que eu mereço tudo do melhor que tem e que alguém que não fosse capaz de aceitar isso não merecia meu respeito, nem minha atenção...Passei anos da minha vida tendo relacionamentos fracassados graças aos ensinamentos sagrados de meu pai, não o culpo cem porcento disso, porém não posso deixar de sentir que fui induzida a ser o que sou, talvez se ele tivesse mudado minha forma de pensar...Ou se minha mãe tivesse interferido nisso! Talvez eu não estivesse aqui sozinha relatando isso em páginas brancas de um velho diário infantil, é ridículo pensar que, uma jovem no início dos seus vinte anos ainda escreva em um diário porém essa é a minha realidade.
Assinado com todo o desprezo e mágoas possíveis: Luane Amélie de Albuquerque.
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"Hora de voltar a realidade Amélie, você não pode mudar quem você é, não vê que todos tem razão sobre você? Ainda não consegue admitir isso, mas se pensar um pouco perceberá que todo o sacrifício de seu pai foi inútil, você é nojenta, sente raiva de alguém que só quer o seu bem! Você é uma privilegiada fingindo ter problemas, problemas mesmo tem quem passa fome! Quem não tem uma roupa sequer para vestir, enquanto você chora no colo do seu papai por não ter uma roupa bonita o suficiente para sair com suas amigas fúteis e asquerosas como você!" - Minha mente é minha maior inimiga, todos os dias ela me faz ter pensamentos terríveis sobre mim mesma, talvez eu devesse tentar diminuir o volume dessa voz voltar para a terapia ainda é uma opção de qualquer forma....Não, não posso voltar, não depois de tudo que disse para aquela mulher.
Capítulo um : a verdade sobre Luane Amélie
É trágico pensar que tudo que fazemos um dia não será nada além de um desperdício de tempo e esforço, diariamente tenho pensamentos como esse, não sei se o que estou dizendo faz algum sentido, mas acredito que o melhor por agora é deixar esse pensamento de lado e arrumar logo meu quarto...Oh, não contei sobre meu quarto né? Bem vou deixar-te mais atualizado sobre o que digo...Voltarei um pouco no tempo, para cinco horas atrás...
Domingo, 6:15 am.
- Amélie já não te disse que não quero essas suas amigas aqui em casa? Essas garotas até parecem não ter casa! Ficam o dia inteiro mexendo nas suas coisas como se não tivessem dono! Seu pai trabalha para compra-las para VOCÊ! Não para suas amiguinhas folgadas! Se elas não podem ter, que pena, mas abusar da sua bondade já é demais! A partir do dia de hoje, nenhuma delas entra nessa casa sem a minha autorização! - Minha mãe chega disparando palavras por todo lado, sem me deixar falar nada isso me deixa tão enfurecida, sei que moro na casa dela e que devo respeitar suas regras, mas ela não me deixar sequer me explicar! Sempre sai antes que eu possa falar algo! - Ah! E arrume essa bagunça, é uma vergonha ver um quarto tão bagunçado desse jeito. - Ela diz e sai do quarto me deixando sozinha com meus pensamentos.
- Sozinha novamente nesse quarto tão frio quanto o vazio que ironicamente me preenche. - Ela se encolhe na cama parecendo um caracol de tão enrolada que estava, tentando manter-se aquecida somente com o calor de seu corpo, o ar-condicionado de seu quarto mantinha a temperatura sempre baixa, algo que não era ruim já que no Rio o calor é constante. - Hoje eu deveria ir na praia pegar um bronze...Poderia ir ao clube...Mas não quero ver a cara de pastel daquele povo de lá... - Ela se levanta e anda até a porta da saída de seu quarto. Ela esperava que seu dia fosse cheio de areia e água salgada, mesmo que isso dependa da boa vontade de sua mãe de deixá-la sair sem reclamar de tudo mais uma vez.
- Ô mãe? Eu vou na praia hoje beleza? - Ela diz ao chegar na cozinha esperando a resposta da mais velha. - E não, o clube não vai ser uma opção, hoje é fim de semana então aquele monte de criança chata vai estar lá como todo sábado.
M - E por isso você vai pra praia como se sou pai não gastasse horrores para ser sócio daquele clube? Você é tão ingrata! Se eu fosse você iria pro clube de bom grado e agradeceria por poder ir? Na sua idade eu não tinha todas essas regalias não tá? Eu sim tinha que ir pra praia se quisesse me refrescar. - Com sua voz arrogante ela fala e faz expressões que me deixam enojada, eu nunca quis tanto manda-la calar a boca.
- Sinto muito mãe...Mas isso não é minha culpa, o papai não se importa então...Eu vou sim, fiz tanta coisa só pra te agradar, mas agora eu percebi que tudo que fiz foi perca de tempo, então se me der licença eu tô vazando! - Saio da cozinha subindo as escadas novamente para ir ao meu quarto.
M - AGORA DEU PRA FALAR IGUAL UMA FAVELADA? GÍRIA VOCÊ USA COM SUAS AMIGUINHAS! AQUELE BANDO DE... - Eu parei de ouvir a partir daqui...
