Capítulo 1

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José Victor Pires afirmava para si diariamente, voluntariamente ou sem querer, o quão hétero era. Sua beleza e impacto sobre mulheres e outros homens constantemente o forçaram a lidar com a pergunta tão cansativa e frequente nas caixinhas para stories que o Instagram fornecia. Desde a sua primeira noite respondendo às mais aleatórias questões, o número de vezes que o perguntavam, 'já beijou homens?', 'é gay?', 'ficaria com algum cara?' era o que tornava mais massante aquela prática tão requerida pelos administradores de perfil de famosos. No entanto, devido ao seu contato com o mundo do teatro desde muito pequeno, e sua vida estar constantemente sob um holofote, era também fácil se desvencilhar dessas questões e focar em outros assuntos. Seus preferidos eram sobre seus trabalhos passados na televisão, e planos para o futuro. Outra questão que sempre aparecia e o deixava desconcertado, era o infame 'vai voltar para a Globo?'. Todo ator que se preze lutava para chegar à tela da terceira maior emissora do mundo, mas haviam inúmeros fatores que tornavam esse caminho muito complicado, e seus seguidores não pareciam compreender isso.

Depois de gravar o último stories da noite respondendo mais uma leva de perguntas que variavam entre: 'já respondidas antes' e 'sem noção', José fechou o Instagram e abriu seu Whatsapp. A festa de hoje a noite tinha tudo para ser incrível e ele já não sentia o gosto de uma boca feminina há pelo menos uma semana. Desde o término com sua ex, beijara ao menos outras 10 mulheres, cada uma mais linda que a anterior, mas nenhuma lhe dera a sensação de sossego e vontade de namorar que precisava. As festas que frequentava também dificultavam o papo leve e descontraído que costumava contribuir para a construção desse tipo de relação e, nos últimos meses, ele não estava ligando muito pra isso. Sexo também não era difícil de conseguir, seu corpo era escultural, e ele não precisava de esforço nenhum para convencer a interessada da noite a segui-lo para um motel. Na maioria das vezes que iam até esses lugares, acabavam tendo uma noite satisfatória. Poucas conseguiam deixá-lo exausto quanto sua ex mas, tendo em vista que nem se lembrava da última vez que precisara se masturbar para aliviar o tesão, um sexo casual ainda era melhor que fazer tudo sozinho em casa.

A última mensagem no grupo da festa deixou José desolado. Ele rapidamente se virou para a janela, puxou as cortinas black-out de lado e tirou o headset da cabeça para ouvir melhor e confirmar o conteúdo da mensagem de texto: estava caindo um temporal, e a festa precisou ser cancelada. O garoto levou as mãos ao rosto, expressando sua indignação com o fato de que precisaria passar a noite de sábado ali na sua casa e na companhia de ninguém além de si mesmo. Seus pais haviam viajado naquele fim de semana, e tudo já estava devidamente organizado para, caso encontrasse uma ficante naquela noite, não precisar sequer gastar com motel.

Depois de alguns segundos sofrendo como um condenado, José se levantou da cama, deixando as migalhas do sanduíche que fizera mais cedo caírem e se misturarem ao tapete branco que ficava à frente da cama. Ao longo da semana alguém viria ali limpar aquela bagunça mas, agora, ele precisava de algo para lidar com o péssimo sentimento de abandono que estava sentindo. Como um extrovertido nato, passar uma noite sozinho sem tê-la planejado antes era sinônimo de derrota. Ao se deslocar para a porta do quarto, José olhou de relance para seu Playstation, que não ligava desde a última folga na quarta-feira, e uma ideia que eventualmente teria surgido de uma maneira ou outra durante as próximas horas veio à sua mente. Depois de ligar o console, ele pegou o celular que havia deixado sob a cama e vasculhou os integrantes do grupo da festa por um nome. Depois de rolar até a letra B, lá estava ele, seu melhor e inseparável amigo: Bernardo Felipe.

'Bom, ao menos sozinho não preciso ficar hoje', balbuciou José.

Caminhando até a geladeira para pegar uma garrafa de cerveja que planejava tomar no dia seguinte, o desanimado jovem de vinte e poucos anos clicou no perfil de seu amigo que, por ironia do destino, era também seu vizinho e apertou o botão de gravar áudio com seu polegar direito. A mensagem era clara: um convite para jogarem algo e evitar o tédio que já caia sobre eles nesta chuvosa noite de sábado. Qual não foi a surpresa de Zé, apelido pelo qual sabia que seria chamado em alguns instantes e pelo resto da noite, quando, ao soltar o botão de gravação ouviu a campainha do apartamento tocar a alguns metros de onde estava.

Brotheragem - José Victor PiresStories to obsess over. Discover now