Capítulo 1

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Já passaram três horas e ele ainda não voltou... Eu sei... Eu sei que não devia estar a preocupar-me... Mas o que é que queres?

"Ridícula... A escrever num diário... Nunca aprendes... Continuando..."

Afinal de contas... Ele só foi ver o rio e já vinha para casa... Caramba... Sempre a demorar mais do que o que é necessário... Agora fico eu aqui sem saber quando tirar a sopa do lume... Eu vou lá... Vai aprender...

"Se calhar largava, mas era o raio da caneta e punha-me a andar... É melhor, é... Raio do rapaz... Tirar isto daqui... Ora, a chave? Ah, está aqui... Vamos lá, então... Sempre a dizer... Não, vou só ao rio... Está bem, está... Logo hoje que eu tinha a sopa a aquecer... E eu avisei-o... 'Adam, demora pouquinho, que é só fazer a sopa' E ele ouviu-me? Não... Claro que não... Nunca me ouve... Sempre a desobedecer... Se fosse eu? Ui, ui... Se fosse eu... Era logo a ouvir... Caramba... Enfim... Pelo menos escolheu um dia bom para desobedecer... Está cá um ventinho... Já estou a ver o rio... Aproveito e bebo um bocado de água... Estranho... Não me parece estar ali..."

- ADAM! ADAM, VEM PARA CASA QUE O JANTAR JÁ ESTÁ FEITO! ADAM!

"Esquisito... Normalmente responde-me... Deve estar a esconder-se... Cá para mim está atrás daquele pedregulho outra vez... Raio do rapaz..."

- ADAM, HOJE NÃO, TENHO A SOPA AO LUME!

"Eu já te digo como é... Vais logo na minha frente que nem é bom... Espera só até te apanhar... Lavas logo tu a loiça... A tua sorte é que hoje é pouca..."

- ADAM, VÁ, VAMOS... Hein?

"O quê? Não está aqui?"

- ADAM, NÃO ESTOU A ACHAR GRAÇA NENHUMA! VEM-TE EMBORA, IMEDIATAMENTE!

"Nem deixou aqui nada no chão... Hein? Estas pegadas... Estas pegadas são dele, que ele veio com as botas de couro, hoje... Vou segui-las... Foi para a floresta, o miúdo... Eu já lhe disse para não ir para a floresta de noite... Raios o partam... Ainda por cima com a sopa ao lume... Caramba... Se havia necessidade... Credo, que escuro... E ainda está mais húmido..."

- ADAM, VEM PARA CASA, MANO... NÃO TENS FOME?

"Já começo a ficar preocupada... Isto não é normal... Ele costuma ficar mais tempo, mas não assim tanto... Será que alguém o levou? Mas não costuma haver aqui ninguém... Muito menos na floresta... Será que foi para a clareira? É isso! Foi para lá... Só pode... Deve se ter deitado no musgo e adormecido... Por isso é que não me ouve... Lá está! As pegadas levam para lá... Vou, mas é a correr para lá chegar antes que o sol caia completamente. Aff... Devia ter trazido as sapatilhas... Correr aqui de chinelos... Estou sujeita a bater numa pedra e a partir uma unha... Raio... Não... Coitado... Se ele acordar aqui sozinho também fica assustado... Já é ali a clareira... Devias treinar mais a corrida... Não aguentavas um corta-mato... Eich, não bebi água... Bem, agora também já só bebo em casa... Vá, um último sprint... Um, dois, um, dois, um, dois... Linda menina... Mantém o ritmo... Já falta pouco... E... Cá estamos..."

- ADAM... ADAM, QUERIDO, ONDE ESTÁS?

"As pegadas param aqui... Mesmo contra esta árvore... Será que ele trepou à árvore? Não... Estranho... Nunca a vi aqui... E tão grande... Devia ter reparado nela antes... Será que está do outro lado? Deixa ver... Não... Mas... Que esquisito... Parece que está... Oco... Deixa-me... Tentar... Bater-lhe! UOU! Ya... Partiu... Uma árvore tão grande e um tronco tão fraco? Será que se escondeu aqui dentro? Se se escondeu aqui vai apanhar, ai isso vai, que eu estou demasiado assutada por causa dele... Será seguro espreitar? És mesmo ridícula, é uma árvore, o que é que pode acontecer? Deixa ver... Bem, o buraco é grande..."

O Coração não menteStories to obsess over. Discover now