Meus olhos cansados me encararam no reflexo da porta de vidro depois que o outro professor se despediu. Tranquei a porta e subi as escadas.
A prefeitura da cidade passou um decreto que nenhum estabelecimento podia funcionar depois das seis da tarde. Decidimos sempre ficar na escola para dar as aulas online, uma dessas coisas que vieram com a pandemia, e o último professor a sair ficava com as chaves e fechava a escola. Hoje era minha vez.
Apaguei algumas luzes no caminho, não queria ficar caminhando pela escola após a aula, sentei em frente ao computador e peguei o plano de aula. Pelo menos era uma dessas aulas temáticas com vários alunos, e eu só precisava guiar a conversa. A luz branca que parece ser obrigatória nas escolas de idiomas piscou e ameaçou apagar, acontecia toda vez. Mas a aula precisava começar, então eu tentaria consertar quando a aula já estivesse correndo bem.
E eu soube que a aula correria bem quando vi o nome da Juliana na lista. Ela era desses alunos que resgatava a aula mais chata, era sempre um alívio para os professores. Então a minha última aula passaria rápido e logo eu estaria no caminho para casa.
A aula mal havia começado e eu já não seguia mais o plano, e não foi uma escolha difícil, usar meu tempo em uma aula sobre família para perguntar o que constitui uma família tradicional era praticamente jogar a conversa no lixo. Preferi uma conversa sobre tios e tias insuportáveis, isso gastaria uns bons minutos da aula.
Juliana contava sobre a tia que sempre pergunta dos namorados nas festas de família e sua vontade de revelar para a velha que era homossexual. Estava imitando a tia tendo um ataque cardíaco quando seu quadro sumiu.
— Eita, teacher, a Ju caiu.
A obrigatória bronca por usar português na aula foi interrompida por uma porta batendo, por isso continuei a conversa com os alunos. Alguns instantes se passaram e uma nova tela abriu na sala virtual: Juliana estava de volta. Mas algo estava estranho. Seu sorriso estava muito amplo, os olhos muito arregalados. Os movimentos travavam, como se houvesse um problema em sua comunicação. A voz vinha meio metálica com as desculpas pelos problemas.
Tentei seguir a aula, mas havia um peso em meu peito, tirando minha concentração. Respirava com dificuldade e sentia o coração bater com força. O café servido a pouco tempo da garrafa térmica chegou gelado na boca, cheio do sabor de cinzas.
O vento fazia as frestas da janela mal fechada uivarem dentro da sala e o vidro tremer levemente. Eu segui perguntando sobre parentes inconvenientes, sobre a comida da avó, sobre brigas com os irmãos. E a todo momento a presença de Juliana me incomodava. O jeito como falava, o jeito que se movia, o jeito como mais nada no quarto dela se movia. E os olhos.
Os olhos eram a pior parte. A parte branca era muito mais branca do que deveria ser. E as pupilas eram totalmente negras, sem reflexo, profundas como um poço. Ela encarava a câmera e eu não consegui conter minha curiosidade. Cliquei para maximizar a tela para mim, assim poderia ver o que estava errado na conexão. O quadro pulou da direita para a esquerda e ampliou.
Juliana reajustou seu olhar lentamente, como se me encarasse pela tela do computador. E o sorriso aumentou um pouco. A minha mesa tremeu e meu coração parou por um segundo. Mas era só uma mensagem chegando no meu celular que eu veria depois.
— Teacher, você está bem?
— In English, Alexandre! — respondi, mas eu mesmo continuei em português. — Na verdade, não estou. Vamos encerrar a aula dez minutinhos mais cedo?
Os alunos concordaram e se despediram, desejando melhoras. Juliana foi a última a sair e, quando desejei boa noite, ela apenas sorriu. Registrei as presenças, dei nota aos alunos e desliguei o computador. Peguei o celular e a notificação apareceu: uma mensagem de voz de Juliana, que automaticamente reproduzi.
— Teacher, desculpa, aconteceu alguma coisa com a minha internet aqui e eue não consegui voltar para a aula. Posso remarcar para amanhã?
Com um clique a porta da sala abriu. Levantei os olhos lentamente, lutando contra a vontade de me empurrar para trás. Queria olhar para a porta, mas não consegui. Ali, atrás do computador, estavam os mesmos olhos. Brancos demais. Negros demais. Profundos e, dessa vez, incorpóreos.
Antes que a cabeça levantasse e eu tivesse que encarar aquele terrível sorriso, saltei da cadeira e corri. Peguei a minha mochila e me agradeci por ter apagado as luzes fora do caminho direto para a saída. Mas me amaldiçoei por sempre escolher as salas que ficam para o fundo da escola.
Olhos me encaravam de todos os vidros. Mãos sem dono batiam, fazendo as janelas tremerem. Abaixei a cabeça e corri para a porta, acionei o alarme e saí.
Mas precisei voltar.
Não podia deixar a porta aberta, deixar a escola destrancada durante a noite toda. Caminhei de um lado a outro por segundos que pareceram horas, e decidi trancar a porta de vidro sem levantar os olhos.
Tateando, encontrei a fechadura e virei a chave. Quando a tirei, mais batidas no vidro o fizeram tremer e eu a derrubei no chão. E quando me levantei de novo, não pude evitar de encarar o vidro.
E ali, parada no meio da recepção, flutuando sobre as cadeiras, estava Juliana. Os olhos me encarando, o sorriso largo. Ela levantou a mão em minha direção.
E eu fugi. Peguei minha bicicleta, segurando a corrente com a boca e pedalei o mais rápido que pude pela avenida iluminada. Quando finalmente senti meu coração mais leve e me senti seguro, parei. Guardei a corrente na mochila e bebi um gole de água. Eu consegui me salvar.
Mas amanhã terei a última aula de novo...
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A última aula do dia
ParanormalAs pessoas falam muito sobre as dificuldades que passamos durante a pandemia, sobre como mudamos nossos hábitos. Ninguém fala que os fantasmas mudaram os hábitos deles também, e eu descobri isso em minha última aula online do dia. Esse é um conto so...
