O Corvo e o Espelho

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A sala de aula 14B da Universidade de Michigan estava cheia de um silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido baixo do projetor e pelo som distante da chuva batendo nas janelas. Santiago ajustou os óculos de aro fino, sentindo o suor frio escorrer por suas costas enquanto encarava as trinta pessoas sentadas em cadeiras de plástico. Ele respirou fundo, repetindo mentalmente seu mantra: "São só palavras." Mas, naquele momento, as palavras pareciam mais pesadas do que nunca.

Seu slide exibia um verso de "O Corvo", de Edgar Allan Poe, em letras brancas sobre um fundo preto:

"E o corvo, imóvel, ali permanece,
Sentado, sobre o alvo busto de Palas.
Seus olhos têm a aparência
De um demônio que sonha."

— Poe nos confronta com a dualidade — começou Santiago, a voz estável, mas com um tremor quase imperceptível. — O corvo é ao mesmo tempo mensageiro e predador. Mas e nós? Quantas faces carregamos para sobreviver?

Um riso baixo ecoou no fundo da sala. Santiago ergueu os olhos e viu Marcelo pela primeira vez. O rapaz estava recostado na última fileira, as botas sujas de neve apoiadas na cadeira da frente. Seu braço direito, coberto por tatuagens de corvos e correntes quebradas, balançava uma caneca de café vazia. Ele usava uma jaqueta de couro cravejada de pins de bandas de metal, e seu cabelo escuro caía em mechas desalinhadas sobre os olhos castanhos, que brilhavam com uma mistura de desafio e algo mais profundo, algo que Santiago não conseguia nomear.

— Predador? — interrompeu Marcelo, erguendo a caneca como um troféu macabro. — Ou só outra vítima gritando por socorro?

Santiago travou. O sotaque de Marcelo era americano, mas suas palavras tinham um peso estranho, como se carregassem um segredo engasgado. Ele sentiu um nó na garganta, mas respirou fundo, lembrando-se das anotações marginais que fizera às 3h da manhã.

— O corvo... é um símbolo — continuou, evitando o olhar do rapaz. — A dualidade não exclui a dor.

— Claro que não. — Marcelo inclinou-se para frente, revelando uma cicatriz pálida que serpenteava sob sua gola. — Mas dor sem revolta é só masoquismo.

A sala ficou em silêncio. Nos olhos castanhos de Marcelo, Santiago viu algo fugidio — um brilho de raiva antiga, ou medo? Antes que pudesse responder, o professor interveio:

— Marcelo, se quiser debater, espere sua vez.

O rapaz levantou-se com um sorriso vazio, derrubando a cadeira com um estrondo.

— Debater com quem? — zombou, caminhando até a porta. — Ele só fala de mortos.

Na saída, jogou um pedaço de papel amassado na mesa de Santiago que, quando desdobrado, revelou um verso rabiscado à mão:

"O corvo não geme,
mas suas asas cortam
quem ousa olhar
para o que ele esconde
sob as penas."
— M.R.

Santiago guardou o papel na manga do suéter, sentindo um frio percorrer sua espinha. Algo naqueles versos o perturbava, como se fossem um aviso ou uma confissão disfarçada.

 Algo naqueles versos o perturbava, como se fossem um aviso ou uma confissão disfarçada

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Entre Prosas e SegredosWhere stories live. Discover now