O preço da coragem

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Nunca tive medo da morte. Talvez porque nunca pensei muito nela antes de vir parar aqui. Sempre achei que a morte era algo que só acontecia aos outros, algo distante, reservado para quem já viveu o suficiente. Agora, não consigo deixar de pensar que existem formas piores de morrer do que simplesmente deixar de respirar.

A ciência diz que a morte acontece quando o coração, o cérebro e os pulmões param de funcionar. Mas, para mim, morrer também é perder a vontade de viver. É quando você deixa de sonhar, de sentir, de lutar. É passar os dias como um robô, programado para fazer as mesmas coisas repetidamente, sem nem perceber o tempo escorrendo pelas mãos.

É exatamente assim que me sinto aqui dentro. Na prisão, os dias se misturam. Tudo é igual. Acordar, comer, trabalhar, dormir. Às vezes, algo diferente acontece - uma briga, uma fofoca, alguém que acaba na enfermaria por não pagar o que devia. Mas, no geral, é sempre o mesmo. O tempo parece congelado, como se cada hora se arrastasse um pouco mais devagar que a anterior.

E eu? Eu não sei mais quem sou aqui dentro. A mulher que entrou por aquelas portas - doce, confusa, ingênua - já não existe mais. Talvez ela tenha morrido no dia em que a sentença foi lida.

Enquanto eu olhava para a pequena janela da cela, o som de passos apressados e vozes exaltadas ecoava pelos corredores. Algo estava acontecendo. De novo.

Cachinhos entrou na cela com a expressão séria, um contraste com seu habitual tom debochado.

— Mais uma que não aguentou - disse ela, jogando-se no beliche de baixo.

Eu me virei para ela, confusa.

— O que aconteceu?

— Lidia. Encontraram ela no banheiro, pendurada pelo lençol.

Meu estômago revirou, e por um momento, fiquei sem palavras.

— Mas... ela tinha dito que ia tentar sair na condicional - murmurei, mais para mim mesma.

Cachinhos soltou uma risada seca, sem humor.

— Condicional? Isso aqui não é um conto de fadas, Maca. Lidia era só mais uma que não aguentou esse lugar. Não é a primeira, e não vai ser a última.

Eu me sentei na cama, tentando processar aquilo. Lidia era uma das poucas que ainda pareciam ter alguma esperança.

— Ela era forte - insisti, mais para afastar o desconforto.

— Ninguém é forte aqui dentro - Cachinhos respondeu, com o olhar fixo no teto. - A gente só finge ser, até quebrar.

O silêncio que se seguiu era pesado. Eu sentia um nó na garganta, mas as lágrimas não vinham.

— É isso que acontece aqui, loirinha. Você vive no automático, dia após dia, até que, um dia, ou desiste, ou acaba morta pelas mãos de alguém.

Olhei novamente para a janela. A luz que entrava parecia mais fraca agora, como se estivesse cedendo à escuridão que nos rodeava.

— Talvez ela tenha encontrado paz - murmurei.

Cachinhos deu de ombros, indiferente.

— Talvez. Ou talvez só tenha se livrado do inferno que é acordar aqui todo dia.

Macarena ficou ali, parada diante da janela minúscula de sua cela, olhando para o que restava da luz do dia. O sol estava começando a se pôr, e a escuridão começava a invadir o espaço, como se também estivesse entrando em sua mente. Um silêncio opressor se instalou. O som dos passos apressados e das vozes exaltadas nos corredores havia sumido, mas, dentro de sua cabeça, tudo estava mais alto do que nunca.

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⏰ Last updated: Dec 20, 2024 ⏰

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