Alan Sweetsmile, além de Marques de Little Row, também tinha responsabilidades políticas no estado de Hesterfield cujas cidades eram compostas por grandes propriedades e fazendas de pomares diversos: cultivo de banana, cacau e lã. Devido a sua amizade e funções extras para com a coroa, o Sweetsmile foi encarregado do marquesado de dois estados, mas o senhorio já estava ficando velho para permanecer com o controle organizacional de ambos órgãos federais, precisaria de ajuda e a rainha, Sule Jahari Mabanckou, encarregaria-se disso.
"O destino desarma o ser quando o mesmo tem o conhecimento de que, por mais que tente mandar em seus pés, eles tomam o caminho que querem. Será que não adianta viver de planejamento quando a incerteza do futuro bate à porta? Mesmo dúbio, nada impede o ser de ter propósito e audácia para moldar o futuro ao seu bem querer, pois as mudanças não surgem instantaneamente, é um sistema de ações e consequências. O progresso anda a cavalo e este precisa ser alimentado e tratado com a mais afável das intenções visionárias."
-Papai, o que é progresso? -Perguntou uma curiosa mocinha de dez anos que estava sentada em uma poltrona florida posta exclusivamente para ela no escritório do Sr. Alan Sweetsmile, este que se encontrava detrás de sua escrivaninha, desenhando uma espécie de moedor num pedaço de papel oxidado.
A criança lia em voz alta para o pai, um livro assinado com duas iniciais, C. Y. O objeto agora estava pousado em seu colo de saias possuidoras de camadas e mais camadas de bordados, com o pequeno dedo marcando a página a qual tinha pausado para questionar sobre a palavra nova.
-Vem aqui. -Chamou, e a menina com um pulo desceu da poltrona e foi correndo até a escrivaninha do pai. Deixou o livro aberto sobre a mesma e olhou para onde o dedo do mais velho apontava. No pedaço de papel amarelado estava desenhado várias peças de algo que resultava em um desenho já formado. -É um moedor a manivela.
-Para as sementes?
-Sim, para as sementes. Quando estiver finalizado, poderemos moer mais sementes em pouco tempo, acelerar a nossa linha de produção e com o lucro construiremos mais fábricas em cidades menores pelo país inteiro para gerar mais empregos aos moradores locais que não precisarão abandonar as suas famílias para procurar trabalho em outras cidades. E consequentemente iremos modernizar e abranger a fabricação do Chocolat Sweetsmile. E isto, minha pequena Celina, é progresso.
-Então o progresso é algo bom?
-Não exatamente, minha querida. Lembre-se, nada se cria sem consequências. Por menor que seja, sempre haverá danos.
-Mas precisamos do progresso? -Indagou Celina moderadamente, ponderada.
-Sim, para a melhoria de vidas. -Celina assentiu com uma compreensão que geralmente se encontrava em rostos mais maduros.
***
Cinco anos mais tarde, Celina acompanhava a mãe, a marquesa Charlotte Sweetsmile, em um chá da tarde com algumas senhoras e jovens moças prestes a debutar. A jovem lia um livro de teoria política e social, enquanto, elegantemente, levava a xícara à boca. Tinha em seu corpo um lindo vestido de musselina coral com estampas brancas combinando com o da mãe que era branco com estampas coral.
-Perdoe-me, milady. Mas considero esse comportamento um tanto inadequado. -Celina, que estava muito atenta ao livro, não ouvia diretamente a conversa à mesa. -Ela não nos olha, não nos ouve! Parece uma pintura. Tem postura e beleza, admito, mas não dirige uma só palavra.
-Não há nada a se perdoar, sra. Méndez. A minha Celina se entretém com ciência, política e literatura, almeja o conhecimento mais do que a um marido, ela não precisa dirigir uma só palavra aos convidados se estes não correspondem à ideia de uma conversa satisfatória para ela. Morreria de tédio, estou certa de que o estaria agora se não fosse por algo que está prestes a enfrentar para cunho pessoal. Estudando dia e noite, pausando para as refeições e as oito horas de sono. Ela é uma saudável geniazinha. -Enquanto falava, a marquesa olhava para a filhinha que fazia algumas anotações nas bordas do livro, puxava setas, circulava palavras e fazia registros em um bloco de notas de capa de couro rosa com folhas douradas nas extremidades e no centro havia um enorme e adorável C dourado. A marquesa retornava a sua visão às convidadas que se encontravam incrédulas, como se ela tivesse atirado no próprio pé. Charlotte apenas gargalhou com uma elegância que só ela (e uma certa majestade) conseguia expressar.
-Ela deveria estar passeando com as outras jovens moças em suas roseiras, orgulhar-se delas, exibir-se. Assusta-me a sua imprudência com a sua filha, milady.
-Imprudência? -Agora a voz fora da que até então estava em silêncio. Celina fechou o livro e pôs seu bloco de notas sobre o mesmo, descansando-os sobre a mesa. -Estou magra demais, sra. Méndez? -Esta negou com a cabeça. -Meu cabelo está divino, não é mesmo sra. Méndez? -Assentiu. -Meu vestido. Última moda no país, desenhada por uma das melhores modistas da atualidade, cores adoráveis, não concorda, sra. Méndez?
-S-Sim, o rosa lhe cai bem.
-É a minha cor preferida, a tenho em muito carinho, por mim todo o meu enxoval seria em todos os tons existentes de rosa o que, a meu ver, torna-me uma rosa-flor com pernas e fala para dizer-lhe, sra. Méndez, que a minha beleza e os meus modos são consequências da minha própria natureza feminina e dos meus privilégios financeiros, já meus conhecimentos e a minha inteligência seria o mesmo que dizer que a rosa vai para onde ela quiser se não for impedida pelo jardineiro. A mamãe me deixa crescer para os lados, para cima e até para baixo se assim eu o desejar e julgando que as nossas roseiras são as mais esplêndidas de Little Row, bom... -Deu de ombro. -...não preciso acrescentar nada mais. -Apanhou o livro, o bloco de notas e se levantou. -A minha mãe não é imprudente, sra. Méndez, ela apenas afaga as minhas asas-pétalas ao invés de cortá-las.
Duas semanas depois Celina se olhava no espelho e puxava o terno azul que a sua mãe encomendou para que a filha representasse e defendesse a sua tese política para ingressar em um mestrado na San Martine University. Claro, ela não poderia fazer o mestrado, mas queria se provar capaz de fazê-lo. Estava disfarçada como um rapaz.
Outrora o marquês enviou em nome de outra pessoa, uma carta à universidade declarando a indisponibilidade de transporte do aluno e assim possibilitando a jovem Sweetsmile a fazer os testes avaliativos que correspondiam a seis períodos no curso de política financeira. A viagem durou dois dias até San Martine. Como um menino e junto ao cansaço do trajeto de um estado a outro, Celina parecia ser mais velha e não falava, Alan Sweetsmile respondia as perguntas alegando que o rapazola estava se poupando para a tese e depois de algumas minutos treinando a voz para parecer ser de um jovem tímido, Celina apresentou o seu trabalho.
Dias depois, os duzentos pontos de duzentos eram de Celina, mas, misteriosamente, o rapaz que seria o aclamado pelo corpo acadêmico, havia desaparecido da face da terra sem deixar rastros. Alan se fazia de desentendido alegando que nem ele mesmo sabia o paradeiro do rapaz e o primeiro lugar ficou para um tal de Reginald Cooper Filho que fizera cento e trinta pontos.
Celina debutou aos dezoito anos, mas queria deixar claro que não estava acessível a galanteios de pretendentes e só se submeteu a tal apresentação social, pois em poucos meses iria viajar ao estado de Hesterfield onde a maior fábrica dos chocolates da família se localizava e ali ela colocaria em prática absoluta tudo que estudou durante toda a sua vida, e iniciar essa nova fase sem a apresentação social, seria impróprio e também por que Celina não recusava uma festa.
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C H O C O L A T - Um Doce Amor
ChickLitChocolates, vestidos de musselina, bailes e grandes propriedades, este é o cenário no qual iremos conhecer Celina Sweetsmile, filha de marquês e empresário, ela usará de todo os seus privilégios de uma lady rica, para estudar disciplinas proibidas p...
