Prólogo

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Frida Rendall

No último andar do subsolo, há um lugar onde a luz do Sol nunca imaginou tocar, no fundo das catacumbas do castelo.

— Levante-o. — disse a rainha.

O sentinela de feição rigorosa sem tardar ergueu o homem, puxando as correntes que o prendiam e forçando seu corpo para cima.

Ainda que estivesse encharcado, acorrentado e espancado. A atmosfera em torno de Sebastian era soberba, sorrindo e rindo escandalosamente, apesar do sangue acumulado na sua boca fazê-lo tossir e arquejar.

Ali embaixo, as catacumbas foram transformadas em um calabouço, construído para conter o criminoso mais perigoso que já pisou nas cinco ilhas. O teto era baixo. A luz vinha de um castiçal que Frida pendurou quando arrastaram o moribundo até ali.

— Já nos vimos em condições melhores, Asmodeus. — começou Frida.

— Não consigo lembrar de nenhuma coisa boa que venha depois de me encontrar com você, bruxa.

A rainha dispensou a sentinela e esperou o homem desaparecer, deixando-a sozinha com o mercenário, e o único som que sobrou fosse as vozes tinindo nas paredes conversando entre si, observando, sussurros de eterno sofrimento e devaneios de loucura.

Sebastian estava com as mãos acorrentadas às costas. Não conseguiria mexer um músculo sequer, com correntes espessas, restringindo-o sem quietação aos dois suportes de aço inabaláveis nas paredes.

— Bruxa? Não seja lisonjeiro. — tocou a lateral da bochecha de Sebastian, pressionando a maçã do rosto com o polegar.

— Prefiro que me atire ao fogo ao demonstrar simpatia por uma mulher frígida como vossa majestade. — disse Sebastian cuspindo nos sapatos da rainha. — Você sabe disso, Frida. 

— Conheço bem a sua natureza vil. — ela riu, agora usando o polegar para pressionar seu lábio inferior. — Mas como rainha tenho liberdade para ouvir e interpretar da forma que eu quiser.

— Isso é mesquinho. — disse Sebastian. — Combina com sua personalidade.

A rainha observou a diversão nos olhos dele  ao perceber sua intenção.

— Por que veio? — ele perguntou. — Você pode enganar a todos com sua máscara benévola, mas eu sei que sua bondade é finita quando o assunto sou eu.

— É uma história longa.

— Então encurte. Sou um homem ocupado.

Lidar com Sebastian Vitale era mais cansativo do que se lembrava. Estava na presença de um monstro apático que não tinha nada a perder, como se nada no mundo pudesse abate-lo.

— Tenho um pedido para fazer, Asmo- Sebastian. — Frida forçou-se a corrigir.

— Seja o que for, a resposta é não.

— Você não tem escolha.

— Acha que não? — fechou os olhos e puxou as correntes para conseguir alcançar seus ouvidos, e tapá-los. — Lalalala...

— Tão infantil. —  Frida afastou-se, com desprezo.

— Lalala.

Seu sangue ferveu. Em um ataque de fúria, a rainha ameaça bater em seu rosto, e o golpeia de mão cheia.

— Você deve a mim, Sebastian! — o grito de Frida ecoou pelas catacumbas,

Sua irmã mais nova, Rayka, era uma dama altruísta e gentil, com a habilidade única de simpatizar com os outros quando estão nos pontos mais baixos de seu caráter. Era polida e esbelta, como uma flor em botão. Ela tinha vinte anos quando partiu para se comprometer com um lorde de Nefeli. Ela só tinha vinte anos quando desapareceu, seduzida por Asmodeus, e retornou três anos depois com a espada do homem que amava atravessando seu peito.

As mechas do cabelo escuro de Sebastian caiam sobre os olhos, escorrendo por sua bochecha, agora marcada.

Frida sorria, satisfeita. Ao fim do round, ela sairá vitoriosa.

— Por mim, eu deixaria você apodrecer aqui como a praga sanguessuga que é. — curvou o tronco até que estivesse próxima o suficiente para sussurrar, rente ao seu ouvido. — Você nem imagina como estou desgostosa em ter que soltá-lo.

— Vadia, quando eu por as mãos em você...

— Não vai fazer nada. Você perdeu. — disse Frida, satisfeita.

Sebastian estava ofegante, os olhos tomados pela fúria.

— O rei sabe que está aqui?

— Ele não tem que saber. — a voz de Frida soou assombrosa, qualquer homem tremeria sob seu julgamento. Sua feitiçaria não tinha efeito em Sebastian, mas ela não precisava disso para tê-lo se ajoelhado. — A visão de Sirius sobre governar é limitada a uma falsa paz que seus antecessores fizeram todos acreditarem, logo, cabe a mim, a rainha, fazer o trabalho sujo para mantê-los seguros dentro dessa ilusão.

— Que gentil da sua parte. — disse Sebastian.

— É o preço a se pagar pela coroa. — falou Frida com a voz calma, pegando um molho de chaves do bolso e o ergueu até o campo de visão do prisioneiro. — Vai me ouvir agora?

— Sim.

— Não, assim não.

O criminoso dobrou os joelhos, do jeito que ela previu, reunindo toda a sua força de modo que seus músculos se enrijeceram e dilataram, a pele esmagada contra o aço pesado.

— À suas ordens, minha rainha.

— Perfeito.

— Como posso servi-la? — perguntou Sebastian, mordendo a língua para conter um ruído de agonia quando seu corpo cedeu e as correntes de aço torceram seu pulso.

— Há alguns meses, eu tive uma visão. Caos e ruína por todos os lados, se ninguém tentar impedir... — A rainha pausou, olhando profundamente nos olhos enigmáticos do prisioneiro, tantos mistérios escondidos em tão pouco tempo. — O arquipélago irá ser destruído

Pela primeira vez na noite, ou pela primeira vez na vida, Frida viu o rosto de Sebastian empalidecer.

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