°• As Suas Lembranças •°

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Dedilhava meus dedos delicadamente às teclas brancas e gélidas do piano. Aquele piano que um dia compramos em uma venda de garagem. Aquele que você sorriu e disse "olha só! Um piano!". Sim, nós o limpamos.

Descobrimos que ele era da cor de um orvalho, e que todas as teclas estavam boas e afinadas. Porém só você sabia tocá-lo. É engraçado pois, eu não sabia. Você fez questão de me ensinar, e posso dizer que foram ótimos 3 meses de aprendizado.

Sabe qual música eu tocava? Aquela que vimos na internet outro dia e eu disse que ela era maravilhosa, depois você fez questão de tocá-la no piano. Ela se chama Until I Found You, lembra?

Eu ainda era iniciante na música, como eu havia dito a você eu só ouvia músicas do gênero mais romântico possível como Can't Help Falling Love do Elvis Presley, ou All Of Me do John Legend. Daí você me ensino algumas notinhas no piano, e depois que ouvi a música do Stephen Sanchez, quis aprender a todo custo, e quando eu disse você riu.

Meus dedos passavam pelas teclas e eu ainda podia sentir a marca de seus dedos nelas. A luz do sol me interrompeu quando senti o calor na minha mão, e meu rosto se desviou para a janela.

Caminhei e me apoiei meus braços no parapeito da janela. Sorri aberto. Imediatamente senti o cheiro de cookies, o que me fez lembrar do dia em que nos conhecemos.

Eu lembro, foi no dia 17 de dezembro. Eu andava pela calçada e me encantei pelo som do violino que tocava Lovely da Billie Eilish. Me virei e lá estava você.

Minhas pegadas ficaram marcadas na neve enquanto eu dava passos até o chapéu que estava no chão acolhendo várias moedas que caíam para você. Depositei uma nota de 5. Não tinha mais do que isso no meu bolso.

Você sorriu a mim. Na hora do refrão, você se pôs em uma pose à minha frente. Na aquele momento percebi que a partir dali, a música era dedicada a mim.

Você terminou de tocar e se curvou várias vezes agradecendo as palmas do público. Porém, olhou para mim e sorriu novamente. Segurou minha mão e deu um leve beijinho em minha luva de tricô azul. Você agradeceu. Eu disse que não era nada, e que eu com certeza daria mais dinheiro à aquele talento. Mas você deu uma risada ao frio fazendo algumas mini-nuvens na frente de meu nariz. Eu perguntei o por que da risada. Você respondeu, dizendo que estava agradecendo pelo sorriso mais lindo que tinha visto na vida. Eu corei imediatamente. Depois, senti seu olhar caminhar pelos meus cílios. Sorri. Você elogiou meus olhos, dizendo que eram tão bonitos quanto uma estrela cadente. Eu agradeci o elogio.

Após, você me convidou a entrar na cafeteria logo atrás de si. Eu aceitei, e você me guiou até uma mesa e me ajudou à sentar. Pediu uma porção de cookies e dois cafés. Eu nem precisei falar que eu realmente gosto de biscoitos, e principalmente de cookies. Nós conversamos até escurecer. Descobri seus hobbies que seriam escrever, tocar vários instrumentos, ver filmes. Eu já não prestava tanta atenção na sua voz, meus sentidos estavam atentos aos seus dedos acariciando minhas mãos.

Depois passeamos pela rua escurecida, passando por debaixo dos postes de luz, sentindo as mini-nuvens que tocavam o ar em cada palavra que saía de seus lábios. Até chegarmos à ponte, e foi onde você me beijou pela primeira vez alguns dias depois.

Desde então, você sempre me acompanhou.

Fechei os olhos e respirei o ar puro da janela. Achei que aquilo tudo era mágico. As flores bordadas em lindos buquês, as nuvens de espuma de sabão, o azul bombom do céu aceso, a grama de caramelo que brilhava a luz do sol de manteiga que derretia sobre as pessoas, pessoas que caminhavam, conversavam, riam. Eu via algumas no telefone, outras comendo um lanche, e até gente que levava seu pet para passear.

Eu lembrarei do seu sorriso eterno. Olhei para o arbusto de flores bordadas e vi uma das dezenas de tulipas que você havia me dado. Dos cartões macios com cheiro de chocolate branco. Tudo. Aquela paisagem era tudo. Eu via você ali, e somente você.

Minha mente se desviou ao dia em que meu coração se apagou. Olhei as tulipas e lembrei do dia em que eu havia deixado quatro lindas tulipas cor de vinho em seu peito. Você estava deitado, com as mãos apoiadas na barriga. Estava de terno preto, o que você acostumava usar para se apresentar no teatro alguns meses depois de um produtor ver você tocando na rua e, logo depois em um piano no shopping center. Sua pele já estava gelada e seca. Levei minhas mãos a seu rosto, era gelado e um pouco úmido. Me segurei a não chorar, pois eu sei que você era feliz, eu estava confiante de que, em seus últimos dias, eu te fiz feliz.

Aquela maldita doença te tirou de mim, eu sei. Mas você havia me dito que, mesmo que ela o levasse, ele iria sorrir em seu último segundo, pois estaria olhando para mim. E eu estava lá.

Passei a palma da minha mão em seus olhos, senti o macio de seus cílios. Depois levei às bochechas, suas covinhas estavam abertas. Pude ter a conclusão de que, você estava sorrindo. Eu estava lá, e você sorriu em seu último suspiro.

Eu sei, as pessoas diziam que você era muito criança, mas pra mim, você era perfeito. Sendo criança ou não. Eu te aceitei assim como você me aceitou. Eu sempre acreditei que as pessoas são muito duras consigo mesma quando chegam a uma certa idade, mas pra mim, o autismo é uma pessoa que teria uma criança interior para sempre, e você só me fez concluir o que eu achava.

Já a doença que te levou, o que as pessoas chamam de câncer, é terrível.

Você era doce e amável. Era gentil, companheiro, era a melhor coisa que já havia acontecido comigo. Seu problema foi uma salvação a mim. Você sabia, eu sabia. Sempre achei que o meu problema fosse horrível. Mas foi um dom. Assim como já havia me dito, foi uma benção. "As pessoas do mundo são cruéis, olhe como algumas me tratam", você dizia. E ainda me deixava mais contente por dizer que queria ser igual a mim, pois doía muito ver alguém que ama chorar.

Eu jamais te esquecerei. Você é especial pra mim, e sempre vai ser. Nossa vida está marcada nas flores. Nos seus olhos de flores. Nas flores de seus olhos.

Você me mostrou o mundo do jeito que eu queria que ele fosse, dizia que ele era colorido e feliz. Me detalhou cada parte de uma paisagem com clareza. Imaginei da maior forma possível, e me senti feliz, mesmo quando não era nada daquilo.

Sim meu amor, eu poderia não enxergar, mas eu não precisei disso pra saber que o amor é cego. E enxergando ou não, eu conheci o amor da minha vida que morreu sorrindo a mim.

Descanse em paz, meu amor.

As Flores de Seus Olhos - One Note [Concluído]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora