Os descendentes de italianos e alemães carregam um costume muito antigo na região em que eu morava, Chapecó, oeste do estado de Santa Catarina. Chamam seus avós de nona e nono. Na minha casa era assim que eu chamava também os pais de minha mãe. E foi assim que conheci nona Elca, a avó paterna do meu namorado Alexandre.
Chamar Elca de nona é uma conexão valiosa que escolhi para mim, me fazendo lembrar carinhosamente dos meus nonos já falecidos.
De cabelos brancos como a neve e de uma calma transparente, nona Elca vive sozinha em uma casa que parece grande e pequena ao mesmo tempo. As paredes são decoradas com quadros de paisagens e uma cozinha nova de um velho sonho.
Naquela casa o tereré e as bolachas caseiras são sempre bem-vindos. Assim como uma boa visita. Se não está sentada na área, com a perna erguida, devido a uma rosácea, está na sala. O crochê acompanha, para distrair e para divertir uma vida tranquila.
Mas a tranquilidade não é o suficiente para ela. Sempre que pode, está atrás de casa mexendo na terra, plantando verduras ou organizando o jardim. O chapéu de palha é usado para afastar o sol do rosto e também para dizer que está se cuidando. Que seus filhos não saibam que anda fazendo atividades fora de casa em um sol escaldante.
Outro pequeno segredo que carrega é os passeios a pé. Devido a sua idade e também ao problema na perna, seus filhos não gostam que fique percorrendo longas distâncias caminhando. Porém, como uma mulher madura e dona de si, ela transgride essa "regra" para visitar velhas amigas.
Outro dia saiu para visitar uma antiga colega de escola. Ela mora na mesma rua, porém é preciso caminhar várias quadras para chegar na casa. O que não a assusta.
Lá, elas relembraram o tempo de escola. Frequentaram um colégio de freiras, onde a educação era muito cobrada, assim como o bom comportamento.
Coisas que ela leva até hoje.
Outra lembrança que divide comigo é o tempo com seus irmãos e pai. Sua mãe morreu muito jovem, deixando crianças e um marido perdido sobre o que precisava fazer. Uma família humilde, que sempre viveu com o trabalho da roça, teve que se acostumar com a falta da presença materna.
Eram evangélicos e uma vez por mês a comunidade que moravam recebia a visita do pastor para um encontro. Essa visita sempre precisava de um local para dormir e a família de Elca ofereceu a própria casa.
Eram três camas de casal. Uma para a nona e sua irmã. Outra para seus dois irmãos. E uma para o pai. Não tinham muito o que fazer e, assim, o pastor dormiu com seu pai.
Antes mesmo de as meninas caírem no sono, escutaram uma conversa entre os dois homens. O pastor estava oferecendo uma conhecida para casamento. A mentalidade das meninas, ainda inocentes, não entenderam muito bem. O pai se manteve fiel à esposa falecida, porém considerou uma nova presença feminina na família.
Não demorou muito para que o caso acontecesse. Perguntada por uma tia sobre o que nona Elca achava da nova esposa do pai, seu pensamento respondeu: "Se dorme com meu pai, é minha mãe".
A inocência dela foi gentil. A madrasta não era má. Por outro lado. Foi muito boa com ela e seus irmãos. Ofereceu o amor e a educação que precisavam. E assim ela carrega consigo até os dias atuais essa gratidão pela "boadrasta".
Voltando ao presente, além dos passeios e dos dias junto à terra e às verduras, ela é uma apreciadora de jogos de cartas.
Quando está em sua casa, se você olhar com atenção, no baralho de canastra tem uma carta chamada nona Elca. Parece brincadeira, mas todas as terças-feiras e domingos ela joga canastra com amigos.
O hobby é uma grande distração. O jogo entre os velhos é silencioso, como se fosse um verdadeiro campeonato. Dentre as cartas baixadas na mesa, a roda de chimarrão percorre, assim como as horas.
Se você estiver em um dia sossegado e lhe fizer o convite para jogar, ela aceita prontamente. Não faz muito esforço para jogar uma partida de canastra, muito menos para preparar um tereré ou chimarrão se você pedir.
No baralho de canastra você encontra a nona Elca, porque é entre as cartas que sua mente envelhecida consegue se aquecer. Como uma recente jogadora de baralho, tenho a dizer que é muito divertido observá-la jogar, pois seu olhar sereno e sua tranquilidade são satisfatórios para uma mente ansiosa.
Sempre que posso, atravesso a Rua do Comércio de Modelo para visitá-la, com o intuito de receber um abraço quentinho e novas histórias que estão guardadas em sua memória. Histórias que pretendo guardar e dividir. Histórias que me ensinaram a jogar canastra e a também olhar para aquela senhora de pele enrugada com grande amor. Se no baralho de canastra tem uma carta chamada nona Elca, meu coração recebeu um baralho só com cartas dela.
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No baralho de canastra tem uma carta chamada nona Elca
RandomEsse perfil literário é uma forma de homenagear uma palavra e uma pessoa que eu tenho muito carinho. Contar a história de nona Elca é registrar para o mundo um pedaço de vida que merece ser sempre lembrado.
