Capítulo 1 - Interrogatório

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Nunca nada é o que aparenta ser, pois o mundo cotidiano adotou o uso de máscaras sociais, e é isso que nos fez mergulhar no caos político, social e econômico.

Entretanto nem todos são o que demonstram, apenas em busca de atenção ou o simples fato de uma história mal contada levam heróis para o fundo do poço.

Enquanto um preocupado adolescente causa um sobrecarregamento de pensamentos em sua cabeça, um policial adulto com mais experiência de vida lhe pergunta:

- Então... Vida difícil, hein? Vamos ver... Você está sendo culpado de... - o policial fala, mas a mente do garoto está muito cheia para prestar atenção.

- Eu... Por quê? Por que estou aqui? O que eu fiz? - pergunta assustado.

- Você sabe muito bem, eu sei que adolescentes tendem a fazer merda, mas isso superou minhas expectativas muleque - o policial diz batendo a sua prancheta na mesa.

O odor odiundo daquela delegacia se transformou em uma atmosfera intimidadora, mudando a perspectiva do menino, que evidentemente percebe que se colocou em uma situação de risco, mas aparentemente não consegue se lembrar.

- Acho que a droga foi muito forte, não é? - o policial exclama.

Logo em seguida, o policial se levanta, vai na direção do garoto e o soca na cara, fazendo ele cair da cadeira.

O menino urra de dor, e olha para a câmera e em seguida ao policial, que olha também para o dispositivo.

- Acha que aquilo pode ser usado como evidência garoto? - pergunta com sarcasmo na voz.

- Claro que não - o menino responde.

Quando vai limpar o sangue de sua boca, ele percebe que suas mãos estão amarradas.

- Voltando aos fatos - diz o policial - aqui diz...

O garoto não consegue pensar em mais nada, apenas em seus pais e como eles devem estar.

- Ei, ei, ei. Nós o dopamos, mas não esperamos que morra, levanta muleque - O policial chega ao lado e força o garoto a ficar de pé. - Aqui nós não toleramos esse tipo de coisa, e mesmo que tenha vindo fácil, ainda precisávamos ter certeza.

O garoto apenas concordava, ele se lembrava muito bem dos fatos, mas também sabia que era legítima defesa.

- Eu sou o Tenente Hoffmann, você sabe muito bem o seu nome, inclusive a polícia, mas sem descaso vamos ao que interessa se a bela adormecida aí não desmaiar denovo - o Tenente diz claramente irritado.

Depois de uma longa conversa, ambos parecem ter se acalmado, e o Tenente chama um Oficial para decretar o que será feito a seguir.

- Bom dia, eu sou o Oficial Felix. Já comunicamos a sua escola e escolas diferentes, afinal, não pode parar de estudar - diz com um olhar mais gentil que o Tenente - Você foi expulso de sua escola atual, mas uma outra teve a gentileza de dar uma oportunidade a um verme como você - agora em um tom mais grosso.

Olhando no papel, o garoto viu que sua nova escola, Yurin High School, ficava em outra cidade, Okatoa.

- Ficarei por dois anos!? - exclama o garoto - Na real, até pode ser uma boa ideia... - ele fica pensativo.

O Tenente bate na mesa, com um ódio profundo.

- Sabe a encrenca que se meteu!? - grita muito alto e os sons ecoam pelos corredores vazios. - Não me venha com essa de "uma boa ideia" - reclama com o garoto.

- Se acha tão boa, você partirá amanhã ao pôr do sol na Estação Funkoz, entendido? - Oficial Felix manda com uma voz autoritária.

Quando todos se levantam e vão na direção das celas, o garoto percebe que a delegacia não transmite uma ideia de aconchegante, muito pelo contrário. Era um lugar cheio de assassinos e pessoas estranhas.

- Acho que vocês deveriam limpar esse lugar, olha só isso! - exclama mostrando uma porta de cela totalmente enferrujada e com cheiro pior que ovo podre.

- Até onde eu sei, é a delegacia, não um paraíso tropical - vocifera o Tenente o arremessando para dentro da cela.

A situação poderia piorar muito, mas o garoto não estava reclamando, mas sim obedecendo.

- Você ficará até amanhã de manhã, logo em seguida, será enviado a estação com passagem só de ida a Okatoa - Felix diz intimidando o menino - Se for a outro lugar, nós saberemos na hora.

- Sim senhor, da delegacia, para a estação, para Okatoa, entendido - responde com um certo ânimo.

- Um conhecido meu estará lhe esperando - conclui Felix - Ele cuidará de você, mas se fazer algo errado, já era.

Segundos, minutos e horas se passam, a única coisa que ele enxerga são quatro paredes brancas, com grades enferrujadas e fétidas, enquanto cantarola uma música infantil na qual se recordava.

- Dá para fica quieto aí? - diz um outro presidiário - Tô tentando dormir aqui.

- Desculpae cara, tem gente que não gosta dos clássicos - retruca o garoto - E dormir uma hora dessa? Você tem 60 anos pra mais?

- O que você disse muleque?

- Gaguejei? - responde de uma forma sarcástica.

- Silêncio! - urra o Oficial - Fique quieto garoto, não faça eu me arrepender.

- Sim, senhor - responde com uma fraca entonação.

No dia seguinte, o menino acorda com os raios solares batendo em seu rosto.

- Vamo acordando, está na hora de ir - diz o Tenente com uma voz imponente.

- Bom dia, senhor - responde se espreguiçando - Não sabia que o sol chegava aqui - diz rindo.

- Não ache que aqui é horrível, mas se quiser posso deixar a sua vida pior que essa delegacia.

- Que a delegacia não sei, mas pior que sua cara eu preferiria morrer - diz rindo.

O Tenente abre a cela e agarra o menino pela gola e o leva para fora da delegacia em direção ao carro policial.

- Da estação até Okatoa, entendido?

- Sim, senhor.

Depois de uma conversa mista, ambos chegam em seu destino.

Saindo do carro, o menino avista de relance uma garota ruiva de uma altura média, mas ela se esconde atrás de uma das pilastras da estação.

- Tá viajando aí muleque? Seu trem sai as 11 horas, então ainda pode pensar o que você vai fazer da sua vida, já que suas aulas começam daqui a uma semana - o Tenente complementa, entra na viatura e estaciona o carro do lado de fora e fica o vigiando, para garantir que ele pegue o trem.

O menino se senta no banco e fica pensando nos eventos que lhe levaram para a delegacia, ele se lembra de cada detalhe das coisas que ele fez...

Visando as pessoas, no canto do seu olho, aquela mesma menina, vestindo uma bermuda curta, blusa de manga branca com suspensório azul, parece estar fazendo anotações em seu pequeno bloco de notas enquanto olha para o garoto. Ele fingi ignorar ela, mas sempre alerta para tudo.

Quando o relógio bate 10:55, o seu trem começa a aparecer e para na frente da linha Yurin.

- Uma nova vida então - diz o garoto com um sorriso maroto no rosto - Se as coisas se ajeitarem bem, talvez fique mais de dois anos - complementa entrando no trem.

E junto dele, vários adolescentes parecem entrar também, incluvise a menina ruiva, mantendo uma certa distância.

As 11 horas, o trem dispara em direção a Okatoa, e com uma bela paisagem de um grande oceano azul cristalino e um cheiro de mar característico das ilhas, ele parte para uma nova vida, uma nova escola e quem sabe novas encrencas.

Talento OcultoOpowieści tętniące życiem. Odkryj je teraz