Prólogo

89 5 0
                                        


Eu nunca sonhei, nos meus primeiros treze anos de vida eu não tive um único sonho, invejava todas as pessoas que passavam a manhã tagarelando sobre o que tinham sonhado, coisas absurdas e completamente irreais, mágicas, enquanto para mim havia apenas escuridão e silêncio.

Era inverno quando minha mãe morreu, chovia todos os dias e o tempo úmido parecia se entranhar nos ossos, mas naquele dia em específico fez sol, acordamos com aquele buraco no peito e o sol brilhava alegremente no céu azul praticamente sem nuvens, deus parecia estar debochando do nosso sofrimento.

Eu estava paralisada olhando aquela bocarra aberta no chão, meu irmão recém-nascido se contorcia no colo da minha avó e eu fazia o melhor que podia para continuar inteira enquanto a maior parte do meu mundo era enterrada ali sozinha, naquele buraco feio.

Naquela noite eu mal dormi, meu irmão berrava e nada podia fazê-lo parar, não era fome, não era cólica ou desconforto físico, ele queria a mamãe, e eu também. Quando finalmente dormi esperei pela escuridão familiar, morna e tranquila, apenas escuridão e silêncio até o amanhecer, mas não.

Pela primeira vez na vida eu sonhei, um campo quase infinito de girassóis, tão grandes e brilhantes, um mar infinito de amarelo, ela estava lá, uma parte dela pelo menos, girassóis eram suas flores preferidas, estar ali era como ser abraçada pela minha mãe e eu pude finalmente me despedir dela, ela me fez sonhar, mesmo depois de partir ela ainda me ensinava coisas.

Já haviam se passado quase seis anos e agora eu sonhava graças a ela, sonhos tão reais quanto a realidade, mas sempre tão quietos e tediosos, não eram como os sonhos das outras pessoas, não parecia mágico, talvez eu tenha ficado decepcionada... só um pouquinho.

Por Outros CaminhosStories to obsess over. Discover now