Cripticidade: grande predador

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Nas profundezas do sereno e plácido mar em um dos anéis do inferno, jaz um enigmático casulo, cuja origem permanece um mistério insondável. Por mais de duas décadas, ele pulsa como um coração vivo, emanando um brilho ritmado que, mesmo imerso na vastidão aquática, alcança as retinas de quem ousa contemplar a superfície do oceano. Poucos são os que detêm conhecimento de sua existência. Contudo, nenhum deles possui a audácia necessária para desvendar o segredo que se oculta nas trevas líquidas. Assim, o casulo permanece intocado, um relicário de incógnitas fadado ao esquecimento.

Essa era a crença geral entre as diminutas criaturas do lugar, até que, certo dia, das profundezas abissais, ecoou um brado lancinante, tão agudo e impregnado de desespero que fez estremecer até as águas. A angústia visceral daquele grito despertou a curiosidade de alguns poucos diabretes mais ousados, que, ignorando seus temores, decidiram aventurar-se para decifrar a origem do som aterrador.

Sem a capacidade de submergir nas regiões mais profundas, os audaciosos navegantes ancoraram seus frágeis barcos de pesca logo acima do casulo, aguardando ansiosos por qualquer sinal. Eis que, momentos depois, um novo grito irrompeu das profundezas, mas distinto do anterior: este carregava a fúria de um espírito em ebulição, uma manifestação de raiva primitiva e incontrolável. Subitamente, o pulsar luminoso do casulo cessou. A luz esvaiu-se como se a própria vida que habitava aquela estrutura se extinguisse, deixando no lugar um silêncio sepulcral que congelou os corações dos pequenos demônios.

E então, quando os temerários habitantes se preparavam para abandonar o local, resignados pela incompreensão, algo colossal emerge das sombras abissais. Uma silhueta negra, descomunal, tomou forma perante eles: as asas grandiosas e reluzentes assemelhavam-se às de uma borboleta, mas eram maculadas por um brilho espectral. De seus lados pendiam numerosos braços longos e sinuosos, enquanto sua cabeça, fraturada como uma máscara de porcelana despedaçada, exibia um semblante deformado e aterrador. Lágrimas negras, densas como carvão derretido, escorriam incessantemente de seu rosto, misturando-se ao oceano e tingindo as águas de uma escuridão opaca e funesta.

A presença da criatura irradiava uma aura tão densa e opressiva que os ali presentes, tomados pelo pavor, recuaram imediatamente. No entanto, as lágrimas daquela entidade maldita espalhavam-se com rapidez inumana, contaminando o mar ao redor e transformando-o em um campo de morte. Qualquer criatura que ousasse tocar as águas enegrecidas sucumbia instantaneamente, seus corpos inertes boiando à deriva como folhas lançadas em um lago silencioso.

Os locais, agora desamparados, contemplavam a devastação enquanto tentavam fugir. A silhueta, porém, permanecia imóvel, como se mergulhada em um luto ancestral que transcendia o entendimento. O mar, antes um refúgio de tranquilidade, tornava-se o túmulo daqueles que não tinham força ou velocidade para escapar. E assim, o casulo que outrora pulsava em mistério e promessa deu origem a uma calamidade cujo impacto ressoaria por eras incontáveis.

Capítulo 1
Grande predador: cripticidade

No coração do inferno, a família Monarca ostenta seu legado imponente, carregando a glória de eras passadas e o peso de incontáveis pecados. Entre eles, Perséfon, o herdeiro mais jovem, acabara de emergir de seu casulo. As asas de um brilho indescritível arrastam pelo chão como um véu negro enquanto ele caminha em direção a sala do trono, determinado a reivindicar seu lugar. A grandiosa construção, outrora cheia de vida, parecia agora desolada, com apenas alguns poucos criados que, ao vê-lo, mesmo encantados com sua aparência angelical, desviavam os olhos, temendo sua presença avassaladora.

O salão do trono era uma obra de arte demoníaca: pilares de pedra sólida de natureza humana entrelaçados com vinhas esmeraldas, um teto abobadado cravejado de luminosas amarílis e dos mais diversos lírios, e, ao centro, o trono dourado, que parecia irradiar tanto poder quanto arrogância. Percéfon abriu as portas com força, o eco ressoando como um trovão.

MONARCAWhere stories live. Discover now