Prólogo

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O céu começava a mudar de cor à medida que o mapa indicava que eu estava muito perto de encará-la pela primeira vez depois de tudo. A discussão da semana passada formava um eco na minha mente que só seria resolvido com um isolamento acústico. E isso eu só conseguiria quando colocasse tudo em pratos limpos.
Não suportava a ideia de que o acervo de palavras dela tinha conseguido formar um dicionário de inverdades sobre mim. Porque sim, tudo que ela gritou naquele dia sobre mim era lorota, mas eu não poderia falar o mesmo sobre ela. A dançarina que, no começo de tudo parecia dos sonhos, rodopiava em mentiras, o que me causava insegurança, me fazia duvidar de tudo que vivemos e até de seus sentimentos. Eu estava decepcionado e, apesar disso, aqui estou dirigindo por oito horas ininterruptas em busca de respostas, um fio de esperança nessa avalanche de falsidade.
Talvez eu tenha sido ingênuo. Talvez eu realmente seja egoísta. Talvez seja tudo aquilo que ela gritou para mim. "Arrogante". "Filho da mãe". "Medroso demais para ficar sozinho".
Mas eu me apaixonei. Não, eu a amei! Desde a primeira vez que pus meus olhos nela, naquele corredor.
Eu deveria ter enxergado nas entrelinhas, naquelas linhas tão finas que se romperam quando eu menos esperava. Apesar disso, caí feito um patinho, no auge da meia-idade, quando eu nem imaginava que iria errar novamente em tão pouco tempo.
Estendi minha mão para aumentar o volume da música, na tentativa de fazer com que minha mente internalizasse o que Fleetwood Mac havia escrito há anos.

"And if you don't love me now, you will never love me again"


Aquele era realmente um ultimato. Se ela não me amou durantes todos esses meses, não me amaria nunca mais. Os vocais do blues-rock, The Chain, explodiam em looping nos alto-falantes do carro, me fazendo lembrar da última vez que nos falamos. Bom, que nós brigamos.




Uma semana antes


Suas palavras pareciam engolir todos os neurônios do meu cérebro enquanto eu lia essa carta. Não conseguia acreditar. Meu corpo estava paralisado. Eu sentia que quanto mais tempo passasse naquele sofá, ele me engoliria. Comandei meus pés sustentarem meu corpo, caminhando diretamente para o bar, recolhendo a garrafa de uísque mais cara dali. Afinal, qual motivo mais plausível eu teria para bebê-la, senão este: a pessoa que eu amo não confiou em mim para mostrar todos os lados da sua história.
Despejei o líquido no copo, sem gelo, que não demorou muito para estar na minha boca. A bebida naquele momento não queimava, mal fazia cócegas na minha garganta; eu estava dormente demais para sentir a ardência. E por que queimaria, quando o que queimava era meu coração?
Eu andava de um lado para o outro, quase formando um buraco no chão; triste, furioso, perdido, sem saber o que fazer. Me irritava pensar que eu era uma pessoa tão vulnerável, aberta, e que vivia sendo chutada pela vida. Sentia raiva por ser uma pessoa que acreditava demais. Eu acreditava nas pessoas! E era uma decepção perceber que amei uma pessoa que não existe.
Disquei seu número algumas vezes, o que foi em vão. Claro que ela não teria coragem de escutar minha voz, não teve nem sequer coragem de jogar tudo na minha cara.
Eu tentaria mais uma vez, então desistiria. O toque dos números já parecia alto demais na minha cabeça, indicando um sinal nítido da minha embriaguez.
— Oi, Hazza — ela disse entre um suspiro. Pude sentir as batidas do meu coração acelerando quando ouvi sua voz.
Me mantive em silêncio, até que tomei coragem para falar tudo o que estava engasgado:
— Sua intenção era escrever essa carta e nunca mais ter que falar comigo novamente? — meu tom de voz apertado demonstrava a minha indignação.
— Porque eu me importo com você.
— Você pode parar de mentir agora, Melanie! Eu não acredito em mais nada do que você fala. Como conseguiu esconder isso de mim esse tempo todo? Sou um idiota por não ter percebido. Eu... — paralisei, dando espaço à fragilidade presa em minha garganta.
— Você não é idiota por ser vulnerável, Harry, eu apenas não consegui ser como você. Não sei o que falar além de que sinto muito — a ouvi fungar do outro lado do celular. — Isso tá sendo mais difícil pra mim do que pra você.
— Você não tem o direito de dizer que estou melhor do que você! Você não faz ideia de como estou me sentindo.
— Ok, me desculpe. Por tudo, Hazza. Eu não queria ter te enfiado na minha bagunça.
— Se eu soubesse antes, talvez a escolha de ter sua bagunça fosse minha! O que aconteceu, Mel? Eu sempre fui uma pessoa totalmente aberta com você, e eu não merecia ser simplesmente avisado por uma carta que você ia embora. O que custava me incluir numa parte tão importante da sua vida? Não confiava em mim?
— Claro que confiava, entenda que você não foi o único. Eu omiti isso de todos os meus amigos.
— Como conseguiu fingir por tanto tempo?
— Eu não estava fingindo com você. Não menti sobre o que sinto.
— Tarde demais pra falar isso quando você me deixa sozinho! EU MERECIA SABER, MELANIE! Eu planejava nossa vida, e se soubesse disso antes, definitivamente teria feito novos planos para nós. Mas você simplesmente assumiu que não era boa o suficiente para mim. Porque é isso que você sempre fez, desde o começo de tudo. Sabe qual é a verdade, Mel? Você tem medo de nós. Medo do que nós fomos, somos, mas você foi covarde. Você preferiu a escolha segura.
— É, Harry, definitivamente você está sendo um arrogante, filho da mãe, sem coração! Você está bêbado e não sabe do que está falando. Acho que não tenho mais nada com você nesse estado. Você está me machucando falando desse jeito. Sei que é difícil aceitar, mas nosso momento passou. Foi maravilhoso e vou apreciá-lo, mas esse tempo passou. Eu não poderia fugir das minhas responsabilidades, passei muito tempo fugindo delas — ela disse pausadamente, e eu a cortei.
— Eu não merecia acordar sozinho sem você ao meu lado e ler que você simplesmente não vai estar mais aqui! — gritei.
— Eu sei que você não merecia! — ela gritou de volta. — Mas não posso me culpar depois de passar uma vida inteira me condenando por fugir da minha verdadeira vida. Você está sendo muito egoísta em simplesmente cuspir sobre o quão sozinho vai estar, mas poderia pensar um pouco no quanto eu PRECISO estar onde estou agora! Você acha que foi fácil largar tudo o que eu sempre sonhei? Mas não posso mais estar em Los Angeles, esse lugar nunca foi minha casa.
— Se você me amasse, eu seria sua casa e nada do resto importaria. Você iria me incluir em TODOS os aspectos da sua vida. Sinceramente, foda-se as suas mentiras! A gente nunca daria certo. Eu poderia ser a pessoa a quebrar todas as correntes que você se prende, mas realmente, Melanie, acho que não sou esse cara.
— Me desculpe, mas você aparentemente não quer ser esse cara agora. Preciso ir, Harry. Adeus. Espero que você seja muito feliz — ela desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.

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