Em uma noite fria de ventos enregelantes, três estranhos se viam ao redor de uma fogueira em um abrigo de metal retorcido, se protegendo de uma nevasca avassaladoramente inesperada. Nenhum deles estava preparado para este clima... muito menos para este encontro. Mesmo assim, todos sabiam que aquela era a única forma de sobreviver. Só restava saber como iriam passar por aquele longo período de escuridão... afinal, em um mundo devastado como aquele, a bondade e a confiança eram caprichos que poucos podiam desfrutar.
Os três estavam calados desde que conseguiam se lembrar. O tempo parecia passar de forma estranha, talvez pela apreensão em relação às intenções uns dos outros. Era difícil sequer pensar em descansar. Porém, a fogueira acendida pelo primeiro a chegar, um homem de porte grande, cabelo desgrenhado, barba farta e roupas grossas, começava a diminuir. Com muita presteza, ele retirava tocos de madeira ainda secos de dentro de sua enorme mochila para, aos poucos, deixar o fogo consumi-los em combustão.
No lado oposto das chamas, uma figura misteriosa vestia um longo manto claro, sem cor aparente, com um capuz que tapava sua cabeça. Era difícil enxergar suas feições à tênue luz das brasas pois, desde que aparecera, estava sentada cabisbaixa entoando um cântico.
Um pouco mais afastado, o terceiro estranho parecia, à primeira vista, a pessoa mais trivial de todas. Outro homem, mas de traços delicados e vestindo trajes leves, incomuns para aquele clima, além de trazer pouca carga em uma pequena bolsa lateral. Apesar de sua indiferença em relação à temperatura causar certa perplexidade, a forma tranquila e despretensiosa como ele simplesmente ficava de pé, observando, tornava sua presença tolerável.
Esta agoniante monotonia seguia inabalável, até ser quebrada pela pessoa encapuzada quando, repentinamente, se levantou em um rompante. Ao perceber a atenção dos outros dois, começou a falar:
— Saudações, distintos viajantes. Estava agradecendo pela graça de encontrar este abrigo e poder continuar levando a palavra de Deus a todos os cantos desta terra.
Como se saísse de um transe, o homem que cuidava do fogo respondeu com escárnio:
— Deus? Aquele que está no céu?
— Oh, não, não. Eu falo do único Deus, aquele que existe aqui, neste mundo, em um paraíso criado por Ele aos seus anjos. Mas eu sou apenas uma mera portadora de sua palavra, uma sacerdotisa. — Depois de uma pausa, a figura lançou um olhar fulminante para ele, revelando feições femininas em meio a um rosto inchado, com algumas deformações. — E vejo que você é um infiel!
Com um grunhido assustado, o homem se afastou num sobressalto, mas logo retomou a confiança e se ajeitou no lugar, resmungando:
— Eu não desperdiço meu tempo com essas sandices. Minha missão é muito mais importante, eu...
Uma risada insana irrompeu da mulher.
— Sandices? — ironizou ela. — Um infiel ignorante ainda pode ser convertido, mas um herege arrogante só merece um destino: ser agrilhoado e levado como sacrifício ao Uno!
O homem ouvia cada palavra com crescente e evidente fúria. Por fim, colocou a mão em seu facão na cintura e puxou-o sem hesitar. A sacerdotisa respondeu com um movimento rápido, colocando um dos braços para dentro do manto, como se estivesse pronta para empunhar uma arma.
Porém, antes que qualquer ação fosse tomada, a terceira pessoa, que acompanhava a tudo inerte, despertou em um impulso veloz, colocando-se à frente do homem revoltado para segurar seu braço com firmeza.
Quando percebeu, ele se esforçou para tentar se desvencilhar e reclamou:
— Como você...? Me solte, seu desgraçado!
O outro apenas respondeu, em uma voz fria e sem expressão:
— Se aproximar dela não seria muito sábio. Você não conferiu seu contador Geiger, mas ela é uma fonte de radiação ionizante. Deve estar contaminada por material radioativo.
A mulher encapuzada se empertigou e, com um sorriso no rosto, recitou:
— A graça divina me preenche e me completa.
Com certa confusão no olhar, o homem barbado fez menção de abaixar o facão, permitindo que o estranho, menor e aparentemente mais fraco, soltasse seu braço. Sem demora, ele guardou a arma, arregaçou uma das mangas e apontou uma espécie de relógio na direção da sacerdotisa. Barulhos pontilhados encheram o ambiente.
— Como você sequer está viva? — indagou ele, assustado. Depois virou-se para o outro e perguntou: — E como você conseguiu fazer aquilo?
Mas antes que pudesse continuar com os questionamentos, uma espécie de pingente triangular pendurado em seu braço desnudo começou a apontar na direção do indivíduo que o alertara. Seu olhar de confusão tornou-se puro terror.
Congelado por um instante, o homem precisou lembrar de sua noção de dever para encher-se de coragem novamente. Então, em um rompante, recuou para pegar o fuzil apoiado em sua mochila e continuou até escorar as costas em uma das paredes metálicas. Enraivecido, apontou a arma na direção do outro.
— Você é um androide! — rugiu ele. — Maldito, por isso conseguiu me parar com tanta facilidade. Ah, mas hoje não é seu dia de sorte, lata velha... — uma expressão sarcástica estampou seu rosto — pois caçar coisas como você é o meu trabalho! — Um movimento e a arma foi engatilhada. — Mas antes me diga, porque me ajudou? Seria uma nova tática de subversão? Afinal, somos como insetos para vocês...
— É uma simples questão matemática. Na situação em que estamos, todo recurso é valioso para garantir nossa sobrevivência — redarguiu o androide.
O caçador resmungou alguma coisa e apontou a arma para a mulher, que continuava em posição defensiva e semblante inabalável.
— E você? — inquiriu ele. — Falando desse jeito e com esta roupa, até parece uma daquelas lendas macabras das terras distantes. Ah... como era? Aljibah... Sahib? Os mantos descorados...
— Mantos descorados? — interrompeu a máquina humanoide, encarando ela. — Então o Deus de que falava era a Singularidade, o ser onisciente que rege minha sociedade? — Levou menos de uma fração de segundo para ele ponderar as possibilidades. — Faz sentido. Nós oferecemos a nanotecnologia para seu povo há muito tempo, mas o que começou como uma simples relação comercial parece ter evoluído para algo além de qualquer expectativa... — sua expressão vazia voltou-se para longe. — Coincidentemente, fui enviado justamente para investigar este povo, julgar seu mérito e puni-los, caso necessário.
A sacerdotisa maravilhou-se de forma evidente, mostrando feições de puro deleite em meio ao seu rosto distorcido. Então estendeu os braços na direção do androide e disse:
— Ó, glorioso anjo, não há nenhuma coincidência. Este é o plano divino se realizando. E se for a vontade Dele que eu prove meu valor, então assim será. Sei que estou aqui por uma razão... — a serenidade em seu rosto mudou para um sorriso animalesco, cheio de dentes — porém, se notar que isto é algum tipo de ardil, entenderei que minha missão, na verdade, será puni-lo!
O caçador assistia a tudo incrédulo. Quando sua paciência se esgotou, lembrou-os de que estava armado:
— Chega dessa baboseira! Me deem uma única razão para não acabar com os dois agora mesmo! Eu...
Mas antes que o homem pudesse terminar sua ameaça, um estrondoso ruído de metal rasgado revelou que uma enorme chapa começava a despencar do teto. Os ventos congelantes preencheram o local instantaneamente, lembrando-os que o clima, implacável em sua natureza, não aguardaria a conclusão daquela contenda.
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O Simulacro de Galimeda
Bilim KurguPresos por uma nevasca em um abrigo misterioso, desconhecidos um tanto peculiares se veem obrigados a cooperar para encontrar uma forma de sobreviver. Mas algo parece errado... como se uma elaborada manipulação ocultasse o verdadeiro sentido de sua...
