sou verossímil, pois apenas pareço real. conto verdades que apenas parecem verdades, privando o meu real para que ele seja só meu. sou egoísta por muitas vezes. quero pertencer a mim e só a mim (mas às vezes, finjo pertencer a outros). eu sou um poço de meias verdades, ou meias mentiras, como preferir chamar. existir exige demais de quem sou de forma que quase sufoco todos os dias ao acordar, então me guardo em no casulo que criei sozinha. eu sou um apartamento com um único colchão no piso de madeira, envolvido em lençóis brancos desarrumados, um espelho e um cinzeiro prata ao seu lado. sou sozinha de forma simples, vazia, porém existo, ou quase existo, existo pela metade, sou real pela metade.
nessa autobiografia, entretanto, sinto que existo quase por inteiro. autobiografia não, autorretrato, pois me vejo nesse texto em carne e ossos e com o mesmo olhar triste que me é de praxe. quando escrevo, sou quase de verdade, e escrever é tudo o que me importa no momento. escrevo para amenizar esse meu sufoco constante, essa verossimilhança. catherine gallagher debate em seu texto "ficção" sobre a nessecidade da verossimilhança nas obras ficcionais, e a minha existência é fictícia, uma obra ficctícia. sou ficção e sou um cigarro aceso que logo não será mais um cigarro, mas umas simples bituca na rua. verossímil. pareço verdade.
é necessária uma conclusão? a conclusão será uma das verdades que só conto para mim mesma. concluo que sou incapaz de concluir.
