Ipseidade

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Ipseidade, substantivo feminino vem do latim, seu significado é um dos mais belos existentes. Aquilo que o difere de outro ser, o singular, uma particularidade única e própria. Acho que minha ipseidade é meu desvio de septo, cerca de 90% da população mundial tem desvio de septo nasal a diferença é que nenhuma delas faz um barulho estranho quando respira enquanto rir. Não chega a ser um barulho de porco igual a que muitos tem, gera bastantes risadas e eu acho que é único.

Maria Alice quem sempre procurava a singularidade de cada um. Sempre fiquei cismado, o que tanto ela observava nas pessoas procurando? Quando questionei, ela escreveu na palma de minha mão com caneta rosa e a letra cursiva horrorosa que mesmo com o caderno de ortográfico que a dei de presente insistia em continuar em seu traço, creio eu que era por razão de seu pai que passou a linhagem de escrever com a mão esquerda. IP-SE-I-DA-DE.

9 letras
3 vogais
3 consoantes

Uma palavra tão desconhecida e tão usada por ela. Acho que a própria Ipseidade de Alice era a ipseidade. A busca incansável de achar a singularidade de cada pessoa a marcava como única.

Vivíamos conversando sobre as características das pessoas, sejam elas conhecidas ou não. Alice comentava sobre suas deduções e eu tentava discordar, porém ela era boa no que fazia, sempre observando o mínimo detalhe era coisa de outro mundo, parecia um dom.

— Alice, qual a minha singularidade? —perguntei enquanto encarava seus olhos gigantes com aqueles cílios finos e cumpridos.

— Qual você acha que é? —deu um meio sorriso, naquela época tinha certeza que já havia me analisado.

— Não sei, acho que é meu dedo mindinho do pé.

— O que tem seu dedo?

— É torto. —ela riu. Quando mais novo meu primo passou a roda da bicicleta por cima do meu pé e desde então ele ficou estranho.

— Todos os pés são feios o seu não é o único, nunca vi um pé bonito. —indagou.

— Se não fosse o meu dedo torto meu pé seria lindo.

— Calçando 40, acho difícil.

O diálogo rendeu muito, e novamente ela não me respondeu. Talvez não sabia ou não queria que eu soubesse cheguei a questionar outras vezes e ela sempre desviava do assunto.

Fico me perguntando até hoje por que era tão difícil me responder, será que sou igual a todos?

— Qual a minha Ipseidade?

— Achei que você tinha certeza que era seus dedos estranhos —apoio sua cabeça nas mãos.

— Você me disse que não era e é somente o meu dedo mindinho.

— De fato, já viu o pé do professor de educação física? Ele deveria ver um ortopedista porquê não é normal ossos serem assim.

Mais uma das várias tentativas falhas de descobrir a característica que me fazia singular.

Maria Alice não só sabia reparar nos outros seus mínimos detalhes como também se conhecia muito bem.

Linguagem de amor era atos de serviço, sempre a primeira disposta a ajudar ou a parafusar uma prateleira na parede, eu estava procrastinando a séculos para fazer.

— Aqui tá bom? —perguntou de costas em cima da escada somente esperando minha afirmação para furar.

— Está ótimo, fure e desça daí antes que caia. —ligou a furadeira e fazia uma força tremenda para furar o necessário.

— Não está furando!

— Você quem é fraca, deixa eu furar. —me olhou de cara feia e virou para tentar outra vez usando mais força.

— Consegui. —disse vitoriosa. —Mais agora não quer sair. —a furadeira estava presa na parede.

— Deixe–a reta e puxe. —orientei e assim feito.

Tudo daria tão certo naquele dia se não fosse o meu esquecimento que o cano que levava água a pia do meu banheiro passava por exatamente aquela parede.

— Fecha o registro, fecha o registro. —pedia para Maria enquanto eu tentava fazer pressão na água para no mínimo parar de molhar a minha cama.

— E onde é o registro?

— Não sei.

— Como não sabe, não mora aqui a quase um ano?

— Sim, porém ninguém nunca havia furado o meu cano.

Que bom que naquele dia ela conseguiu furar o meu cano, minha casa estava precisando de uma lavagem geral mesmo. E o colchão não secou por inteiro e acabou mofando, o lado bom é que eu comprei uma cama de casal logo em seguida e minha coluna nunca agradeceu tanto.

A verdade é que ela sempre conseguiu tirar algo bom de todo desastre, mesmo não sendo positividade total e good vibes Maria Alice tinha esse dom e parando para pensar talvez esse seja sua Ipseidade.

— Alice, já que não me diz qual a minha singularidade quero que me responda, qual a sua?

— Qual você acha que é?

— É difícil responder uma pergunta simples sem ser com outra pergunta?

— É! —simplesmente respondeu.

— Diga Maria Alice, o que a torna única? —cerrei meus olhos.

— Não sei.

— Como não sabe? Não minta. Você consegue decifrar as pessoas, como não se conhece?

— Autoconhecimento tem um certo limite, agora me responda, qual você acha que é? —dei um meio sorriso e essa seria a minha vingança.

— Não responderei.

Pensando agora eu deveria ter barganhado.
Eu nunca soube a singularidade de Alice, durante um certo período eu tentei por tudo descobrir, porém tudo que ela fazia parecia ser único. Maria nunca se parecia com outras pessoas, a não ser o pé que era feio igual.

IP-SE-I-DA-DE

5 sílabas
6 fonemas
Ao contrário Edadiespi.

LembrançasWhere stories live. Discover now