Não sei o que fazer, ou para onde ir. Estou perdido, cercado, mas ninguém consegue ver que isso está acontecendo comigo.
Chuto a latinha amassada na calçada, depois vou atrás dela, pego e jogo no lixo. Mas um dia comum me cerca de dúvidas e paranóias quanto ao meu futuro. Ao mesmo tempo em que tudo acontece, em que a vida parece fluir para todos à minha volta, eu me sinto parado em uma ilusão de ótica, a vida anda, mas não sai do lugar. Todo dia é a mesma coisa, mesmos passatempos, mesma qualidade de vida. E eu não estou reclamando do conforto da minha vida, não é isso. Hoje eu posso dizer que conquistei parte dos meus sonhos, mas...
- Alcina, tudo bem? - Clério botou a mão no meu ombro com um olhar preocupado. Ele trazia a mochila surrada de sempre no ombro para trocar de turno comigo. Balancei a cabeça meio aéreo.
- Sim, sim, tudo bem. Bom turno. - Meus passos seguiam sem distinção pelo caminho familiar, enquanto eu me permitia questionar tudo o que vinha vivendo até então.
Ao chegar em casa, joguei as roupas pelos cantos, conforme andava e entrei no chuveiro. Uma das piores sensações de morar sozinho é entrar no chuveiro e não saber com certeza se alguém está invadindo sua casa enquanto a água disfarça os sons à sua volta. Ou é só coisa da minha cabeça. Fato é que parece que eu sempre escuto vozes e sons enquanto estou com o chuveiro ligado, mas tudo cessa quando o desligo. Só que essa noite não.
Eu desliguei o chuveiro e continuei ouvindo uma conversa animada do lado de fora do banheiro. O medo arranhava todos os meus sentidos. Não tinha como fugir, eu morava no décimo andar e o basculante era minúsculo.
Saí do box tateando atrás das minhas roupas, porque minha visão estava turva de nervoso. E a conversa parou.
Minha respiração parecia alta demais e meu coração retumbava em minha cabeça. Será que é assim que termina? Eu estava tão angustiado de não ver nada andando na minha vida e agora vou morrer da forma mais patética possível...
Fechei meus olhos. Eu não vou morrer assim. Eu rejeito essa realidade, eu quero achar uma saída. Eu sempre vivi de forma tranquila, sempre fui educado e não mereço que minha vida acabe dessa forma. Eu vou sair daqui. Abri meus olhos para lutar pela minha vida, mas o ambiente ofuscou qualquer ímpeto que eu tivesse.
Tudo brilhava, e eu não estava mais no meu banheiro. Era um salão alto, de um rosa meio salmão com dourado. Não sei explicar, mas de alguma forma eu fugi. Só não sei se foi para algo melhor.
Olhei devagar para as pessoas que passavam de um lado a outro no salão, até que vi uma figura reluzente vindo na minha direção. Era uma jovem de cabelos vermelhos, óculos quadrados e uma postura séria que parecia saber exatamente quem eu era e o que estava fazendo ali. Melhor do que eu.
- Oi, Alcina, é bom te ver. - Levantou a mão despachando as perguntas que sairiam da minha boca aberta e continuou: - Todas as suas perguntas serão respondidas. Em breve. Siga-me.
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Ment'Amor
FantasyOs problemas arrebataram Alcina e turvaram os seus sentidos. Tudo o que conseguia imaginar era em como queria fugir de toda essa situação. Então abriu os olhos em um lugar pintado à mão, uma obra de arte de tão perfeitamente encantado. Mas não pode...
