Nada para ver aqui

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O quão infinito é o universo? Desde que o ser pensante passou a contemplar o céu estrelado de uma forma mais profunda, a mesma dúvida sobre nossa identidade vive vindo à tona de tempos em tempos. Quem somos nós e qual a nossa significância no universo? Quanto mais conhecimento foi adquirido, mais confuso se tornou a missão de compreender a magnitude da existência.

Estamos sozinhos no universo? Nossas ações são de fato importantes para nossa realidade? Será que existe mesmo um plano maior de compreensão do mundo que nós não somos capazes de pensar? Existem muitas formas de lidarem com essas infinitas perguntas, mas e se na verdade for algo bem mais simples? E se for algo que não precise de tanto esforço para se raciocinar sobre? E se na verdade o ser humano for realmente a mais insignificante das criaturas do universo, mas que no fim tudo isso não importe? E se...

Quer saber? Que se dane tudo isso...



Deitados na grama sob o luar da noite, encarando o céu estrelado enquanto os ventos nos campos verdejantes do reino os atingiam. Nas bordas da grande e densa floresta de Loor, próximos às grandes muralhas da capital, mas não o suficiente para serem vistos pelos soldados sentinelas lá de cima. Pela primeira vez contando, ali estavam os dois.

Despreocupados com o horário, sem nem ligar para os perigos da floresta que poderiam saltar dos arbustos a qualquer momento, um jovem casal de amigos deitados para direções opostas olhava para o firmamento acima deles, de modo que apenas as pontas de suas cabeças se tocavam. Em suas orelhas havia fones de ouvido sem fio que estavam conectados ao mesmo aparelho celular no bolso do macacão jeans azul da garota, tocando a música "Forever Young – Alphaville", atingindo o fundo de suas cabeças.

Olhando de longe, não havia muito do que se falar de suas aparências, principalmente o garoto. Cabelos negros, um aspecto sujo, roupas surradas cinzentas e uma jaqueta azul de capuz.

A garota por sua vez mantinha o visual de verão. Usava botinhas além de vestir seu macacão jeans. Mas o mais chamativo em sua aparência eram as mechas ruivas que se destacavam fortemente nos cabelos louros, coisa incomum mesmo num mundo como aquele onde as pessoas tinham uma porção de características bem diferentes e extravagantes. Os dois pareciam estar nos seus treze anos de idade, mas se olhados com mais atenção, poderia se dizer que pareciam até um pouco mais velhos que isso.

O garoto se mexia constantemente, como se estivesse incomodado com alguma coisa, esfregando os braços por debaixo das mangas de sua jaqueta. A garota riu.

- Não queria dizer nada, mas bem feito.

O garoto bufou.

- Não queria, mas acabou dizendo. Não é, franjinha? – disse ele. A garota, sem olhar, dirigiu um soco que acertou o ombro dele.

- Sem essa de franjinha! Eu já tinha te avisado – ela soprou sua franja loira presa sob a testa, quase nos olhos. Ela não parecia assim tão irritada, já que ainda sorria.

- Hey! Ora, me descuuuuulpa, princesa – disse o garoto ironicamente, como se estivesse imitando algum personagem, talvez de algum desenho ou game – Quer que eu te chame como então?

- Que tal pelo meu nome de verdade? Para variar.

- Nhe! Não tem graça nenhuma nisso.

- Ah é? – disse ela num tom agudo - Então vou criar um apelido para você também.

- Ah é? – ele imitou seu tom de voz – Quero só ver, manda seu melhor tiro.

Franjinha ficou em silêncio, pensando. Foi quando finalmente disse:

- Vou te chamar de "Macaco"!

A sobrancelha do garoto ergueu.

- Macaco? Por que macaco?

- Já viu a forma como você escala as árvores? – Franjinha riu – Parece um macaco! Já faz tempo que eu penso nisso.

Ele não riu, mas ponderou com uma careta.

- Tanto faz! – disse Macaco, então ele bufou – E qual é a dessa música aí?

O sorriso de Franjinha desapareceu.

- O que tem a minha música? – disse ela, com um tom quase irado em sua voz.

- Hey! Não me leva a mal – Macaco levantou as mãos em sinal de defesa – Não é que a música é ruim. Só acho que ela é... Calma demais. Vou dormir daqui a pouco.

- Ah! Por falar nisso! – Franjinha subitamente se colocou sentada, um leve sorriso voltando ao rosto, ela puxou o celular de seu bolso e começou a teclar nele – Descobri uma música nova recentemente, essa é bem animada. Acho que você vai gostar.

- Vamos ver se você me conhece o suficiente para dizer isso. – disse Macaco levantando outra vez sua sobrancelha. Franjinha continuou a teclar, descendo a sua playlist procurando pela música que tinha em mente. Ela disse então:

- Ela é muito boa, cara. Estava naquelas playlists com o nome "Anos 80", seja lá o que isso significa.

- Abençoado seja esse tal de "Anos 80", juntou as melhores músicas. – bocejou Macaco, se espreguiçando.

- Não sei bem se isso é uma pessoa... – riu Franjinha, quase bocejando também. – Ah, encontrei.

Ela clicou e uma batida gostosa começou a tocar nos fones sem fio, uma bela voz feminina surgiu para acompanhar. Franjinha se colocou de pé num salto e começou a se mexer com a música. Seus passinhos tinham tudo a ver com a batida.

- Hey, essa eu conheço! – Macaco se sentou animado, e então começou a assistir a dança de Franja – Qual o nome dessa?

Franjinha olhou para a tela do celular.

- É... "I Wanna Dance With Somebody" de uma tal de "Whitney Houston". Ela tem uma voz linda, não tem?

- Ô! Pode apostar.

- O refrão é agora...

Franja começou a cantar o refrão animado da música e seus passos de dança ficaram ainda mais agitados. Sua voz cantando era o que as pessoas chamavam de "angelical". Macaco riu, porém.

- Legal!!! – então ele também se colocou em pé e começou a dançar e cantar com a amiga. Sua voz, no entanto, era desafinada e estranha e seus passos de dança eram bem desajeitados e exagerados, movendo os braços e as pernas para lá e para cá sem sentido nenhum, arrancando risos de Franjinha. O próximo refrão foi cantado pelos dois juntos.

E, como dito anteriormente, ali estiveram os dois.

Dois adolescentes, duas crianças, dois humanos.

Se remexendo com a música e cantando, mesmo que de forma errada, a letra de sua nova música favorita, eles aproveitaram aquele momento tão simples, porém mágico. Nem olhos os viram, nem ouvidos ouviram suas conversas ou o seu canto. Apenas os ventos, as nuvens e as folhas das árvores testemunharam aqueles minutos.

Não havia nada para se observar ali, pelo menos parecia não haver. Apenas dois jovens amigos, livres de responsabilidades, livres de preocupações, livres do tédio... Livres da carga das bilhões de vidas que dependeriam do que fizessem dali para frente...

Não havia sequer uma nuvem no céu estrelado daquela noite, mas ao longe, além do horizonte dos campos e do deserto cheio de mistérios daquele mundo, erguia-se o anunciar da maior tempestade que o universo veria, maior do que qualquer outra que acontecera até então. Descansem pequenos Divinos, a jornada será longa, que Ele possa estar com vocês.

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⏰ Last updated: Dec 11, 2021 ⏰

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DIVINE - Contos dos AprendizesWhere stories live. Discover now