Capítulo 1

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2 anos atrás.

Todos os anos, desde que comecei a namorar John, passo boa parte do Natal sozinha. Dezembro sempre pertence ao trabalho dele. Fechei o notebook pela terceira vez naquela tarde sem conseguir escrever uma única linha. O cursor piscava na tela havia vários minutos, desafiando minha criatividade enquanto uma pilha de folhas rabiscadas se acumulava ao lado do computador.

Meu celular vibrou sobre a escrivaninha.

John: Cheguei na primeira casa. Hoje vai ser corrido. Depois te mando uma foto da decoração.

Sorri sem perceber.

Eu: Boa sorte, Sr. Claus. Não esquece de comer entre uma visita e outra.

A resposta veio quase imediatamente.

John: ❤️

O que John faz nessa época leva alegria para crianças e famílias, transforma noites comuns em lembranças especiais e, de alguma forma, faz parte da magia que tantas pessoas procuram no Natal. Todo o dinheiro que recebe com isso é doado para a caridade.

Eu nunca o acompanhei nos eventos, fossem eles grandes ou reservados. Essa sempre foi uma parte da vida dele que parecia pertencer apenas a ele. Muitas famílias contratam seus serviços nessa época do ano, e eu sempre fico de fora.

Como escritora, passo boa parte dos meus dias escrevendo, lendo, editando e, às vezes, reescrevendo capítulos inteiros porque uma única frase parece fora do lugar. Pode parecer simples para quem vê de fora, mas não é. É cansativo, desgastante e, em alguns dias, profundamente frustrante.

Ainda assim, tenho sorte por ter John comigo. Sem cobranças, sem pressão. Ele entende minhas ausências, respeita meus silêncios e nunca transforma minha falta de tempo em motivo para discussões. Jamais faz meu trabalho parecer menor do que realmente é, mesmo nos dias em que fico tão presa dentro da própria cabeça que quase esqueço do resto do mundo. Ou dele.

Todo projeto tem seu lado ruim. O meu é o desgaste mental. O dele é passar dezembro longe de mim. Isso nunca me incomodou. Até aquele ano. Pela primeira vez, me vi realmente sozinha. Sem ele e sem inspiração.

É curioso. Meus personagens costumam ser carentes, emotivos, inseguros. Sempre gostei de explorar as fragilidades deles porque, de certa forma, pareciam distantes da minha realidade. Agora, justamente quando me sinto como eles, não consigo escrever uma única frase... e tampouco tenho John por perto para dividir o silêncio.

Talvez um banho ajudasse. Fechei o notebook e peguei a toalha recém-saída da secadora, dobrada na beira da cama. Sempre gostei de pensar no chuveiro. A água quente costumava organizar meus pensamentos melhor do que qualquer caminhada ou xícara de café. Muitas cenas dos meus livros nasceram ali, entre o vapor que embaçava o espelho e o som constante da água caindo.

Naquela noite, porém, nada aconteceu. Era como se a água escorresse pela minha pele sem conseguir levar embora o peso que parecia ter se instalado dentro de mim. Depois de quase vinte minutos, desliguei o chuveiro e me sentei na cama ainda enrolada na toalha.

O que estava acontecendo comigo? Foi então que os primeiros acordes de "Better Together", do Jack Johnson, romperam o silêncio do quarto. Meu celular tocava em algum lugar entre os papéis espalhados pela cama e a escrivaninha.

Demorou alguns segundos até que eu o encontrasse. Quando atendi, a chamada já havia caído. Era a Megan. Provavelmente vinha com alguma fofoca ou uma daquelas histórias absurdas que me faziam rir até perder o ar. Resolvi retornar. Eu precisava de algumas doses de riso naquela noite.

— Alô? — atendi.

— Mulher, por que você não atendeu?

— Estava no banho, nem ouvi tocar. — Menti.

O Natal que Me Trouxe de VoltaDes histoires addictives. Découvrez maintenant