Louca, me disseram que ela estava simplesmente louca. Dá para acreditar? Me recusei a acreditar nisso então fui eu mesma confirmar o absurdo de ver a pessoa mais sã que conheço presa em um lugar como aquele. Não era verdade, não podia ser. Uns homens fizeram testes por dias seguidos e comprovaram, me deram essa certeza, minha amada era completamente insana.
Li página por página do documento enquanto pegava o trem para vê-la. Alice não era louca, eu com certeza ia tirá-la de lá.
Cheguei na estação final e acelerei em direção ao prédio cinza, o portão se fechou nas minhas costas e entrei. O branco se tornou tudo, absolutamente tudo. Não havia começo, muito menos um fim.
Passei meus olhos atentos por aquelas paredes, elas tinham uma certa construção que as fazia parecerem ilimitadas, todas eram brancas, de uma forma específica que se tornava quase impossível entender aonde uma parede terminava e outra começava. O ambiente era absolutamente claro, sendo impossível ver alguma sombra das paredes, nada além de corpos ocos e sem forma, silhuetas borradas. Não havia quadros nem janelas, nem ao menos um de cada, não havia saídas ou fontes de cor além das peles pálidas por falta de sol.
Algodão, tão branco e tão leve, essa era a matéria prima de quase tudo que estava ali. No seu tom branco mais profundo, poderia trazer paz e tranquilidade se estivesse em um contexto diferente. Porém naquele exato ambiente, a leveza do algodão se tornava sufocante, a sua brancura excessiva era de doer os olhos.
Incômodo, aquele branco todo era incomodo, para mim que estava dentro naquele momento, mas estaria fora em poucos instantes, o branco era profundo, mas não infinito. Em meio a tudo e ao nada, as almas andavam e rodopiavam vestidas de branco dentro do quarto branco.
Eu poderia jurar que um lugar como esse seria sujo e escuro, com ratos e baratas a fio comendo o que deveria alimentar os pacientes, não sei se esperava ver ela em um lugar como eu imaginava. Aliás, limpo ou sujo, não sei como seria pior. O fato é que era tão limpo que nem parecia real, corpos soltos como sombras que perambulavam sem rumo nem direção, não tendo intenção de chegar em algum destino. Nenhum deles estava ali de verdade, mesmo os que riam ou choravam. Mantinham seus olhos carregados de segredos e ao mesmo tempo vazios e insanos. Era estarrecedor encará-los. Alice não era assim, não podia ser.
O olhar de cada um deles contava uma história, cada história que eu visualizava naquele ambiente oculto tinha sua própria essência e personalidade, deixando um rastro no escuro como o perfume duma flor desconhecida, que fica ali, se insinuando, demonstrando seu formato em meio a uma sombra borrada, permanece tentando ser descoberto em vão.
Mesmo sabendo que eu nunca seria capaz de desvendar a essência de alguém completamente desconhecido, me mantive atenta às sombras indefinidas, seus movimentos que se tornavam mais significativos a cada inspiração do meu corpo, como se tivessem a intenção de serem compreendidos. Partes daquelas essências permaneceram grampeadas em mim mesmo depois que fui embora, me deixando incapaz de desvendá-las e atordoada na intenção de vê-los de novo, menos Alice.
As únicas cores que pude notar eram dos clipes coloridos que estavam na pequena cabine fechada, que aparentemente só a secretaria tinha acesso; e nos números do relógio que me hipnotizaram por alguns segundos com seu preto intenso e um profundo som de "tic-tac" a cada vez que um ponteiro se movia. A responsável por receber os visitantes me encarou enquanto eu ainda estava submersa no relógio e sem saber meu nome, coçou a garganta com força para chamar minha atenção, e então permaneceu com seus olhos em mim até que eu percebesse o que deveria ser feito.
Ao despertar de meu pequeno transe, percebi que ela permanecia com as mãos estendidas para mim através da portinhola de vidro que havia em seu pequeno cubículo cheio de papeis espalhados, por onde me comunicava com ela e ela comigo. Encarei as mãos dela me perguntando o que ela queria de mim, o que estava esperando? Eu poderia simplesmente ter perguntado, mas minha voz estava desaparecida, busquei por ela, abri minha boca, mas nada saiu, então a fechei novamente. Até que a recepcionista percebeu que minha voz sumira com medo daquele lugar hostil e interrompeu o silêncio com uma voz grave e cansada "Senhora, apenas me passe seus documentos."
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EMMA
RomanceEmma estava no auge de sua vida, beirando os 18 anos e vivendo como se tudo fosse um sonho. Festas, bebidas e muito tédio... Até conhecer Alice, com seus cabelos longos e olhar sincero; Alice que mais parecia um sonho, viria a se tornar seu pior pes...
