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Tudo estava claro, daí veio a escuridão. Minha mente voluteava sem cansaço dentro de meu crânio a partir do ponto em que evocava tudo. Sua sombra, ao pé da porta, lobrigando-me de uma forma indecifravelmente  desconcertante. Permanecia parado lá, sustentando um semblante ironicamente sereno que contrastava com meu rosto aterrozidado. De um instante para outro, decidiu fazer seu punho frio ser minha última visão. Caí por aquela impiedade, jurando para mim mesma que não iria mais levantar. Entretanto, em virtude de algo que ainda não tinha ciência, uma força que sobre mim agia em forma de indagação dava-me forças para me reerguer; encorajava-me de uma maneira no mínimo instigante. Num uníssono, aquele coral de três vozes questionava-me sobre o mesmo sem cessar.

"Nome e idade." Dizia.

"Nome e idade". E dizia.

"Nome e idade". Repetia.

"Nome e idade". E repetia.

"Nome e idade." De novo.

"Nome e idade." E de novo.

-Andrômeda, dezessete! - Respondi de uma vez, abrindo meus olhos e enxergando dificultosamente as cabeças de três senhoras, a centímetros da minha face.

-Dezessete?! Que porcaria! - Aparentemente indignada, uma das mulheres afastou-se do resto do trio. - Então a gente não vai poder dar uma surra nela?!

-S-surra? - Minha boca trêmula proferia penosamente.

Ao ouvir aquelas palavras, içei meu tronco do chão e rastejei-me para o mais longe possível, mantendo o olhar fixo naquelas senhoras malucas. Não demorou muito para minhas costas acharem final daquele cômodo não muito grande. Arredada e agora escorada num de seus cantos, pude ter um panorama mais clarificando do local.

O piso e as paredes do ambiente eram recobertos inteiramente por blocos de pedra bruta, os quais tinham suas fugas preenchidas em alguns pontos por um tipo de limo amarronzado. À minha direita, bem ao alto, fazia-se presente a única fonte de iluminação do ambiente: uma fresta minúscula e por completo gradeada. Através da tal, um pouco de uma esvanecida luz adentrava acompanhada por um intenso odor insuportavelmente pútrido. No meu lado esquerdo, uma série de vigas de metal preto e enferrujado subiam até o teto. Pelas barras, conseguia ver o exterior. Havia um corredor delgado e mais uma infinidade de outras daquelas hastes metalinas. Eu não cria. Estava numa cela de prisão.

-Meus parabéns! Você acabou de assustar ela! - Falando de um modo esquisito, bramiu uma das mulheres. Esta era dona de um corpo largo e rígido, possuía avermelhados cabelos curtos e sua face era detentora de inúmeras marcas de expressão. Ela --e assim como as demais-- usava um macacão laranja fluorescente e calçava um par de tênis cinzas.

-Se eu fosse ela, estaria comemorando e agradecendo por ser menor de idade! - Pronunciando as palavras de forma peculiar, tal qual a mulher ruiva, disse a mesma senhora que querera me espancar segundos antes. Portadora de uma idade avançada, evidenciava esse fato por conta de seu semblante altamente pregueado e suas melenas ebúrneas encobertas por um chapéu clochê cor vinho.

-Bom que você entende o que aconteceria caso agredisse a garota. - A voz serena e tranquila da terceira mulher contrapôs, novamente falando com aquele jeito estranho. Esta era visivelmente a mais jovem da tríade. Dona de um cabelo preto e comprido, mantinha metade de sua face ocultada com uma franja. Partindo da altura de seu tórax e indo até seu pescoço, nela destacava-se um pedaço de pano batido que aparentava estar servindo para guardar alguma coisa.

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