Queria realmente, ter a sorte de haver nascido rica, ou ao menos, não ter nascido tão pobre. Longe da minha pessoa, reclamar do salário que nós, as empregadas do palácio real recebemos, diferente de tantos outros somos bem remuneradas, entretanto, todo o serviço é muito desgastante, já há um número razoável de empregados, mas tenho certeza que ainda precisamos de reforços, o castelo é enorme, cheio de atrativos, detalhes, quartos e salões gigantescos, os corredores nem se fala, qual o motivo de tantas pinturas nas paredes, as pessoas mal reparam, e eu quase não os entendo. Estou no momento, em um dos últimos andares, a ala em que se lava as roupas e tudo que é feito de pano.
- Cora, querida, pode levar essa sacola de roupas e pendurá-las para mim?
Perguntou, Jeane. Ela é mais velha que eu, e diferente de mim que estou trabalhando aqui a três meses, contribui com seus serviços a mais de oito anos, tendo seus 30 anos de idade, ela faz o papel de irmã mais velha que nunca tive, tenho 17 anos e a vontade de tirar minha mãe da miséria, já que o nosso monarca não faz isso.
- Claro, Jeana.
Subir algumas escadas não era difícil, mas com uma sacola escorregadia em mãos decidi ficar mais atenta ao que fazia, em uma ala próxima, poderia estender todas as roupas no varal. Finalmente chego, aqui também é um jardim, ver as gotas de água nas flores torna meu dia um pouco melhor. O varal fica um pouco mais a direita, não podemos vagar por aqui a não ser a serviço, pois muitos da realeza "gostam de admirar" a beleza do local, foi o que me disseram, mas tenho certeza que é só para mostrar toda a sua pompa, se exibir é o que a realeza mais gosta de fazer. De repente, enquanto estendendo as roupas, escuto Olivia suspirar ao meu lado, fazendo o mesmo que eu, porém, com uma cara triste, ela é mais ou menos minha amiga, não somos próximas, mas nos falamos com certa frequência.
- O que há com você?
Perguntei sem olhá-la.
- Ora o que há comigo, você sabe... A seleção está prestes a começar e...
- E você tem medo de não ser escolhida, não é?!
- Sim Cora. Eu me inscrevi e não sei se minha sorte é suficiente para bancar um milagre desses.
- Oh por favor Olivia, confie um pouco mais em si. É melhor fazer o seu trabalho, o que tiver de ser será.
- Cora, não me diga que não queria se casar com o príncipe e ser feliz!
- O meu dever é passar e limpar, não fantasiar como se contos de fadas pudessem se tornar realidade. Eu não preciso de um final feliz, só preciso de um final, só preciso que isso acabe.
- Nossa, que seca. Como assim acabe?
- Olivia, você não vê o que estão fazendo?! Toda essa baboseira de seleção é simplesmente para fortalecer a imagem que eles já tem. A nobreza só precisa de mais bobos, e esses bobos somos nós, eu não quero ser o palhaço da côrte de ninguém, e essa conversa de seleção podia ir para o inferno se fosse por mim.
- Cora! Como pode falar assim da nossa monarquia? O rei tem nos provido tudo o que precisamos.
- Não, Olivia, o rei nos faz pensar que já temos tudo que precisamos, pois os verdadeiros gastos que ele tem, é com suas festas e planos, suas viagens e blablabla. Acabei, até mais.
Saí vendo a cara indignada e sem palavras de Olivia, eu não sou cega, e não é um príncipe bonito a venda que vai me deixar sem ver a verdadeira realidade. Na cozinha, ajudando Jeana a fazer bolos, ela me importuna novamente com a inscrição para A Seleção.
- Eu sou só uma empregada e faça-me o favor, nem que ele fosse o último homem da terra quereria casar com ele.
- Você está louca? O príncipe é... Lindo, magnífico...
- E idiota. Me diga, quem em sã consciência aceita em sua casa 20 mulheres de diferentes pensamentos, e bom, algumas nem pensam tenho certeza, e depois, sai com todas elas, escolhe uma na sorte e espera que o seu reinado seja próspero e vindouro?!
- Mas não é assim que acontece! Veja, nossas majestades tiveram um casamento arranjado e nem por isso são infelizes.
- E por algum acaso você convive com eles? Pois só mostram os bons momentos, chega de papo, esse bolo parece estar uma delícia, faça o favor de guardar um pedaço para mim.
Jeane me olhou com desaprôvo, mas logo me lançou um olhar fraterno, já tenho bolo garantido. A minha folga, infelizmente não bate com a folga dela, que é a única com quem realmente posso conversar mais a vontade, e que realmente gosto de estar perto. Passamos a limpo as tarefas já concluídas e as que estão por vir, até que um guarda entra em nossa ala e convoca duas garotas e a mim. Olho preocupada para Jeane que assenti com a cabeça, dizendo que não deve ser nada de mais. Caminhamos as três em silêncio, ficamos nervosas, ao perceber que estamos indo em direção aos andares mais altos, onde ficam os salões, os quartos, escritórios bibliotecas e tudo o que quase nunca vemos, já que nosso dever não é limpar essa parte, a não ser em dias de reforma em que é preciso maior ajuda para agilizar tudo. Tomando coragem, toco o braço do guarda que não para de andar, e me olha torto.
- Senhor...
Olho o nome que está em sua roupa, Thor.
- Senhor Thor, por favor, poderia nos informar para onde vamos?
Ele sorri e me ignora. Que mal educado, paro chateada e as meninas, que estavam ao meu lado fazem o mesmo, mas surpresas. O guarda volta o olhar para mim, arqueia uma sombrancelha e indaga:
- A senhorita saberá em breve, não precisa que eu diga, mas precisa que te leve. Ou quer que eu chame mais guardas? Podemos te levar no colo se a preocupação em ir até lá for tamanha, e você não esteja conseguindo.
Cora Smith é aquela do contra, sempre opinando, falando mais do que devia sendo que fala menos do que realmente queria falar.
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A Seleção Da Minha Vida
RomanceO meu dever é passar e limpar, não fantasiar como se contos de fadas pudessem se tornar realidade. Eu não preciso de um final feliz, só preciso de um final, só preciso que isso acabe.
