1 • Sobrenome

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Sara Becker
São Paulo,
08 de dezembro
de 1969

Desde que me lembro, vivo em uma enorme casa em um dos melhores bairros na Zona Sul de São Paulo, apenas com minha mãe. Sempre fui cercada de tudo que uma criança precisa para viver muito bem.

Sempre tive os melhores brinquedos, fui aos melhores lugares, estudei nas melhores escolas e a minha mãe esteve sempre presente na minha vida mas sobre a parte paterna da minha vida, ela nunca contou nada.

Minha mãe e meus avós são pessoas muito ricas. Meu avô veio da Alemanha para o Brasil com a família quando era mais jovem. Ele conheceu minha avó e do relacionamento deles, nasceu minha mãe, Laura Becker. Por isso o nosso sobrenome ser de origem alemã. Porém, o que eu quero saber mesmo é do meu sobrenome por parte de pai.

Eu sempre assinei apenas Becker mas e o outro sobrenome? Todos os meus amigos tem dois e eu tenho apenas um. É porque não tem o sobrenome do meu pai e eu quero muito saber quem é ele. Eu sempre perguntei para a minha mãe, desde muito novinha, porque eu sempre via os meus amiguinhos na escola com seus pais e suas mães e eu só tinha mãe.

Mamãe se tornou uma mulher poderosa no ramo imobiliário e para nós duas, sempre teve o melhor mas quando o assunto é o meu pai, ela não tem o que falar. Simplesmente, esse assunto não existe em casa.

Completei vinte e três anos e para mim, já está mais que na hora de acabar de uma vez com todas as minhas dúvidas sobre a origem do meu pai.

Sentada na borda de um dos bancos da enorme casa onde vivo, lembro da primeira vez que questionei minha mãe sobre esse assunto.

05 de setembro de 1951
Sara Becker,
cinco anos
de idade

A mamãe comprou brinquedos novos hoje. É sempre assim, só eu e ela. Sempre eu, a mamãe e às vezes também a vovó e o vovô. Mas o papai, eu nunca vi. A mamãe não fala dele. Não fala nunca.

- Mamãe? Cadê o papai?

- Por que essa pergunta minha pequena? - Minha mamãe pergunta enquanto me ajuda a guardar as bolinhas de gude na caixinha rosa de madeira

Estamos brincando sozinhas. Sempre foi assim. Quando não estou brincando com meus amiguinhos, a mamãe brinca comigo.

- Os meus amiguinhos da escola tem pai e mãe e eu só tenho mãe. - Digo e a minha voz sai triste.

Eu fico triste se pensar no papai. Será que ele existe? Eu nunca o vi. Eu queria vê-lo um dia. Seria tão bom se ele viesse na minha casa e brincasse comigo e com a mamãe de bolinha de gude.

É a minha brincadeira preferida e ele ia gostar de brincar comigo.

- Um dia você entenderá Sara. - Sinto a mão da mamãe nos meus cabelos.

Hoje ela penteou meus cabelinhos e enfeitou com um laço. Minha mamãe sempre compra vestidos para mim e ela diz que eu sou uma princesa, por isso tenho que usar esses vestidos porque fico linda igual uma princesa tem que ser.

- Por que não posso entender agora? - Levanto a cabeça para olhar pra ela

- Você herdou mesmo o gênio do seu pai. - Ela diz rindo

- E quem é ele? Quem é o meu papai? - Pergunto agora bem entusiasmada

- Um dia você saberá. Eu prometo! - Mamãe diz e dá um beijinho em minha testa.

1969
15:21

Sentada sobre o sofá de couro branco, espero pacientemente por mamãe. Ela foi ao escritório bem cedinho pela manhã e não deve demorar a voltar.

Depois de tanto tempo, eu vou ter coragem de acabar de vez com minhas dúvidas. Vou enfrentá-la. Vai ser difícil mas não vou sair daqui hoje sem respostas. Sem as respostas que eu tanto quero. Que eu sempre busquei e ela nunca me deu.

A enorme porta branca se abre fazendo um barulho alto pelo enorme cômodo que é a sala.

- Querida, você está aí? - Minha mãe chega sorridente com algumas sacolas penduradas em seus braços.

- Passei em algumas lojas e fiz umas comprinhas. Estava precisando. - Ela deixa as sacolas de grifes sob o sofá juntamente com as chaves da casa e do carro.

- Mas você foi às compras ontem. - Digo com um vinco se formando em minha testa e um sorriso nos lábios.

- Ontem. Hoje é hoje e amanhã é amanhã. - Ela fala em um tom divertido. - E amanhã eu posso precisar de outras coisas, meu docinho. - Ela diz com um sorriso magnífico e deposita um beijo em minha testa.

Mamãe ama gastar um dinheiro. Ela tem bastante, então não é problema pra ela.

Pego minha bolsa, a abro e tiro minha carteira. A abro e tiro minha identidade de dentro. Levanto e paro em frente à minha mãe.

- O que vê aqui? - Pergunto calmamente apontando para minha identidade.

Mamãe se aproxima mais e estreita os olhos olhando os detalhes da identidade.

- Você estava linda nessa foto! - Ela diz alegremente e ajeita o batom nos lábios.

- Não mamãe. Isso aqui! - Digo apontando para o meu nome. - Sara Becker.

Mamãe desvia de mim e pega suas sacolas.

Sou mais rápida, corro até ela e paro novamente em sua frente. Ela me olha como um coelinho encurralado.

- Por que não tem o outro sobrenome?? - Pergunto com as mãos apoiadas na cintura. - O do meu pai. A senhora nunca me disse nada sobre ele e está mais do que na hora de eu saber de tudo! Não acha? - Pergunto em um tom autoritário. Costumo usá-lo quando quero muito algo. E isso é algo que não pode mais esperar.

- Eu sabia que esse dia ia chegar. - Ela choraminga e solta as sacolas no chão. - Bebê. - Diz manhosa fazendo um biquinho. - Princesa, você não está pronta.

- Eu já tenho vinte e três anos. Estou mais pronta do que nunca. - Digo com firmeza.

Mamãe pega minha mão e nos guia até o sofá. Com o auxílio dos pés, tira seus sapatos caros e altos que devem estar incomodando-a.

- Não posso mais esperar. - Digo em um tom urgente

- Minha querida. Eu tentei poupá-la disso. - Diz pesarosa - Mas eu não posso mais esconder de você. Você já tem idade para esse momento. Apenas seja forte. - Adverte - Eu tentei prolongar pelo máximo que eu conseguisse mas agora você merece saber de tudo. - Diz se ajeitando melhor no sofá.

É. Acho que essa conversa vai ser longa.

Seja lá o que for, eu estou pronta. Pelo menos, vou tentar estar pronta e ser forte porque pelo tom dela, a história não será nada boa e fácil para mim.

SurrealWhere stories live. Discover now