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Um quase... suícidio

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Tom estava cansado, desgastado, triste e desesperado. Ele se sentia num mix de sensações tristes e sentimentos depreciativos. Ele olhou novamente para a beirada da ponte. Estava ali há vinte minutos, ponderando e ponderando. Tentava se lembrar o que o fizera ir até ali, o que o fez pensar que terminar as coisas daquele jeito faria tudo se resolver. Não tinha resposta para isso, como também não tinha resposta para deixar de terminar com aquilo.

Estava cansado, com cinquenta e três anos nas costas, dois filhos e uma esposa morta, a morte estava sendo mais bem vinda do que a solidão. Os filhos não o procuravam mais, os amigos estavam todos mortos - alguns de câncer e outros de depressão -, aguentar mais um pouco até ter um fim igual era o que restava e então ele tomou uma decisão, A mais corajosa de sua vida toda. Era um sujeito sem corangem, mergulhado numa dúvida sem fim, num eterno "não-saber" por medo do que poderia encontrar se realizasse tudo o que imaginava. O ato de ter dirigido por três horas até uma ponte enfiada no meio de um matagal e agora estar encarando um salto de cinco metros era a prova de seu desespero.

Ele pensou que poderia chorar se já não estivesse tão velho para isso, ensinou de novo um salto mas só de pensar na água gelada seu corpo teve um espasmo.

Ele suspirou, as costas arqueadas, a cabeça rala de cabelo cinza. Era alto e arqueado como um varapau, tinha o rosto caído e olhos assustados. A primeira frase longa que sua esposa lhe dirigiu quando descobriu que estava grávida foi "Tom, espero do fundo do meu coração que nenhum deles puxe muito do seu lado.". Rose havia dito isso sorrindo e de um jeito leve, do jeito que o fazia sorrir junto e concordar sem nem saber o que. Tentou sorrir quando um parente dela externou esse pensamento na reunião familiar. Na época Tom e Rose ainda tinham 26 anos, eram moços e ele se sentia na obrigação de levar a vida de forma despretensiosa como todos os outros jovens pareciam fazer, mas não podia deixar de sentir uma fisgada toda vez que via sua esposa.

Era esbelta e vaidosa, de bochechas fortes e cabelos sedosos, como a Deusa Vênus, era uma típica mulher italiana por mais que nunca tivesse tocado um pé na terra natal. Falava em um tom lento e rouco, parecia ter mel em suas palavras e Tom podia jurar que ela tinha esse cheiroso vicioso.

Bom, a pergunta que Tom se fez quando começaram a namorar e depois da morte de Rose foi: por que eu? Parecia sorte demais até para um homem desafortunado como ele, mas a verdade é que talvez Rose tenha o escolhido pois sabia que aos quarenta anos teria um câncer de mama, aos quarenta e dois estaria "curada", aos quarenta e cinco descobriria que estava com mais câncer e aos cinquenta estaria gritando numa maçã implorando para morrer enquanto definhava mais e mais a cada vinte minutos. Bem, gritar não era bem verdade, Rose estava tão fraca que somente dizia pouca coisa em voz alta e clara.

Vê-la em uma maca de hospital causou um pânico esquisito em Tom, como um déja-vu, a verdade é que ele odiava e sempre odiou hospitais. Sua mãe havia morrido ali, seu avô também, até sua cachorra morreu num hospital(para cachorro mas era um hospital), e agora Tom se via à própria sorte de ter ou não um treco e viver preso no seu próprio corpo com sondas se sabe lá aonde. Tom espiou novamente a água fria, ele sabia porque Rose o havia escolhido.

Suspirou arrependido, tinha perdido o bom senso. Passou a mão nodosa no rosto, precisava clarear as ideias. Virou-se para partir, precisava passar a perna por cima do guarda-corpo úmido e frio. Tinha passado por esse obstáculo e demorou muito até conseguir tomar coragem e passar a primeira perna e depois a segunda. O suspiro que se seguiu ao tentar passar a primeira perna marcou a dor que sentia nas juntas da nádega. Tentou novamente mas com mais força e peidou. Olhou de um lado para o outro mesmo sabendo que estava sozinho, sentiu as bochechas queimarem e tampou os olhos.

Um som diferente se fez ouvir, vinha do meio das árvores, da estrada. Era um carro com uma música alta e estrondosa e quando entrou totalmente no campo de visão, Tom pôde ver dois adolescentes dirigindo. Os dois olharam para Tom e este registrou o momento em que as crianças entendiam a cena antes de gritarem e saltarem do carro.

Tom suspirou pela terceira vez em menos de dez minutos. Teria que explicar que não iria se matar - não mais. O carro parou ao menos três metros dele, talvez por pensarem que ele poderia se jogar correndo caso se sentisse ameaçado.

-Senhor, espere! Não faça isso! -começou o menino esticando as mãos e arregalando os olhos. Era jovem de talvez uns vinte anos, tinha os cabelos trançados rente a cabeça e usava uns brincos feios e esquisitos. A menina que o acompanhava parecia perto de enfartar, mas Tom ainda o lançou um tímido sorriso porque ela o lembrava de sua filha quando era bem criança. Estava claro que os dois vinham de alguma festa a fantasia, porque a garota usava um vestido que ele sabia ser de Alice no País das Maravilhas e o menino estava vestido de smoking, uma calda falsa balançava no meio de suas pernas. Isso o lembrou do aniversário de dois anos da Maeve, ela toda estressadinha e de bochechas vermelhas. Desde pequena era mandona e decidida: queria se sentir de Alice. Não estava decidido que ela iria assim, Tom a levará de manhãzinha no shopping para comprar uma roupa simples e bonita de bebê como Rose havia instruído, mas Maeve agarrara o vestido depois de gritar Coero e arrancar uns ohs e ahs de mulheres próximas, e o fizera pagar oitenta e cinco para uma mulher rabugenta do caixa, nem para pagar Tom havia conseguido tirar o vestido da menina, teve que entrar a roupa com bebê e tudo na mão da caixa e depois voltar com uma nota fiscal na mão e uma menina sorridente.

Maeve era um anjo paparicado quando bebê, ninguém conseguia ficar ao lado dela sem fazer suas vontades de bom grado, isso mudou quando ela fez dezesseis. "Vou sair de casa e vou estudar direito." Não quero sua opinião, obrigada. Era o lema dela. Tom tentou argumentar, era nova demais mas Rose concordou. "Deixe ela seguir seus sonhos" dizia. Rose a apoiava porque ela mesma quis ser assim quando nova, decidida e sem precisar da positividade dos outros, mas em vez disso cresceu com o coração molenga e de voz mole. Tom se lembrava da faculdade, dos olhos chorosos de Rose quando via a turma de direito passando.

Ele se lembrava da admiração que Rose nutria pro Edgar, o futuro advogado criminalista. Com o tempo, a admiração se tornou inveja até que não se podia falar em qualquer Edgar que Rose era capaz de entornar um garfo ou fazer os olhos saltarem.

No fundo, Tom se perguntava se não foi por isso que Rose o quis: sendo tudo o que ela nunca quis ser, ele se tornara um móvel útil em casa, nunca incomodando, sempre tendo alguma utilidade uma hora ou outra. O famoso não caga nem cheira.

As crianças falaram mais alguma coisa, pareciam estar bêbados. Tom tentou explicar novamente. Sua mão escorregou, estava tudo molhado, depois sua perna que estava meio suspensa o fez o favor de bambear, sua coluna longa demais o traiu. Seu corpo todo fez um movimento estranho e ele sentiu quando sua bunda tocou na beirada da ponte e começava a cair. Estranhamente o último pensamento que teve antes de morrer era uma pergunta boba mas que sempre o acometeu: como estaria Edgar hoje? 

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