Khalid vagou tanto que perdera completamente a noção do tempo. Seria incapaz de dizer a quanto tempo partiu de Al Azyn, mas tampouco queria saber. A mera lembrança do nome daquela cidade fazia seu coração doer. Seu turbante e seu manto lhe protegiam do Sol, mas o calor era escaldante. Além disso, suas panturrilhas ardiam, anunciando que o homem estava chegando ao seu limite. Provavelmente a única coisa que o impedia de desabar na areia era o cajado. Sua cabeça remoía aquele dia. Maldito dia. Khalid olhou para trás, esperando que pudesse ver algo nos céus na direção de onde veio, mas ele não fazia ideia de onde veio. Tudo o que via era a imensidão azul do céus, onde aquela gigante alaranjada com sua coroa dourada reinava, incontestável.
O homem terminou de subir uma duna apoiado em seu cajado. Ele o segurava com as duas mãos. Suas pernas doíam. Suas costas doíam. Sua garganta arranhava na ausência de água. Ele levou uma das mãos para dentro de uma bolsa e puxou o cantil. Vazio.
Sou um homem rico, mas não consigo comprar água alguma aqui. Homens ricos não deveriam passar por isso.
Mas Khalid sim. Ele merecia isso. Todo aquele ouro não pesava somente em seu bolso, mas deixava sua alma impossível de carregar. Será que a deixei para trás? Pensou, incapaz de responder a própria pergunta.
No alto da duna, o peregrino sentiu um forte vento lhe bater de frente, e seu manto branco esvoaçou ao mando do vento. Khalid encarou o horizonte e viu um véu marrom ganhando espaço, ameaçando o reinado da estrela dourada sob sua cabeça.
Uma tempestade de areia.
Khalid sentiu um pavor percorrer seu corpo fragilizado. Ele não queria morrer a deriva no deserto. Esperava já ter encontrado alguma cidade. Alguma cidade para recomeçar. Onde ninguém soubesse seu nome, nem de onde veio. Era isso. Ele queria uma segunda chance. Uma segunda chance de provar sua decência. Uma segunda chance que lhe fizesse enterrar o que fez antes. Enterrar Al Azyn em sua memória para sempre. Porém, ao invés disso, o destino cobrava o preço por um comerciante desavisado enfrentar o deserto. O peregrino começou a descer a duna, mais desjeitoso e apressado do que subira.
A tempestade se aproximava, e o dia rapidamente foi perdendo seu brilho.
Sem ter onde se proteger, Khalid simplesmente cruzou os braços a frente do corpo para evitar que a tempestade lhe atingisse em cheio. As tempestades do deserto tinham a fama de arrancar carne dos ossos. O peregrino sentiu o coração disparar com a possibilidade de se tornar apenas um esqueleto naquele mar de esquecimento. O baque desestabilizou o homem que sentiu as costas tocarem a areia quente. Ele logo sentiu que não conseguia se mover e era impossível ver um palmo a sua volta. Khalid tentou estender as mãos e sentiu o cajado numa, a bolsa na outra. As segurou como pôde.
As lufadas de ar quente e areia pareciam não dançar, mas guerrear contra qualquer coisa que despontasse acima do mar dourado. O peregrino tentou mexer as pernas, mas as sentiu cobertas pela areia. Havia se esquecido que essa também era uma possibilidade. Morrer soterrado, para nunca mais ser encontrado. Respirar estava ficando difícil.
Completamente imóvel, incapaz de ver ou ouvir nada, Khalid começou a aceitar a ideia da morte iminente. Certamente a tempestade foi Providência Divina. Khalid tinha que pagar pelo que fez em Al Azyn, mas ao invés do ouro amaldiçoado lhe torturar a alma, iria lhe arrebatar o corpo. Se alguém um dia soubesse de sua história, contaria às outras pessoas para ensinar sobre os perigos da ganância. Afinal, Khalid vendera sua alma. E agora, tudo o que recebera em troca não podia lhe ajudar. Talvez irônico, mas certamente justo.
O pulmão do peregrino começava a lutar contra o ar rarefeito da tempestade. Seu peito ardia e seu corpo parecia inerte, como se tentasse se debater num sonho. A hora se aproximava. Khalid ponderou se deveria rogar por perdão. Não. O homem não conseguia pensar num mundo que o perdoasse pelo que fez. Ele sentiu o ardor do peito subir-lhe a garganta, e finalmente o peregrino sentiu como se as trevas o abraçassem.
...
O peregrino sentiu algo áspero e úmido percorrer seu rosto. Pequenos barulhos. O tinir do ouro. Ele abriu os olhos e veio uma cabeça marrom de um grande focinho analisá-lo. Um chacal. Khalid se remexeu e o animal deu um pulo para trás, começando a rosnar. O homem não sabia como deveria se portar diante do animal que o via potencialmente como comida. Ele estendeu a mão para pegar o cajado. Sorte! ele ainda estava por perto. Khalid usou toda a força que tinha para se sentar e brandir o cajado na direção do chacal. Não queria machucá-lo, mas poderia ser o suficiente para afugentar a criatura. Ele não aguentou mais do que três meneios do cajado, mas sua ideia surtiu efeito. A criatura soltou um latido estridente e correu. Acompanhando o caminho do chacal, com os olhos, Khalid começou a se recompor. Havia superado o próprio tormento. Ou seria essa a continuação de sua pena? O peregrino usou o cajado para se por de pé. Tinha que achar comida e água logo, ou sua sobrevivência se converteria apenas em contratempo de sua sentença divina.
Erguendo os olhos a frente, ele se deparou com imensos portões de pedra. Arabescos contornavam seus batentes e as portas eram tomadas de inscrições. Civilização! Estava salvo. Khalid andou como pôde para mais próximo dos portões, e tão rápido quanto seu entusiasmo veio, ele se desfez. Definitivamente ele estava vivendo a continuação de sua pena. Estampado nas inscrições dos portões, o peregrino pôde ler: Abul Sayf.
Abul Sayf. Todos conheciam esse nome. Essa lenda. Khalid estava cara a cara com a lendária cidade amaldiçoada.
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O Peregrino de Lugar Nenhum
FantasíaUm homem sem lar. Um império amaldiçoado e um crime indizível. No final das contas, o passado sempre nos alcança.
