Em um certo ponto nossa sociedade parou. Chamamos esse ponto de "o limite", as pessoas decidiram que não envelheceriam ou morreriam mais, e assim foi criada uma droga que foi dada para cada pessoa no mundo, "cada pessoa que pudesse pagar", e isso foi passado de geração após geração.
O ano é 2750 e ninguém morre a uns 500 anos, pelo menos não por escolha.
Às vezes algumas crianças nascem com "defeitos" são chamados de os outros, eu sou um deles. Ao contrário dos meus pais eu morro, por isso isolam a gente em uma espécie de internato, por isso é porque normalmente fazemos coisas que os puros não fazem.
-B, o diário virtual é pra falar como foi seu dia, você sabe disso.
-Ninguém vê isso de verdade R, posso falar sobre posicionamento político se quiser e ninguém vai ligar.
R é o meu cúmplice, eu uso ele na verdade já que ele é a única pessoa que poderia sair daqui.
-Boa sorte para conseguir suas barrinhas sem mim da próxima. - ele sorri
-Você está atrapalhando minha história super empolgante, sabia?
-Eu não ligo. - me deixa sozinho no quarto.
R e eu nus conhecemos desde sempre, praticamente nascemos juntos.
-Anda logo B, você vai levar mais uma punição, - preocupado como sempre.
-Já desliguei, calma. - atiro o pop nele.
-Iniciação hoje? - pergunto sem olhar para ele.
-O que?
-Você só fica nervoso assim quando vai ver seu pai, e ele só vem nas iniciações. - do de ombros tentando parecer descontraído.
-Vou ficar bem, é só o meu pai, não é mesmo?
Óbvio que sei que esse discurso de ser inabalável é tudo uma mentira, mas já que ele quer fingir de novo.
Descemos para o campo 15, que parece mais uma arena de guerra, alguns outros costumam explodir as vezes, o que não ajuda a imagem mórbida que isso já tem.
Não somos muitos, no máximo uns 20 por instituição, quanto menos mais fácil controlar, ou se for um outro inútil como eu ou o R só te ignoram, nossos "poderes" não servem muito para ser usados como armas, então só ficamos aqui, esperando que desistam.
No campo 15 nós sentamos em círculo esperando os puros trazer mais um outro e dar a sua letra, somos um grupo pequeno de letras desconexas e cansadas em sua maioria, diferente dos puros. Um tempo foi estranho estranho ter uma letra como nome, perceber que somos diferentes dos puros, mas é assim com todos os outros, só os puros têm nomes de verdade.
O pai de R aponta no início do campo 15 trazendo uma garota que parece estar assustada. Ponho a mão na perna do meu amigo quase que automaticamente, e ele aperta com força a minha mão.
-Tá tudo bem! - sussurro para tentar acalmá-lo.
-Espero que seja rápido.
Não é como se as apresentações fossem realmente importantes, na verdade acho que só querem que a gente saiba que não dá pra fugir deles para sempre.
Fico de mãos dadas com R o tempo inteiro, isso parece tranquiliza-lo um pouco. Ninguém disse nada sobre a garota, só a nomearam de G e a mandaram sentar, e começa o discurso robótico de toda vez que ganhamos um novo prisioneiro.
-Vocês são anomalias do código, só estão aqui para servir o governo como guerreiros… - ignoro assim que o discurso de armas de guerra começa.
Encaro meu amigo o tempo todo, ele parece prestes a abrir um buraco de minhoca e se auto destruir. Assim que posso abraço R o mais forte que consigo, uma coisa boa da minha anomalia é bloquear sentimentos, talvez seja a única coisa que eu saiba fazer, ser uma espécie de escudo, não sinto nada e fazer quem está próximo também não sentir.
-Melhor? - pergunto sabendo que ele odeia que eu roube suas emoções.
-Hoje eu vou deixar! - aperta os meus ombros enquanto fala quase chorando.
-Um dia mato ele por você, pode deixar. - digo tentando fazer ele rir.
-Claro, você vai sugar a alma dele. - parece que funcionou.
-Pegou pesado. - digo o empurrando fingindo estar magoado.
-Você não tem emoções de verdade B, não adianta fazer esse teatro comigo. - viro sorrindo.
-Fiz você ficar melhor é o que importa.
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Os Outros
AventureEm um mundo distópico, onde a imortalidade foi o maior comércio já criado pela ciência, duas crianças mortais tentam provar pra si mesmas e para os outros que não são falhas, geradas por uma droga como toda a sociedade as julgam...
