Ele se mudara para aquela cidade havia apenas um mês. Ia para o trabalho de carro todos os dias. No entanto, o veículo sofrera uma pane sem motivo aparente de uma hora para outra. Por ser uma pessoa supersticiosa, achava que algo, no mínimo infeliz, estava por vir. Como teve de deixar o automóvel na oficina no sábado, viu-se obrigado a ir para o trabalho na segunda-feira de ônibus.
Atrasado, entrou às pressas pela porta dianteira, trombando sem paciência com algumas pessoas que desciam pelo mesmo lugar.
– Por acaso o senhor tem mais de sessenta e cinco? – perguntou ironicamente o motorista.
Foi então que entendeu que naquela cidade a entrada ainda era pela porta traseira. O que para a maioria das pessoas isso seria perfeitamente normal – afinal, cada município possui seus próprios sistemas –, para ele, aliado à pane estranha em seu carro, o fato lhe chamou a atenção. Seria um presságio? Melhor não arriscar: fez o "nome do Pai" enquanto caminhava do lado de fora para a porta correta.
Assim que subiu no coletivo, ainda na porta, ainda em seu bairro, um espoliador-mirim surrupiou-lhe o celular, o terceiro no ano. Chegou a pensar em correr atrás do prejuízo, mas estava atrasado. E fazer o quê? Ninguém fazia o quê mesmo! A única testemunha foi Lex Luthor, que entrara com ele. Em gesto, Luthor declarou: "Fazer o quê?". Era o vizinho, do condomínio, cinquenta anos, que nem desconfiava que seu apelido na redondeza fosse o do vilão do Super-Homem. Mas não era que era mesmo a cara do Luthor! Única e brutal diferença: tinha cabelo normal, preto.
Depois de entrar, percebeu que o ônibus era antigo. A roleta ficava próxima à porta traseira, como antigamente. Ao tentar passar pelo cobrador, um solavanco o fez cair involuntariamente nos braços do vilão logo atrás dele. O motorista arrancou de supetão; devia estar atrasado, ou emputecido por estar dirigindo uma peça de museu. Passado o susto do roubo, o mico do abraço e a nostalgia do ônibus, pagou, rodou, sentou-se. Ficou próximo à catraca. Só havia mais uma poltrona disponível. Foi onde Lex Luthor se sentou, três lugares à frente, no corredor. O motorista continuava voando, mal parava nos pontos.
Uma loira bastante gripada entrou e ficou de pé, no corredor, de costas para ele. Cara vermelha, olhos lacrimejantes, nariz inflamado, coriza, muita coriza, lenço na mão. "Ainda bem que essa cachoeira está de costas pra mim", pensou. Foi só colocar o ponto final na frase e a loira encatarrada preparou-se para dar aquele espirro, dos grandes, o incontrolável.
"Coitado de quem estiver debaixo desse vulcão!"
Retraiu a face com medo de ver a tragédia anunciada, mas a curiosidade foi maior. A corizenta ainda arrumou tempo, décimos de segundos, para salvar a vítima abaixo de si e virou o rosto para o corredor. Mas o espirro inesperado saiu antes de virar o rosto totalmente para o chão. No meio do trajeto, dois assentos à frente, havia um preto, cabelo black power. O esguicho viscoso verde-pus foi tão forte e preciso, que caiu exatamente no meio da cabeça dele, na mosca; no entanto, incapaz de abalar o alicerce. A vítima sequer percebeu que havia sido atingida; apenas a agressora e a traseira do ônibus, inteira. Todos emitiram um "Oh!" mal contido, num misto de comoção e asco. Mas ninguém teve coragem de olhar para o lado. E também ninguém se atreveu a avisar o dono do moderno pompom retrô. Nem a ré, principalmente. E fazer o quê?
Constrangida, mal o ônibus abriu a porta, desceu turbinada. O preto, para sorte da plateia, desembarcou no mesmo ponto, mais parecendo um brinquedo de tiro ao alvo com aquele dardo viscoso, que insistia em não escorregar. Todos soltaram outro "Oh!" de alívio; estavam, enfim, desobrigados de precisar avisá-lo.
E eis que entrou um rapaz, de vinte e cinco anos, no mesmo ponto. Que também quase se machucou. O motorista estressado arrancou de prontidão, assim que o segundo pé do jovem decolara do asfalto.
– Calma aí, motô! Sua marida dormiu de calça jeans hoje, pô?
O condutor fez um ar de descaso e continuou acelerando. E freando bruscamente. E foi aí que aconteceu. O rapaz mal acabara de passar a roleta, ainda tentando equilibrar-se dos solavancos, e quase aconteceu um acidente fora do ônibus. Entretanto, não foi possível evitar outro incidente. Dentro dele. O motorista brecou fundo! O rapaz foi arremessado à frente do ônibus na velocidade da luz. Mas, pressentindo que iria sentir o gosto cortante do vidro dianteiro do veículo, abriu as asas na esperança de evitar o choque. E foi aí que aconteceu. Suas mãos foram batendo nos ombros ou cabeças dos que estavam sentados do lado do corredor. E, para azar do vilão do Super-Homem, o alvo foi... a cabeça.
E eis que algo, que sempre parecera firme e fixo para os moradores do condomínio, foi lançado no chão. Gritos de horror de duas mulheres que viram o artefato peludo cair no piso do corredor, bem à sua frente.
– Uma aranha! - gritou uma delas.
A "tarântula" inocente, coitada, foi pisoteada num golpe mortal pelas histéricas. Careca de saber que um dia, enfim, seria descoberto, Lex Luthor (agora de verdade!) não teve coragem de olhar para os lados. Nem de pegar a peruca. Nem de permanecer no ônibus. Aproveitou que o veículo estava parado com a porta aberta, e saiu tão veloz quanto o Super-Homem! E fazer o quê?
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O vilão, a tarântula e 5 gramas de viscosidade
HumorE fazer o quê? Mesmo contra todos os presságios, ele precisava pegar aquele ônibus. Uma história hilária. Uma viagem surpreendente!
