– Corre! – gritou Morgana
A feiticeira teve um vislumbre do céu clareando no horizonte enquanto cruzavam a floresta.
Ainda estava muito cedo, não mais do que quatro e meia da manhã, e o negro do céu noturno estava se tornando azul meia noite. Mas o dia chegaria e eles estavam longe demais de quaisquer esconderijos que pudessem usar como abrigo. Arthur vinha em seu encalço. Porém Morgana sabia que seu amado não estava correndo de verdade. Ele não podia, pois precisava acompanhá-la. Tampouco poderia carregá-la, já que precisava das mãos livres para alcançar a espada caso fossem emboscados.
Seu coração martelava no peito, tanto devido à corrida ensandecida quando ao pânico de que, a cada segundo, o nascer do sol se aproximava. Assim como a morte de Arthur. Tudo o que ela queria era que tivessem tido mais tempo! Foram apenas três anos antes que a encontrassem e o pesadelo que vivera na infância se repetisse. Os dois corriam, mas ambos sabiam que, se Arthur continuasse a acompanhar o ritmo da esposa, ele morreria. Seus inimigos estavam cada vez mais próximos e eles, em contrapartida, tinham todo o tempo do mundo, pois sabiam que não havia escapatória para o casal.
Tendo ciência disso, Morgana pegou a mão de seu amado e parou a corrida.
– Vai! – disse ofegante
– Não vou abandoná-la! – Arthur sequer respirava com mais rapidez.
Por ser um vampiro, para que ele se cansasse, era necessário que cruzasse o continente, no mínimo, três vezes. Mas a aflição em seus olhos fazia com que seu coração também batesse em um ritmo louco.
– Você precisa. – Morgana lutava contra a queimação na garganta para falar, estavam correndo a tanto tempo que o ar entrava como facas a cada inspiração
– Não posso! – Arthur afagou-lhe a bochecha rubra de calor – Jamais iria abandoná-la
– Se ficar aqui, vai morrer! – ela precisava colocar algum juízo naquela cabeça dura dele – Não permita que eu o veja morrer, não posso viver com isso. – Morgana imploraria se fosse necessário, mas Arthur tinha que se salvar – Deixe-me ganhar tempo para você e vá
– Já disse que não vou! – Arthur cruzou os braços firmemente.
Morgana poderia controlar-lhe a mente e fazer com que seu marido se salvasse. E ele a odiaria para sempre por isso. Porém, a cada momento que se passava e a cada tom pastel que surgia no horizonte, ela cogitava a ideia. Seria preferível que ele a odiasse e se mantivesse vivo, do que terminasse morto e a amando
– A Inglaterra precisa de seu rei. – tentou um último argumento. Já era possível ouvir o som dos cascos dos cavalos que se aproximavam, ecoando pela floresta – Saia daqui!
– Antes de rei da Inglaterra, sou seu Guardião e seu marido. – retrucou Arthur – Prometi que a protegeria com minha vida e irei cumprir com minha palavra
– É mais teimoso que uma mula empacada! – suspirou impaciente
– Levarei como um elogio. – Arthur ofereceu-lhe seu sorriso mais arrogante – Agora, vamos!
Antes que ela pudesse responder, ele agarrou-lhe a mão e se pôs a correr. Morgana não teve outra alternativa a não ser seguir as longas passadas dele.
Os dois continuaram correndo e a feiticeira amaldiçoava o sol que se recusava a atrasar sua ascensão no horizonte. Era poderosa e, sua magia, quase infinita, mas não podia comandar as forças da natureza a este ponto! Mesmo controlando os elementos em si, os fenômenos estavam fora de sua alçada. Jamais desejou ser uma ninfa, mas, naquele momento, poder fazer o astro retroceder seu caminho e se esconder atrás das montanhas novamente, era tudo o que mais queria na vida.
A floresta lhes proporcionava uma boa cobertura, porém, não duraria muito e estavam próximos a uma clareira. Dali, não haveria escapatória. Não se fossem cercados. Morgana procurava pisar nos mesmos lugares que Arthur, para evitar quaisquer chances de tropeçar e atrasar ainda mais a fuga. Ela queria, desesperadamente, olhar para trás e saber o quão próximos estavam seus inimigos. Mas, sabia que aquilo apenas a deixaria ainda mais nervosa. Então, obrigou-se a manter o foco à frente.
Eles chegaram na clareira e se viram cercados de ambos os lados e com somente um caminho a seguir: em frente. Um de seus maiores medos acabara de tornar-se realidade. Aquele era o percurso mais longo para se chegar a Camelot, mas, infelizmente, era o único que tinham.
Morgana lançava feitiços às cegas, sempre mirando na direção da qual vinham o barulho dos cascos dos cavalos. Também desviava as flechas, erguendo escudos de ar, assim que ouvia o uivo do vento. Sabia que não estava sendo muito eficaz, pois não tinha certeza onde alguns de seus inimigos estavam. Uma forma que encontrou de compensar este fato, foi derrubar algumas árvores e, pelo barulho de corpos sendo esmagados, ela teve certeza de que fora a escolha certa. Mesmo que alguns sobrevivessem, teriam seu avanço retardado.
Algumas flechas passaram por eles e Arthur, com seus instintos sobre-humanos, a puxava, empurrava ou fazia curvas para que nenhuma das setas a acertasse. O mesmo, porém, não poderia ser dito dele. Seu amado estava com duas flechas cravadas em seu corpo. Ele quebrara os cabos para que não se prendessem em nada e seguia em movimento. O sangue já havia ensopado sua camisa, mas ele continuava correndo. Ela sabia que aquilo era um incômodo para ele, ainda que não um problema.
O casal saiu da mata e entrou em campo aberto. Tinham muito chão a ser percorrido e estavam longe de ver os pináculos do castelo em Camelot. O céu já estava claro e logo os raios solares começariam a atacar a terra. Morgana sempre havia amado o sol, mas, agora, ela o odiava com todas as suas forças!
As flechas continuavam zumbindo acima e ao redor deles, deixando-a ainda mais irritada. Agora, ela fechara um cerco ao redor deles, endurecendo o ar. Toda seta que acertava o escudo, ricocheteava, sendo lançada contra os seus perseguidores. Ela não precisava olhar para trás para saber que Mordred encabeçava a caçada. Uma bola de fogo se chocou contra o escudo: Guinevere. Só poderia ser ela. Morgava sabia que a outra feiticeira a odiava. Até sua chegada, Guinevere era a companheira de Arthur e os dois estavam noivos. Com a chegada de Morgana, Arthur passou a desfrutar de sua companhia sempre que podia e eles apaixonaram-se. Na noite em que rompera com Guinevere e declarara-se para ela, Arthur que conhecia sua história, jurou protegê-la e eles casaram-se pouco depois. Os dois nunca tiveram nada enquanto, o então príncipe de Camelot, estava noivo, mas Guinevere tinha certeza que sim e Arthur precisava contar com a compreensão de sua noiva de que o que tinha com Morgana era apenas uma inocente amizade.
Então, a mulher resolveu trair seu rei com seu melhor amigo, Lancelot. Óbvio que o caso foi descoberto e ela culpava Morgana por isso. Porém, a moça não tinha nada a ver com essa descoberta, uma vez que Arthur já desconfiava da infidelidade da noiva e resolveu segui-la uma noite, apenas para pegar o casal de amantes no flagra. Após o rompimento, o herdeiro do trono de Camelot passou a cortejar Morgana, que retribuía seus sentimentos, publicamente e eles logo vieram a se casar. Era raro a união entre duas espécies diferentes, mas, ainda assim, não era impossível, já que a reprodução entre elas era viável e qual genética a prole herdaria era uma surpresa descoberta apenas após o nascimento da criança. Além disso, também era possível que a criança herdasse a linhagem de ambos os pais. Infelizmente, no presente momento, isto era algo que Morgana e Arthur jamais saberiam.
O ódio de Guinevere era palpável e, assim que pode, se aliou a Mordred para derrubar Arthur e o alvo de seu ressentimento: Morgana.
Mordred era o comandante encarregado de eliminar a Herdeira de Avalon e ele era muito bom no que fazia. O mais perigoso inimigo que ela tivera em todos os seus anos de vida e também aquele que chegou mais perto de ter êxito em sua missão. Duas vezes. Porém, ela temia que, desta vez, sua vida estava próxima do fim e, infelizmente, a vida de seu amado também.
Morgana atacava Guinevere diretamente. Aquela mulher matara seu melhor amigo, mentor e aquele que fora um segundo pai para ela. Merlin, que sempre confiara nela e que sempre tentou protegê-la e aconselha-la foi brutalmente assassinado, apenas porque não permitiu que Guinevere se aproximasse do rei e da rainha, seus melhores amigos. Morgana ouviu os gritos de Merlin naquela noite e chegou no salão a tempo de ver a espada de Lancelot abrir um talho no peito do feiticeiro. Ainda assim, ele formulou a palavra "fuja" antes de lançar um último feitiço para que sua morte não fosse em vão. Mesmo sabendo que seu tempo era curto, Morgana permitiu-se um momento para lamentar a morte do amigo.
Merlin salvara sua vida naquela noite, ao se colocar no caminho de Guinevere e arrastar Lancelot para a morte consigo. Chorando, Morgana acordou Arthur e juntos, estavam fugindo desde então. Camelot ansiava pelo retorno de seu rei desaparecido e talvez, jamais tivessem notícias dele, pois, assim que os raios solares atingissem a pele de Arthur, ele viraria cinzas e estas seriam levadas pelo vento. Com Morgana morta, o que certamente aconteceria, não haveria uma vivalma que contasse aos súditos o que acontecera ao seu rei, já que levaria todos acontecimentos com ela para túmulo. O casal foi levado a outra armadilha e se viram encurralados entre Mordred, Guinevere e seus soldados na frente e um penhasco atrás. Contudo, o maior medo de Morgana não estava em seus assassinos à frente, tampouco na queda brutal atrás, mas no sol que, agora, já iluminava os céus. Era apenas uma questão de tempo até que ele incidisse sobre Arthur
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Herdeira
FantasyJasper Ardelean é um vampiro que já acumulou alguns séculos de vida. Estudioso nato e um exímio guerreiro, ele já enfrentou uma enorme quantidade de inimigos e já passou pelas mais mirabolantes situações. Porém, nenhum tarefa que tenha tido que real...
