Você já ouviu o som do mar batendo na costa?
Dizem que quem nasce em Império de Sal traga em seu primeiro respirar toda a maresia que cobre a ilha e, por isso, seu sangue tem gosto da areia amarelada que cobre o litoral e da espuma espessa que as ondas trazem.
Eu nunca tinha conhecido nada além do oceano e isso nunca pareceu importar. Acordava com o reflexo da luz do céu refletida na água e invadindo em raios minha janela, comia de tudo o que a ilha dava e velejava com os mais velhos sempre que me comportava. Ser sobrinha do Rei tinha seus privilégios e um deles era fingir que ser criança era só um detalhe quando se tratava de estar entre os piratas.
Para toda Nação dos Sete Reinos, nós éramos escória: ladrões sem escrúpulos que não pensariam duas vezes antes de te amarrar em um mastro completamente nu à beira mar para ser devorado pelos pássaros. Bárbaros e traiçoeiros, mas, para mim, era o sinônimo de família.
O dia havia amanhecido cinza, todavia. As nuvens grossas de chuva faziam pesar o céu, descontando nas ondas suas lágrimas finas e dando ao horizonte um intenso tom de desgraça, como em toda tempestade. Ainda vestia calças de couro negro, o colete e a blusa espessa de algodão imitavam a cor e mesmo que não fosse algo tão incomum assim para eu estar vestida de preto, dessa vez era por luto.
Minha mãe agora jazia repousando sob a areia da ilha, coberta de sal e uma infinidade de rochas. Em alguns dias, seus cabelos cor de fogo separariam do crânio, os olhos afundariam e a pele apodreceria. Sua beleza lendária e selvagem seria só uma lembrança no imaginário popular e eu... Apenas o constante lembrete de que ela havia partido.
Aos treze anos, esse era um fardo que não estava disposta a carregar.
— Amrella? — O susto foi o bastante para praguejar mentalmente todos os ancestrais do maldito que me pegava desprevenida, porém, ao virar na direção da porta, a carranca suavizou instantaneamente ao reconhecer o Príncipe Navhir parado no meio do quarto. Era um ambiente inteiro talhado em pedra maciça na montanha. Se você deslizasse os dedos por qualquer um dos móveis de madeira, saberia se tratar de um aposento no Castelo do Rei Ulrick pela quantidade de sal sobre eles. O ar marinho atravessava as paredes como se suas ondas quebrassem bem ali, ao lado da cama, em meus lençóis desarrumados. — Como está lidando com tudo?
Pisquei algumas vezes, recobrando a consciência de que estávamos realmente ali agora, discutindo minha saúde mental após entregar minha mãe ao Velho Cego e rezar para que sua alma jamais descansasse e sempre encontrasse aventuras no sobre mundo. — Como haveria de estar. — Respondi, sem qualquer traço de rispidez na voz, porém com toda a honestidade que o momento pedia.
Navhir me estudava como se tentasse encontrar vestígios de dissimulação na voz. Suas sobrancelhas grossas de um loiro sujo idêntico ao dos cabelos trançados no alto da cabeça torciam sobre aqueles olhos verdes como o mais profundo dos oceanos. Éramos primos, mas não podíamos ser mais diferentes. Enquanto o rapaz dois anos mais velho aparentava ser o modelo perfeito do que representava o estereótipo dos homens do Império de Sal, eu e meus fios negros como o manto da noite e orbes de um precipício escuro não podíamos destoar mais.
Culpava a genética paterna por isso. Não que eu e meu pai tivéssemos tido muito contato - ou qualquer contato - desde que eu nasci, mas... Sabia que ele era o herdeiro mais jovem do trono de Bosque Esmeralda e que minha mãe havia fugido de lá ainda grávida, após um casamento completamente fracassado. Mulheres do mar não podiam viver longe daquele azul, muito menos confinadas em uma floresta.
— Você sabe que... Agora, com a morte de Narissah, a tripulação dela é sua. Meu pai vai te convocar logo para realizar a cerimônia de passagem de leme. — Com tanto acontecendo, a ideia nem passou pela minha cabeça, mas só de imaginar a possibilidade, o coração ricochetou contra o peito, alarmado e ansioso.
Ter meu próprio navio, minha tripulação... Ser uma capitã de verdade como minha mãe foi... Isso era mais do que eu jamais podia ter sonhado em conseguir, pelo menos não naquela idade. A maioria dos líderes já havia passado dos vinte e conquistaram o direito de comandar os seus pelo mérito. Quando se nascia com sangue real, você já tinha um navio te esperando em duas situações: na morte do capitão que levasse a sua ancestralidade ou na desistência de boa vontade do mesmo.
— Se ela me quisesse pilotando o navio dela... Ela teria me dado o leme meses atrás, quando adoeceu. — Mas, apesar do meu potencial e esforço, Narissah nunca nem cogitou a possibilidade.
Aproximando-se da cama, Navhir deu de ombros ao sentar sobre o colchão e esticar os braços para o alto, espreguiçando. — Não é como se você tivesse escolha ou ela pudesse intervir. Sua mãe está morta e você sabe o que acontece com uma tripulação que fica sem um capitão por muito tempo...
Motim.
A última coisa que eu precisava era manchar a memória impecável da minha mãe com um completo rato tomando o controle de seu navio.
— Quanto tempo eu tenho? — Acompanhando o movimento dele, também me espreguicei. As juntas estalaram com força, mostrando a rigidez, o que fez com que o loiro risse e balançasse a cabeça negativamente, passando o braço por meu ombro e me puxando para perto em um meio abraço desengonçado.
— Quem sabe? — Com o indicador e o médio curvados, o mais velho puxou meu nariz de leve, permitindo-se um meio sorriso. — Hoje, descansa. Amanhã é outro dia!
O silêncio quando ele fechou a porta e se afastou nos corredores era apenas maculado pelo som do mar. Respirando fundo, puxei todo o ar salgado pulmões a dentro e chorei pela primeira vez desde que o dia tinha começado. Feitos bolhas que vinham de encontro à superfície, os soluços saltavam da garganta, um a um, não me dando a opção de engoli-los de volta.
Não me lembro bem quando aconteceu ou de que maneira, mas sabia que não tinha demorado muito até alcançar o sono de descanso fúnebre, sabendo que havia tocado minha mãe pela última vez.
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Sal e Sangue: A descoberta
Historical Fiction"Você já ouviu o som do mar batendo na costa"? Sabia que existe um lugar onde as árvores são tão verdes que parecem as joias do colar da Rainha do Trono de Carvalho? E que os piratas mais temidos da Nação dos Sete Reinos fazem preces a um velho cego...
