A parede de fogo se aproxima mais uma vez, chamuscando o gramado. Meu corpo absorve a porcelana do bracelete imediatamente. Meu corpo se torna pesado e denso, de um branco leitoso e brilhante. Afasto as chamas com as mãos.
— Está indo bem — A voz de Oliver se sobressai. Consigo sentir o sorriso na voz dele mesmo sem ver, após meses de convívio.
A nevasca apaga todo o fogo, cobrindo a grama com uma camada branca. Ramifico minha concentração. Minha pele absorve o aço criogênico, uma camada superficial de um metal azulado se espalha. Percebo na hora que não é o bastante. Foi uma ideia idiota subestimar o frio de um Aurem. Cubro o rosto com as mãos para me proteger. Meus dedos congelam até os ossos, voltando ao normal. Absorvo o aço integralmente, aliviando minha concentração e a dor, mas o estrago já foi feito. Consigo segurar a transformação até o ataque de farpas de gelo acabar. Assim que perco o controle, Ric me segura, impedindo-me de cair. Queimadura por congelamento. As extremidades dos meus dedos estão pretas. Oliver sorri enquanto saímos da área de treinamento.
— Aguentou por bem mais tempo hoje — Ric comenta.
Ele me guia a árvore de cura mais próxima. As therais são grandes, ocas e possuem a madeira vermelha. São como os hospitais dos humanos, permitem a cura indireta. Alguns Curae deitam nos galhos amplos, outros deitam nas raízes. De todo modo, todos eles carregam seus poderes nelas. Vejo os veios de aura vermelha correrem lentamente, acompanhando a seiva.
— Suas visitas são constantes — Alice, a Curae mais nova da colônia, me cumprimenta. Seu cabelo é tão vermelho quanto a árvore.
— Tenho treinado bastante, como pode ver — Sorrio, encostando as mãos na casca vermelho-sangue.
As dores e contusões somem enquanto a energia me envolve. Meus dedos estalam enquanto o tecido se recupera. Em minutos, me sinto novo. Não foi dessa vez que eu os perdi, mas foi por pouco, reconstruí-los do zero seria estressante. Oliver me paga.
~
Há pouco tempo encontramos a principal colônia do nosso povo: Rocha-alfa, no coração da montanha. Alguns Aureanos já estavam aqui, mas a maioria tem chegado esse mês.
Vai demorar para nos acostumarmos e aceitarmos a nova rotina: a pesca, a caça, os rios, a floresta. Mesmo assim, nunca me senti tão bem. Nos últimos dias, tenho me dedicado às aulas e treinos. Sei que Ellor não vai desistir de me encontrar. Minha fuga aliviou a perseguição dos que ainda não saíram das cidades. É um alívio, mesmo com o preço que paguei.
Coordenamos os Agnos nos treinos principais, as outras atividades são comandadas pelos Aurens que conseguiram chegar. Estamos apenas começando a descobrir como uma colônia deve funcionar.
Thomas, Oliver, Selene, Jenna e Fred. Vucanus, Frio, Gravitem, Aqua e Ignus.
No tempo livre, leio o diário do meu pai, completo as classificações de espécies novas e ajudo quem posso. Saber que todos dependem de mim me assusta, mas não é a primeira vez que um peso desse fica nas minhas costas. É até familiar.
— Temos novatos! — A voz de Sana me tira dos devaneios. É um dos sete Agnos que temos, contando comigo.
— Quantos? — Ric pergunta.
— Não sei ainda — Ele responde. Seus cabelos brancos estão impecavelmente penteados — mas Nicolas os sente também, não é?
Expando meus sentidos. Depois do rio, além da Floresta Alta, sinto auras se aproximarem das nossas barreiras. Consigo ir cada vez mais longe.
— São cinco, estão vindo pela entrada ao leste — Concluo.
— Bom trabalho, maninho— Ric se despede rapidamente. Deve estar atrasado para alguma atividade.
Olho ao redor, atrás de carona. Testo um truque que Sana me ensinou, uma espécie de submissão sonora. Ele me explicara que é sempre mais fácil usar a nota mi. Não é simples, mas me concentro em chamar uma aura metamórfica. Sana sorri com meu progresso, me dando um tapinha nas costas.
Ouço o zunido antes de enxergar o que alcancei. Enormes besouros-rinocerontes, com o casco dourado e asas multicoloridas, pousam ao nosso redor. Nós os chamamos de Entidade Coleoptera. O maior deles, de chifres azulados, se transforma em uma garota de cabelos longos e olhos puxados. São Entias Frates, feitos para guerra.
— As suas ordens, chefe.
— Não me chame assim — Resmungo.
— Vocês poderiam nos levar até a abertura leste? Queremos dar as boas vindas a alguns novatos — Sana intervém.
Val concorda em nos ajudar, mas me olha meio torto. O subgênero Frates é um pouco temperamental. Tomo o cuidado de não subir nas costas dela. Em poucos minutos estamos em nosso destino.
Assim que pousamos, os novatos aparecem na fenda da casca montanhosa. Duas garotas, dois caras e um garotinho. Desço do Entia e me aproximo. Todos estão com os olhos arregalados, impressionados com os grandes besouros.
— Presumo que já me conheçam, — Digo — meu nome é Nicolas, Aurem da colônia Principal do nosso povo.
— Estamos aqui para iniciá-los e desejar boas-vindas — Continua Sana.
Sempre me surpreendo com o dom de Sana, o modo como consegue influenciar com seu Agnos. Sinto sua aura envolvê-los, enviando calma e tranquilidade. A criança sorri em resposta. Criamos um ritual comum, algumas frases preparadas para confortar e transmitir segurança. Isso se repete todos os dias. Fico pensando em quantos de nós ainda vão chegar e como estão as outras colônias.
Mas as vezes me pego pensando em quantos já morreram.
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Recomeço: Contos dos Aureanos
Science FictionOrgulho e ódio crescem em uma sociedade "sábia", desestruturada desde a origem. Conhecimento escrito com sangue. Pessoas são o alvo de um aprimoramento misterioso. Poder. Muito poder. Auras despertam, o desconhecido se revela. Poder corrói, muda, di...
