Era um dia cinza e escuro, mas com o mesmo movimento e caos dos dias de sol, Luna atravessava a cidade todas as manhãs, independente de como o céu tivesse, e naquele dia não foi diferente, ela acordou atrasada nessa manhã, costumava acordar às 6h, mas os dias frios traziam mais sono; às 6h30, correndo, vestiu uma roupa de inverno, a mais quente do seu guarda roupa, que tinha basicamente só roupas pretas, brancas e cinzas, pegou sua mochila verde água e foi, cruzar a cidade mais uma vez.
Luna trabalhava em uma empresa de transportes, cuidava da parte financeira e de tudo um pouco, era pontual e uma ótima funcionaria, não gostava de se atrasar, por isso tinha pressa sempre que essa possibilidade existia; naquele dia 23 de maio isso era possível, e Luna com toda sua pequenez passava rápido no meio das centenas de pessoas, com firmeza nos passos ela precisou parar para atravessar uma das avenidas mais movimentadas da cidade, era uma avenida larga, com milhares de carros, por isso só um sinal resolvia amistosamente a relação entre carros e pedestres.
Ela ansiosamente esperava os minutos, fixada com olhar no sinaleiro, olhando as cores, o verde ainda estava lá e todos aqueles carros passando, logo o amarelo surgiu e em seguida o vermelho, e ela foi, com toda a rapidez que seus passos tinham em dias como aquele, mas tudo ficou escuro nos olhos de Luna, que sempre enxergava tudo tão bem, sua pressa foi parada por um carro amarelo que carregava a logomarca do seu biscoito favorito, nada parecia fazer sentido, a confusão tomou conta dos sentidos de Luna, e ela apenas conseguia dizer que sentia dor.
Em pouco tempo ela estava no hospital, mais lucida já conseguia entender o que havia acontecido, o carro estava com tanta pressa quanto ela, e acabou avançando o sinal vermelho, e Luna não pode vê-lo a tempo de desviar o que fez o carro pega-la em cheio, fraturando algumas partes do seu corpo pequeno e frágil. Ela esperava notícias medicas na enfermaria, com um gesso na perna e dores pelo corpo todo, logo um médico chegou, explicou que Luna tinha uma fratura na perna, que um gesso resolveria e uma na mão que precisaria de uma cirurgia e consequentemente de uns dias no hospital, o lugar que provavelmente ela menos gostava no mundo.
Logo Luna foi transferida para um quarto para aguardar sua cirurgia, que seria no dia seguinte, o quarto era compartilhado, assim que ela entrou viu uma garota dormindo, observadora como era, percebeu que na cadeira ao lado da cama da garota havia um livro, que ela leu e odiou o fim, nada que tinha finais tristes agradava a Luna. Ela se acomodou no quarto e acabou dormindo logo por conta dos remédios fortes para dor que precisou tomar, depois de horas dormindo acordou e percebeu que a garota com quem compartilhava o quarto estava acordada, lendo o livro, concentrada.
Luna era falante e tentou ao máximo não iniciar uma conversa enquanto a garota não parasse de ler, ela não queria atrapalhar, mas como o esperado a sua tentativa foi falha e logo disse:
- Esse livro mudou a minha vida, só não posso dizer ainda se pra melhor ou pior. Prazer, Luna.
- Espero que pra melhor. Prazer Catarina.
- O que houve com você, por que está aqui?
- Tornozelo quebrado, caí da bicicleta numa trilha. E você Luna, o que fez esse estrago aí?
- Acidente, eu fui atropelada por um carro amarelo com a logomarca do meu biscoito favorito.
- Uau, uma bela história pra contar...
A conversa das duas se estendeu por toda a noite, falaram sobre tudo, todos os assuntos possíveis, inclusive o final do livro, que Catarina quis saber se tinha mudado a vida de Luna para pior ou melhor, quando soube que foi pra pior por ter um final triste, Catarina não desistiu do livro, finais tristes não eram problemas pra ela, se a história fosse bonita o fim não interferia, e o livro tinha uma bela história de um casal apaixonado que vivia a aventura do primeiro amor, com todas as suas belezas e dificuldades, e o final triste para Luna era o casal não permanecer junto, mas para Catarina era apenas o fim de uma linda história.
Elas dormiram por pouco tempo e logo foram acordadas pelos enfermeiros, para se prepararem para as cirurgias, Luna teria uma cirurgia mais simples, já Catarina demoraria mais no centro cirúrgico, mas elas tinham marcado um encontro, no quarto do hospital, logo após as cirurgias, Luna era pontual e odiava esperar, mas dessa vez precisaria aguardar um pouco, Catarina tinha um motivo para chegar um pouco depois dela.
Nenhuma das duas precisou de anestesia geral, logo Luna voltou ao quarto e mais do que dor, sentia ansiedade para ver Catarina voltando, não demorou muito e lá estava ela, com um sorriso de orelha a orelha, era só isso que tinha no primeiro encontro desse improvável encontro, não tinha um jantar gostoso ou vinho, tinha uma comida sem sal e suco de laranja sem açúcar, Catarina não conseguia levantar para dançar e Luna nem conseguia usar talheres direito, e tudo isso fez as duas chegarem à conclusão que um segundo primeiro encontro deveria acontecer, depois da saída delas do hospital.
Não demorou muito, Luna ficou apenas mais um dia no hospital após a cirurgia e Catarina dois dias, passaram alguns mais, e elas marcaram um encontro, dessa vez em um bom restaurante da cidade, com boas comidas e vinhos ainda melhores, as duas chegaram juntas, de muletas, a de Luna era limpa e básica, já as que Catarina usava pareciam velhas, cheias de adesivos, riscadas e coloridas, talvez ela já tivesse usado várias vezes, algumas coisas eram diferentes nelas, mas a pontualidade era igual e isso era um bom ponto a se considerar.
A noite foi longa, elas comeram comida com sal no ponto, tomaram suco de laranja com bastante açúcar e conversaram, as taças de vinho não foram o suficiente, então elas caminharam até o supermercado mais próximo, demoraram porque Luna não tinha habilidade com as muletas, mas chegaram e compraram um vinho, duas taças e Catarina em meio a mil risadas comprou o biscoito preferido de Luna, dizendo que graças a existência dele ela a encontrou naquele quarto de hospital; elas tiravam risadas uma da outra o tempo todo.
O encontro se estendeu para o estacionamento do supermercado, elas sentaram no meio fio e ficaram por horas, na metade do vinho entre uma risada das duas Luna segurou o rosto de Catarina, elas se olharam por alguns segundos, Catarina assentiu com a cabeça, dando um sinal que queria o mesmo que Luna, e foi naquela madrugada silenciosa de um dia de semana que as duas se beijaram pela primeira vez, fazendo a madrugada vazia ficar lotada de um sentimento novo e diferente, nada conhecido por nenhuma das duas antes, a magia de conhecer de forma tão improvável um possível amor e a possibilidade da existência de uma historia linda a ser vivida.
Depois do segundo primeiro encontro Luna e Catarina não pararam mais de se encontrar e se conhecer, tudo era encantador uma na outro, o jeito que Luna segurava a caneta e a mania de Catarina de comer coxinha ao contrário, era um amor leve e engraçado, e principalmente livre, Catarina tinha a liberdade dentro de si, fazia parte do seu eu como o respirar e as batidas do seu coração, e sempre estava tudo bem para Luna, o necessário ela tinha, o amor da pessoa que ela todo os dias escolhia para ficar ao seu lado.
Se passou um ano inteiro, e o dia 23 de maio voltou, elas se encontraram para comemorar um ano desde o dia que se conheceram, e escolheram a praça em frente ao hospital, Luna levou um vinho, aqueles que tomaram no primeiro segundo encontro e Catarina, outra vez levou não só um, mas duas caixas, lotadas com 365 biscoitos favoritos de Luna, ela sentaram viradas para entrada do hospital, relembraram tudo e sorriram muito, como sempre.
Algum tempo se passou, algumas taças de vinho também; Catarina olhou para Luna e disse que precisava conversar, o clima mudou, Luna não gostava de conversas sérias, principalmente vindo de Catarina, que era sempre brincalhona, mas ela respirou e ouviu, ouviu Catarina dizer que tinha recebido uma proposta de emprego do outro lado do mundo, ia partir em menos de uma semana, e que a liberdade precisaria a acompanhar nessa nova jornada, além de querer também que a liberdade ficasse com Luna nessa partida.
Por vários minutos o silêncio tomou conta, ouvia-se apenas os barulhos das sirenes das ambulâncias entrando e saindo do hospital, então Luna, com os olhos lotados de lagrimas, o que era difícil de se ver, virou para Catarina, segurando suas mãos e disse:
- Quando te conheci falei que tinha sofrido um acidente, eu não achava que poderia sofrer outro, no mesmo dia, um ano depois. Meu coração está capotando dentro de mim, dói, mas enquanto ele continuar capotando, eu fico, aguardo e torço para que o tronco de árvore que vai faze-lo parar de capotar, seja você, voltando; porque agora eu percebo que nenhum acidente é pior do que o acidente do seu adeus.
E o adeus aconteceu, Catarina levantou e foi, a história tinha sido linda, já Luna ficou, finais triste ainda eram um problema pra ela, e ela continuou ali, esperando que talvez um dia Catarina voltasse para ajuda-la a se recuperar do seu segundo acidente, como o gesso e a cirurgia a ajudaram a se recuperar do primeiro.
- Denise Julio.
