PRÓLOGO
Manhã do dia 23 de março de 2026. Dia em que Maya completou 16 anos.
Maya estava estranha. Era dia do seu aniversário e algo dentro dela havia mudado.
Desde quando acordou, foi acometida por uma sensação diferente, que não sabia como denominar. Uma sensação que havia se apoderado de tal forma de sua mente, que a pensar que estava doente. Acabou indo dormir, mesmo tendo acabado de acordar.
Enquanto dormia, ela sonhou, e os sonhos introduzidos dentro de sua cabeça não foram nada agradáveis. Eram constituídos de rostos, formas e lugares esquisitos. Sonhou coisas absurdas, em plena luz do dia.
Para Maya, que sonhar normalmente já era um evento difícil, ter visualizado aquelas bizarrices em plena luz do dia tornado a experiência ainda mais sinistra, quase macabra. Não senti medo de coisas macabras, mas aquele dia, depois de acordar, teve medo de sonhos. Não apenas dos sonhos, mas também da forma que seu corpo reagiu perante a eles.
Quando acordou, não lembrar de lembrar que sonhou, e algumas semanas depois, internalizou dentro do seu coração que jamais seria capaz de lembrar.
Maya Considerou que aquele esquecimento era um tipo estranho de amnésia, devido a forma com que ele se comportava. Por mais que soubesse o que tinha sonhado, lembrasse do medo que goze e ainda tenha imagens do sonho na cabeça, esclarecer nada com palavras. Posteriormente, perceberia que esse havia sido o início de sua ruína
Após constatar que estava com amnésia, também havia mudanças no corpo. Estava trêmulo, frio e muito suado. Porém, mesmo alterado tão alterado, não conseguiu evitar uma sensação boa que a invadiu.
A sensação foi tão diferente de tudo o que já havia sentido, que a fez alcançar um estado de plenitude, e desejar ficar ali para sempre. Sentia que era embalada por mãos, que pareciam iluminados, dotados da capacidade de transportar amor.
Aquelas mãosm de algum ser que estava bem próximo. Estava tão excessivamente perto, que fez o corpo de Maya queimar; ao mesmo tempo, estava tão longe, que não era capaz de escutar, não importava o quanto ela gritasse.
Tão intenso quanto todo esse êxtase que goze, foi a sensação de vazio que o seguiu. Sentiu-se despencar na mesma proporção que subiu. Como atingiu o topo, a aguardava o estrago final que ocasionaria aquela queda.
Não queria deixar o momento para trás, mas infelizmente, não foi algo que pudesse controlar. Tentou se agarrar a cada segundo dele, mas lentamente, ante seus olhos, tudo desapareceu.
Maya não sabia o porquê de ter vivenciado, mas independente da razão, começou a pedir para morrer, pois a resposta que depois dessa vivência não seria capaz de viver de novo a sua vida humana comum. Queria a morte, pois queria ir para o céu, imaginando que lá poderia ser presenteada com mais momentos namorados. Porém, se ao soltar do céu, fosse no inferno o local onde seria presenteada de novo, voluntariamente iria para ele.
~ ~
No futuro, catastroficamente, cada segundo do dia de Maya foi vivido em pró de vivenciar aquela manhã do dia 23 de março. Chorou, rezou e implorou ao universo que dessa outra experiência, outro êxtase - ou seja lá o que aquilo fosse -. Nunca respostas respostas. A saudade experiência junto com a falta de respostas, abriu espaço para uma melancolia profunda.
A infelicidade de Maya foi tão intensa, que madrugadas após madrugadas, uma sensação que o universo estava arrancando a sua alma, sem antes ter uma compaixão de adormecer o seu corpo. Viveu uma espécie de morte em vida, porém, ao menos na morte, diziam haver um local de descanso.
Nos vários dias que se seguiram, Maya desejou descansar.
~ ~
Maya foi obrigada a visitar o psiquiatra, algumas semanas após toda a loucura que viveu. Na primeira visita, foi medicada. Nas várias subsequentes, cartelas foram trocados, doses aumentadas e tratamentos revistos, mas nenhuma alteração alterava o resultado final de sempre. Ainda vivia em um estado constante de melancolia, só que agora, agregada aos efeitos que cada comprimido ocasionava. Porém, em algum momento do seu tratamento, as drogas conseguiram finalmente realizar os efeitos para os quais foram produzidas. Retiraram toda a tristeza e angústia, mas deram lugar ao vazio.
Para todos, e principalmente para os pais de Maya, o vazio era melhor que melancolia. Maya duvidava.
Da mesma forma que a melancolia sumiu, estranhamente também foram sumindo como suas memórias do dia 23. Talvez, a perda de memória fosse a causa, e não a consequência do desaparecimento da melancolia.
Independente de como, ou porque aquele esquecimento ocorria, o fato é que ele aconteceu. Esqueceu, de forma irreparável, todos os acontecimentos. Cada detalhe, intenso ou superficial, perdeu-se lentamente das suas lembranças. Como uma nuvem, que vagarosamente se desfaz no céu de um dia ensolarado, e não deixa rastros de sua existência.
Maya não queria que a sua nuvem fosse embora, na verdade, desejou que chovesse. Várias vezes.
Quando o dia 23 tornou-se um dia em branco, não pôde mais evocar nenhum acontecimento dessa data, sabia apenas que havia ocorrido algo importante. Algo bom. Tão bom, que seja transmitido um estado depressivo, por a fazer desejar constantemente reviver aquele momento. Tudo se perdeu, menos a sensação de ter vivido uma experiência prazerosa. Sentir isso, a fazer implorar aos céus que lembrassem de tudo novamente.
Maya implora suas memórias de volta em cada um dos 865 dias em que os comprimidos e sedaram.
Abandonar aquelas memórias foram como abandonar pedaços de sua alma; pedaços antigos, que pareciam pertencer a ela muito antes do momento onde de fato notou sua existência. Porém, por mais que não quisesse abandoná-las, continuou passivamente com a medicação que as destruiu, por três razões primordiais: tinha incertezas sobre o ocorreria caso lembrasse; era menor de idade, e por isso não tinha muitas escolhas; e por não querer ir contra a vontade dos seus pais. Esses fatos deixados passar com receitas médicas, mas tinha o objetivo de não ficar assim para sempre. Dentro do seu coração, tinha a certeza de que quando abandonasse todos aqueles tratamento suas memórias voltariam.
Estava errada.
~ ~
Maya descobriu seu erro na manhã do dia 27 de março de 2028, dia em que abandonou todos os fármacos de forma abrupta, sem pedir opinião do seu médico e muito menos dos seus pais. Ao fazer isso, imagine que teria de novo como memórias que queria. Fato que não ocorreu.
Largar a medicação não fez sentir nada de ruim, mas também não foi suficiente para fazê-la relembrar aquele famigerado dia. Não apareça mais angústias nem tristeza, mas também não reviver o seu momento êxtase. Dolorosamente, corrigiu que estava tudo apagado. Cada Droga ingerida ao longo desses dois anos havia excluído de forma definitiva quaisquer resquícios de lembrança da sua mente.
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Vários meses transcorreram desde o momento em que não mais se medicou, e não houve um só dia em que Maya não sentiu vontade de chorar por sentir que havia perdido de forma definitiva aquilo que tanto queria.
A realidade era clara, mas ela não iria acreditar. Jamais iria. Passasse o tempo que fosse, ainda seria obstinada em suas memórias. Caso nunca as existam (e que Deus a ajudasse se essa fosse a realidade), ela já se preparava para algum acerto de contas com qual quer que fosse a entidade que aparecesse na sua frente após finalmente ser constatado o seu óbito.
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Cartas para Eros
RomanceMaya era uma menina comum até que um evento anormal mudou a sua vida. Após um período conturbado, toda a anormalidade que viveu foi apagado da sua memória, e ela pôde viver uma vida quase comum de novo. Anos depois, novos eventos estranhos volta...
