Eu estava em plena paz sentada no jardim com meu livro em mãos, o sol estava brilhante no céu, o vento estava suave, pouco barulho e pode se considerar que é um lugar bonito, seria o momento perfeito se eu não tivesse sido atingida pela água gelada saída da torneira, é um dos problemas com um quintal compartilhado, principalmente quando se divide com quem eu prefiro chamar de meu demônio particular e que me persegue desde que eu tenho memórias.
-Desculpa Josie! Não te vi aí...- Falou rindo e continuando a regar as plantas.
-Diz isso desde os sete anos, não cansou de repetir a mentira?- Reclamei enquanto tentava me livrar das gotículas frias.
-Não posso fazer nada se eu realmente não te vejo esses anos todos, você é discreta demais!- Respondeu ainda rindo e jogando a mangueira verde para longe, logo em seguida abrindo o pequeno portão da cerca de madeira com a pintura desgastada que 'separava' nossos lados no jardim- Lendo o que?- Concluiu se jogando ao meu lado.
-Nada que seja da sua conta!- Rosnei fechando o livro pesado e abraçando contra meu peito, em vão, suas mãos o roubaram de lá pouco depois.
-Metamorfoses?- Perguntou irônico levantando os braços enquanto eu lutava tentando pegar o que é meu de volta.
-Exato, já sabe o que é, agora me devolve essa porcaria!- Gritei pulando e tentando agarrar seus braços, era muito mais forte que eu.
-Calma! Tem vários aqui, quero saber qual é...- Falou abrindo e folheando o livro até encontrar a fita que marcava a página que eu lia inicialmente- Livro IV, Píramo e Tisbe? Esperava algo mais interessante...- Disse decepcionado me entrgando o livro.
-É interessante, você que não tem sensibilidade o suficiente pra sentir o que a história transmite...- Murmurei enquanto fechava novamente a capa vermelha e colocava na cadeira que eu estava.
-Eu não tenho sensibilidade? Nunca reparou como essa história é estúpida? Ele nem procura pra saber se ela está viva ou não!- Exclamou virando às costas e roubando um dos morangos como sempre fazia- Fora que essa idéia do muro é ridícula.
-Claro que não é ridícula! Eles estavam separados pelo muro ao mesmo tempo que estavam apaixonados!- Eu tentava defender enquanto o outro apenas ria passando para o outro lado da cerca.
-Oh muro cruel! Que eu nunca ao menos pensei em pular, mas que me impede de ver o amor de minha vida! Que por sua vez também nunca pensou em pular...- Interpretava de forma exagerada do outro lado, o que infelizmente me arrancou um sorriso.
-Isso! Aproveita e fica do outro lado do seu muro imaginário e para de roubar meus morangos!- Repreendi abrindo sua mão e recuperando umas cinco das frutinhas vermelhas- Você é a maior erva daninha que eu já tive que lidar!
-E sabe que não adianta arrancar, elas sempre voltam...- Deu de ombros e foi embora, me deixando ali parada e um tanto pensativa sobre a última frase...
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Mamãe gritou lá de baixo para jantar como de costume, mas dessa vez tive uma surpresa bem desagradável.
-Veio fazer o que aqui?- Perguntei ríspida me sentando na mesa, eu não quero ter que lidar com ele por mais de dez minutos.
-Josephine! Não seja indelicada!- Mamãe repreendeu enquanto me entregava um copo de suco- O pai do garoto teve problemas e precisou passar a noite fora, só vai passar uma noite aqui...
-Tem dezessete anos e não pode passar uma noite sem supervisão?- Perguntei com a sobrancelha erguida olhando nos olhos castanhos que forçavam uma expressão triste.
-Não seja indelicada Josephine- Disse com ênfase no meu nome, sabe que eu odeio quando me chamam assim.
Não foi uma refeição agradável, mas nada que fosse insuportável, o fato de que tudo que saí de sua boca me faz revirar os olhos acaba atrapalhando nossa convivência, ou melhor dizendo, acaba me atrapalhando, ele só ri das minhas reações irritadas.
Eu só queria ficar no meu quarto, em paz, sozinha e sem nada pra desviar minha atenção ou tirar sarro das minhas leituras, a chuva caía gentilmente lá fora, a luz amarelada e fraca deixava o ambiente com tom acolhedor, estava confortável ali e eu não queria sair nunca mais, estava na minha bolha, até que pela segunda vez meu demônio a estoura.
-Prometo que sei ficar quietinho, não dou trabalho e não faço bagunça- Disse piscando os olhos de forma rápida e jogando um travesseiro no colchão que estava no chão ao lado da minha cama.
-Já falou demais pra mim- Resmunguei sem tirar os olhos das pequenas letras pretas.
-Continua lendo Ovídio?- Perguntou apoiando a cabeça na cama, concordei com a cabeça, não quero conversar agora- Não gosto muito dessas, mitologia grega e essas coisas, prefiro fantasias menos românticas que essas, mas posso tentar- Concluiu sentando ao meu lado na cama.
-Eu não te convidei até onde me lembro- Falei percebendo que apoiava sua cabeça em meu ombro.
-Eu sei, eu me convidei, eu leio rápido, não vai precisar me esperar pra virar a página- Me olhava como uma criança, então só deixei ali até que nossos olhos estivessem cansados da leitura.
-Continua...- Murmurei entregando o livro que tanto defendi mais cedo, eu queria finalizar aquela parte ainda hoje, mas meus olhos estavam ardendo...
-E então Tisbe após comer milhares de amoras decidiu jogar fora o trapo velho que chamava de lenço- Ria das próprias invenções que tinham o intuito de deixar a história menos enfadonha.
-Eu já sei que isso não acontece... Para de inventar e segue do jeito que tem que ser- Falei batendo em seu braço e fechando os olhos.
-E então o idiota do Píramo depois de encontrar o lenço ensanguentado decidiu fazer a escolha mais idiota possível e cometer suicídio... Fim- Disse fechando o livro e deslizando até o colchão- Goodnight sweet Josephine...
Eu já estava praticamente adormecida, mas eu ainda tinha força pra dar uma livrada naquela cabeça pensante.
-Boa noite meu demônio- Murmurei com o rosto no travesseiro.
-Gostei do 'meu' antes do 'demônio'- Sussurrou com uma risada em seguida.
-Então só demônio- Eu não quero criar vínculo nenhum com esse capetinha.
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Lemon Boy- Shortfic
FanfictionOnde Josephine sonha em se livrar da maior erva daninha já vista em um jardim: Clapton, que infelizmente, insiste em voltar ao seu lado da cerca branca no pequeno quintal compartilhado.
