O Encontro

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Há dezesseis anos atrás...

Meu coração batia ensandecido no peito como das outras vezes com a possibilidade de encontrá-la novamente. Havia mais de cinco luas cheias que nos encontrávamos as escondidas dentro das estalagens e eu ainda me sentia como um maldito adolescente e não como um homem formado. Suspirei, dessa vez não a veria descarregando os legumes na despensa como a vi pela primeira vez. Eu ainda me lembro como se fosse hoje o dia em que nossos olhares se encontraram, eu estava no meu quarto esperando o general Fagther para ouvir mais sobre os relatórios de desenvolvimento das tropas do exército de Dramand, eu precisava saber como estava ocorrendo o recrutamento dos novos soldados antes de partir, daqui a alguns dias eu e Faghter teríamos que ir visitar as outras províncias que ficam no Continente de Latrux para fazermos uns acordos com os Reinos Baixos de Latrux que beneficiaria tanto o nosso Reino quanto os Reinos deles, meu pai estava confiante de que conseguiríamos ficar com alguns lotes de terras perto do Grande Rio, o local era um ponto estratégico para fazer um Porto que facilitaria o envio de alimentos e matérias primas para Dramand, cada dia que passava a população aumentava e a necessidade de alimentos também, antes de partir o meu pai solicitou ao Conselheiro Real uma reunião comigo com toda a Clave do Reino, olhei para a antiga ampulheta feita de madeira e vidro perto da janela do meu quarto e decidi que já estava passando da hora, o General estava atrasado, estranho, ele nunca se atrasava.
Olhei para as pilhas de livros antigos e pergaminhos com as folhas amareladas e gastas com orelhas nas bordas que me encaravam de volta, suspirei com impaciência decidindo me levantar da cadeira acolchoada com veludo cor de vinho e ir atrás daquele velho bigodudo rabugento, seus relatórios sobre as atividades do Exército Real eram muito importante para o Reino, ele sempre me fazia traçar novas alternativas para melhorar o empenho das tropas, quando eu não conseguia enxergar uma saída para um problema entre os Reinos ele sempre me orientava da melhor forma possível, não era a toa que ele é o meu braço direito no comando das tropas dramandianas, geralmente eu ficaria estudando os mapas de Latrux novamente se ele não viesse, mas hoje eu queria muito fazer uma pergunta que estava me tirando o sono, saí do meu quarto que era guardado por dois soldados com armaduras e espadas afiadas em cada lado da minha porta esperando atentos ao menor sinal de perigo, me apressei pelos largos corredores que estavam cheios de criados que levavam cestas de roupas para serem lavadas, arrumadas e passadas.
Durante o dia o Palácio era movimentado com as tarefas a serem realizadas, os servos assim que me avistavam faziam sinal de revência. Avistei a senhora Karlotha apressada com suas pernas curtas indo para o salão central, ela é uma senhora bem durona para a sua idade, com avental cinza e o brasão da realeza no seu broche, você acaba tendo a impressão de que ela é bem intimidadora com os seus olhos castanhos sagazes que passam a impressão de saberem tudo que está ao seu redor, inclusive o que se passa na cabeça da gente. Mas, Karlotha me viu nascer, me conhece até mais do que o meu próprio pai que nunca teve tempo ao menos para brincar comigo, que sempre tinha desculpas por estar cuidando dos assuntos do Reino.
‘’Senhora Karlotha’’, perguntei a mulher que acabou se virando e fazendo uma reverência exagerada, ‘’ Alteza, o que o senhor faz aqui no salão central? Não deveria estar em alguma reunião com o Rei?’’.  Olhei ao redor no amplo salão central de pedras polidas, eu buscava através das inúmeras pessoas que por ali andavam concentradas em seus serviços ‘’ Eu estou procurando o general Fagther, ele ainda não chegou para a instrução de hoje’’. O cabelo castanho da senhora Karlotha estava devidamente preso em um coque formal sem um fio de cabelo se quer fora do lugar que completava o visual de uma governanta bem severa, as linhas ao redor dos seus olhos se acentuaram quando ela os apertou ‘’ Ele nunca se atrasa Alteza, deve está em alguma reunião com o rei e o gabinete real’’. Suspirei olhando impaciente para a bainha do vestido dela que se arrastava no chão de mármore polido com cera que brilhavam refletindo a luz do sol entrando pelas largas janelas do Palácio Real ‘’ Tudo bem, senhora Karlotha, se a senhora encontrá-lo, poderia pedir a alguém para me avisar da sua presença? Vou procurar o cavalheiro Zack enquanto isso’’. A senhora Karlotha murmurou um tome cuidado e fez outra reverência, sorri para mim mesmo pensando que a governanta real do Castelo Dramandiano é um cargo de alta confiança da corte, fazia anos que a governanta real era a senhora Karlotha, e a mulher se orgulhava disso, pois sua família servia a Família Real durante anos, enquanto ela cumpria as suas obrigações com rigidez e maestria, já o seu sobrinho era mais brincalhão e sorridente.  Zack era um aspirante a Oficial Real do Exército de Dramand, além é claro, de ser meu melhor amigo, costumamos quase todas as tardes fugir dos encontros de chá e biscoitos que a minha mãe, quer dizer, a rainha marca, com a persistente intenção de encontrar uma esposa pra mim, com as esnobes esposas dos oficias e as suas damas da alta nobreza que passam o dia sentadas comentando da vida de todo o Reino e exibindo suas enormes joias umas as outras.
Eu não gosto de participar dessas obrigações cheias de protocolos que devia seguir, mesmo que a maioria dos jovens cavalheiros da mesma idade do que eu, pelo menos da realeza e nobreza, que conhecia faziam questão de participar desses encontros para flertarem com as jovens damas que iam mostrar seus vestidos, cada um mais espalhafatoso do que o outro, e as fitas então, que decoravam seus cabelos já arrumados com penteados nada discretos com a intenção de fisgar algum jovem oficial ou nobre solteiro que estivesse a procura de uma bela esposa, ou até mesmo o futuro regente de Dramand, o príncipe Albert, que no caso sou eu. Sempre que eu estava em algum lugar ficava rodeado de moças que suspiravam sonhando em roubarem um tempo comigo, os pais das jovens apresentavam as suas filhas contando suas habilidades tentando me impressionar, eu ainda não tinha encontrado alguma dama que tivesse me feito perder as palavras, até naquele dia...
Como eu vivia em missões diplomáticas e militares nos outros Reinos da Província de Argenium, quase não tinha tempo de vim a Dramand, e quando vinha, dava mais atenção a minha mãe e a minha irmã, sempre pensava nelas quando estava viajando, a saudade sempre batia, mas me obrigava a cumprir com os meus deveres para com o meu Reino, eles precisavam de mim. Estava pensando no meu amigo Zack que teve a sorte de encontrar uma moça que o amava e que ele era perdidamente apaixonado, dava para vê isso na intensidade do olhar dele, quando me choquei contra alguma coisa dura e acabei derrubando algo no chão, batatas, maçãs e tomates saíram rolando pelo mármore frio, uma voz doce e delicada praguejou baixinho, quatro guardas vieram correndo me socorrer, mas alguém que estava próximo de mim ofereceu uma mão para me levantar e eu o dispensei com um aceno de mão, já ia falar umas boas pérolas para quem quer que fosse que tinha entrado no meu caminho, esse não era um dos meus dias de sorte, eu já estava irritado com a demora de Fagther, e agora o meu colete preferido estava com um rasgo enorme do lado da minha cintura.
Eu tentava inutilmente limpar meu colete verde escuro que estava agora com manchas de terra e grama, já estava imaginando o sermão que receberia da senhora Tessa, minha tutora de etiquetas, sobre o quanto é deselegante um príncipe correr e que eu deveria sempre ser contido no caso de alguma coisa desandar para não praguejar, ainda mais na frente de outras pessoas, meu rosto ficou vermelho de vergonha por ter praguejado na frente de várias criadas, olhei para as várias caixas de legumes ainda no chão. ‘’ Desculpe-me, eu não vi o senhor vindo, você se machucou?’’, olhei para cima e naquele instante eu pensei que tivesse batido a cabeça com muita força no chão e tivesse alucinando, será se os anjos visitavam a terra? Parada na minha frente estava uma linda dama me fitando com grandes olhos azuis sombreados por longos e fartos cílios, seu rosto fino e angelical estava contraído com uma expressão preocupada e seus longos cabelos de um loiro quase branco estavam bagunçados pelo vento, seu nariz fino e pequeno estava com um pouco de areia, ela viu que eu a estava olhando, provavelmente, com uma expressão patética no rosto. ‘’ Afaste-se do príncipe, camponesa’’, disse um guarda já se aproximando de mim e o outro empurrou a jovem mais bela que já vi em toda minha vida. ‘’Vossa Alteza, o senhor está bem?’’, eu olhei para o senhor Gerould, meu mordomo, que esperava eu responder a sua pergunta, eu só conseguia balançar a minha cabeça, alguns miolos devem ter sido esmagados quando bati nas caixas de legumes, só pode, para eu não conseguir formular uma resposta se quer.
Ouvi o senhor Gerould pedindo para um guarda chamar um médico e a criada para pegar um copo de água para mim, que saíram apressados, eu finalmente encontrei minha língua quando eu vi os cachos vermelhos de Zack entre os criados e os guardas que me olhavam confusos. Para alguém andando de muletas com uma perna quebrada até que ele tinha umas pernadas bem rápidas, seu rosto em formato de coração com algumas sardas entraram no meu campo de visão quebrando o contato entre o meu olhar e os lindos olhos azuis escuros que me fizeram perder a noção da realidade.
‘’ Que diabos aconteceu contigo Albert?’’. A criadagem e os soldados arregalaram os olhos devido à forma de Zack falar comigo, por à gente ter crescido juntos e até ter recebido tutoria com os mesmos lordes reais, nos tratávamos como irmãos, ele às vezes até esquecia que eu era o futuro rei de Dramand, o que estava distante de acontecer, mas que um dia seria. ‘’ Eu estava procurando você quando...’’ Parei de falar e procurei ao redor pela linda dama que tinha trombado comigo, mas não encontrei aqueles olhos azuis, Zack me sacudiu falando ‘’Desembucha logo, Albert’’, e os guardas me olharam esperando a minha ordem para afastá-lo, fiz um aceno com a cabeça para indicar que não era preciso, só queria encontrar essa moça, onde será que ela teria se metido? Saí em disparada, agoniado querendo saber quem era ela, eu nunca a havia visto pelos bailes do Reino, nem mesmo pelas ruas da Cidadela quando íamos realizar vistorias no comércio.
Passei apressado pelos corredores e algumas pessoas tentavam me parar parabenizando pelo desempenho das tropas dramandianas ou pela nova excursão que iria fazer daqui uns dias até os Reinos Baixos, dispensava-os com um aceno de cabeça ou murmurando algum obrigado em resposta, mas meu pensamento só estava em encontrar aquela mulher misteriosa que se meteu na minha frente e nem ao menos fez uma reverência para mim, de onde essa mulher tinha saído? Sumiu e não pediu nem desculpas como se eu não fosse ninguém, ah, mas ela não ia fugir de mim! Eu ouvia o som das muletas atrás de mim e estava ciente de que Zack praguejava como um bêbado por eu estar agindo feito um louco. Vi a senhora Karlotha dando ordens para dois soldados descarregarem os caixotes de alimentos na cozinha e segui os dois, quando passei pela grande porta da cozinha eu, finalmente, a avistei, meu coração errou uma batida e minhas mãos ficaram suadas, ela estava conversando com o oficial da guarda, Cristopher, um sujeito loiro com os olhos verdes brilhantes, alto e metido a forte, por ser um oficial que alcançou cedo um posto de alta patente no exército dramandiano as damas sempre se derretiam por ele, até a minha irmã, que ninguém conseguia dobrar, caía de amores por esse sujeito, ele nem era tão presença assim, e eu nunca o vi conversando com nenhuma outra moça antes, porque que justamente com essa ele resolveu falar?
Esse pensamento me corroía por dentro quando ele estava falando alguma coisa que a fazia olhar pra baixo e sorrir, meu sangue ferveu com a possibilidade dela também está se deixando levar pelo charme barato desse oficial meia tigela, e decidi interromper a cena na minha frente. Quando estava me aproximando do casal, uma mão me puxou com força, fiquei com a vontade de cortar fora a mão de quem quer que fosse que me impedia de acabar com a falta de respeito que se desenrolava diante dos meus olhos. Era só o que me faltava! Para demonstrar toda a minha impaciência e irritação com a pessoa que estava me segurando, fechei a minha cara e olhei com o meu pior olhar que faria até os mais valentes generais tremerem quando estavam diante de mim. Girei o meu rosto e me deparei com Zack me olhando cansado de tanto tentar me alcançar ‘’Onde tá o incêndio? Cara, primeiro você causa um alvoroço no meio do salão, derruba vários alimentos no chão, fica parado sem falar nada como se tivesse se deparado com alguma coisa com cinco olhos, e saí me deixando falando sozinho, deixa eu ficar bom da perna que vou chutar esse traseiro real até o Vale de Kigdom’’ ele ignorou a cara que eu estava fazendo, eu podia fazer todo mundo ficar de boca fechada em questões de segundos com apenas um olhar, mas com Zack isso não acontecia, ele não tinha medo de perder a língua grande que ele, por hora, ainda possuía.
Olhei mais uma vez para me certificar que aquele otário não tinha colocado aquelas patas nela, e voltei o meu olhar dentro dos olhos do meu amigo para ele me levar a sério dessa vez ‘’ Escute Zack, preciso resolver uma situação importante agora, já volto para ouvir o que você tem a dizer’’. Zack, assim como eu, era muito astuto e percebia tudo ao seu redor em questões de segundos, devido nossos anos de treino no exército real, seguindo o meu olhar, viu a minha ‘’importante situação’’ arreganhando os dentes para um paspalho com farda azul, olhou para mim com a cara mais lavada do mundo e abriu um sorriso cheio de dentes quando juntou um mais um. ‘’ Ué, mas quem é essa moça, Albert?’’, ele perguntou olhando com curiosidade para as roupas marrons e remendadas que a moça vestia, ‘’Era isso que eu estava tentando descobrir quando você me interrompeu’’. Ele jogou uma mão para cima enquanto se apoiava nas muletas com a outra, ‘’Calma, cara, não vou mais atrasar a Vossa Senhoria de resgatar a bela dama em apuros que, pelo visto, está sucumbindo ao charme do segundo guarda mais forte da tropa de Dramand, porque o primeiro sou eu’’, fechei ainda mais a minha cara com vontade de tirar o sorriso sacana que ele alargava ainda mais ao ver a minha expressão de poucos amigos, o dia mal começou e eu já estava soltando fogo pelas ventas.
Respirei fundo tentando acalmar os meus nervos, geralmente, eu não perdia a cabeça com tanta facilidade, mas hoje, definitivamente, estava sendo um daqueles dias que você acorda decidido a cumprir com as suas obrigações e parece que tudo conspira contra o seu bom humor. Comecei a marchar decidido até aquela mulher que em pouco tempo já tinha feito eu correr por todo o salão atrás dela, coisa que eu nunca se quer cogitei em fazer, só para saber o nome dela. Parei me empertigando o tanto que pudesse para intimidar o rapaz que parou de sorrir ao me vê parado atrás da figura minúscula dela, rapidamente ele fez uma continência reconhecendo a minha autoridade, mas ainda se manteve muito perto dela ‘’ Príncipe Albert, o senhor deseja alguma coisa?’’, a jovem, rapidamente se virou com os olhos ainda maiores ficando a poucos centímetros de mim, respondi a ele, mas fitando meus olhos nos dela com um sorriso que eu sabia ser a minha marca registrada entre as damas, tentando resgatar um pouco de dignidade após ter rasgado o meu colete em algum prego daqueles caixotes de batatas e ainda por cima ter feito papel de tonto ao ficar sem fala pela tamanha beleza dessa moça na frente de tantas pessoas ‘’Sim... Cris...?’’ O oficial me respondeu ‘’Cristopher, meu nome é Cristopher, Vossa Alteza’’, eu sabia o nome dele, mas queria que esse cara não soubesse disso, ‘’ Que seja, Cristovão’’, peguei as mãos da moça que continuava me encarando e beije-as com delicadeza ‘’ Eu gostaria de saber o nome da moça mais bela que os meus simplórios olhos já tiveram o privilégio de contemplar’’, que a minha irmã não ouvisse isso, ela, com certeza, riria de mim. Sempre bati no peito com orgulho por nunca ter me apaixonado, e ela insistia em dizer que quando eu me apaixonasse faria papel de completo bobalhão.
  Ignorei o bufar do oficial que deve ter percebido que eu tirava uma com a cara dele, ela sorriu e os seus olhos sorriram juntos, e eu pensei que não fosse possível um coração se derreter diante de um simples sorriso, mas eu era capaz de apostar a minha coroa de que esse sorriso era capaz de ofuscar até o brilho das mais esplendorosas estrelas. 
  ‘’Grace Collins, Vossa Alteza’’, eu estava encantado com tamanha delicadeza com que os seus fartos lábios formavam as palavras, ela continuava a sustentar o meu olhar, sem em nenhum momento desviá-lo do meu, mas agora ela mantinha um sorriso mais contido, nesse momento, eu tomei consciência de que ainda segurava suas pequenas mãos. Franzi minhas sobrancelhas ao notar os calos nas palmas de suas mãos e que as suas unhas estavam com muita terra, será se ela cultivava todos aqueles legumes? Contudo, isso pra mim não tinha importância alguma! Em nada diminuía o meu encantamento por ela, pelo contrário, eu estava fascinado. Vi que ela notou a minha observação sobre as suas unhas e deve ter interpretado o meu olhar de outra forma, pois logo em seguida, ela retirou as suas mãos das minhas e o sorriso contido sumiu de seus lábios dando lugar a uma expressão de frieza em seu rosto.
Ouvi uma risadinha abafada do garanhão barato que deve ter percebido a mudança do jeito de Grace, lancei a ele um olhar que o deixou nervoso e que o fez tentar disfarçar com tossidas a sua risada debochada, ótimo, espero que ele se engasgue com a própria baba. Eu nunca gostei de usar o meu título para me beneficiar ou tentar ser superior aos outros, isso não fazia parte do meu caráter, já havia visto muitas pessoas da realeza e até mesmo da nobreza que costumam tirar vantagens das posições e dos títulos que ocupam, eu pelo contrário, desde novo busquei subir todos os degraus de patente por méritos próprios, os outros soldados podiam até pensar que por ser o filho do Rei de Dramand, o General Fagther fosse facilitar pra mim, mas eu sempre deixei bem claro que me considerava um soldado comum assim como eles, ao invés de dormir nos aposentos reais que cabiam aos membros da realeza ao se alistarem no exército, eu fazia questão de dormir nos mesmos alojamentos que os soldados normais, a comer a mesma gororoba encontrada nas florestas, e ter o mesmo treinamento que eles recebiam. Contudo, pela primeira vez utilizei a autoridade que o meu título detinha para lembra-lo do seu lugar, ‘’ Escuta só, Khristyano, você não tem que escovar os cavalos que estão na estalagem não?’’ falei sabendo que esse serviço não cabia a ele, e sim aos tratadores de cavalos, só queria que ele fosse logo embora.
‘’É Cristopher, Alteza, mas com o devido respeito, acho que o senhor deve estar se confundindo com outro, pois sou um Oficial e esse serviço não cabe a mim’’, ele me encarou em um claro desafio com a cara de poucos amigos, mas esse filho de uma mãe vai querer desobedecer a ordens diretas? Ainda mais na frente da Grace? ‘’ Senhor Cristopher, receio que esteja por fora de seus deveres em relação ao Reino de Dramand, sua obrigação enquanto um militar do Exército Real é servir independente de qual função lhe seja delegada’’. Encarei-o com um olhar firme para que não houvesse sinal de dúvidas sobre o meu claro recado. O patife ficou relutante em deixar a Grace sozinha comigo, será se ele não confiava na própria espada? Senti uma satisfação com esse pensamento.
‘’Tudo bem senhor oficial Cristopher, outra hora nos falaremos, ainda estarei mais alguns dias pela Cidadela, pois preciso falar com a senhora Karlotha e com os comerciantes locais sobre os pedidos das frutas, legumes e verduras que devo entregar’’. Ao ouvir isso, o oficial Cristopher sorriu fazendo com que aparecessem linhas ao redor dos seus olhos verdes da cor de musgo. Era um teste de autocontrole viu, porque me deu vontade de tirar o sorriso convencido da cara dele com um soco e para completar o meu tormento, ele ainda soltou antes de ir embora ‘’ Para uma rosa tão rara como a senhorita, podes me chamar somente de Cris’’. Ele se despediu de Grace beijando-lhe as suas mãos e fez uma reverência a mim, mesmo competindo comigo pela atenção da Grace, ele não deixaria de seguir os protocolos reais, em seguida deu as costas, não sem antes me lançar um último olhar de deleite pela Grace ter sugerido se encontrar novamente com esse cafajeste, fechei os punhos só em pensar nessa possibilidade.
‘’ Alteza, queria muitíssimo conversar com o senhor, mas tenho que fazer algumas entregas ainda’’, Grace fez uma reverência desajeitada me despachando com toda gentileza, eu já ia protestar quando escutei a voz de Fagther me chamando ‘’ Vossa Alteza, perdoe-me o atraso, estava em reunião com o rei, o que o senhor faz aqui na cozinha?’’ Olhei para onde Grace tinha ido, agora só conseguia enxergar as suas costas ao longe, de que buraco essa mulher que me intrigou tanto tinha saído? A única moça que não caiu imediatamente em meus braços! Enquanto outras mulheres fariam tudo para ter um pouco da minha atenção, essa me dispensou sem rodeios! Ora, se ela pensava que eu ia desistir fácil, estava muito enganada, não há nada que me incentive mais do que um bom desafio. 
Zack e Fagther se juntaram a mim perto dos balcões onde o cozinheiro real ditava ordens a um rapaz que estava de avental cortando pedaços de figos com rabanetes. Fagther estreitou os olhos para a grande porta que Grace havia saído há poucos segundos atrás, com certeza estranhando o meu comportamento ‘’ O senhor está se sentindo bem Alteza?’’, hoje todo mundo estava me fazendo à mesma pergunta. Zack me lançou um sorriso de quem sabia das coisas, ele me conhecia desde sempre e sabia que Grace tinha chamado a minha atenção, ele só não sabia o quanto essa menina tinha mexido comigo.

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