A nova vida de quem enfrenta uma realidade que parece até fictícia... Anne tinha acabado de sair de sua festa de 16 anos quando seu pai anunciou que finalmente tinha recebido a tão aguardada promoção. Não era por mal, mas não seria a melhor notícia que ela poderia ter recebido aquele dia, afinal sua família mal se mudara para o Canadá e já teriam que partir para um novo país, consequentemente: nova escola, amigos (que provavelmente largaria em menos de um bimestre), relações, comidas, costumes, etc...
Já haviam se instalado na nova casa, dois meses de "se acostumar" antes da volta as aulas. Um misto de animação e medo fez com que 28 de Janeiro fosse uma data tão próxima quanto 31 de Fevereiro, mas quando o dia finalmente chegou os pais de Anne poderiam descreve-lá perfeitamente como: uma criança no primeiro dia do fundamental. Tinha acordado cinco e meia da manhã, tomou banho, colocou o uniforme, desarrumou a mochila, arrumou de novo e desceu para tomar café. Uma última checagem... Apostilas, caderno, estojo, carteira, chaves e celular. Foi para o banheiro olhou de novo para o espelho sem saber o que estava tentando ver... Estava normal, a mesma garota de agora 16 anos, sorriso torto, cabelos ruivos, sardas e olhos verdes.
No meio de beijos de despedida da mãe e mandamentos de cuidade e juízo, ela saiu com o pai a caminho da nova escola, a cidade era calma, o interior do interior de uma cidade interiorana. O caminho era bonito, uma parede rochosa cercava a cidade como uma fortaleza de um lado e o outro era tomado pela parte urbana, por uns três quilômetros o caminho era inteirinho assim e quanto mais perto da parte urbana ia mudando aos poucos, a calmaria virava o tormento de uma cidade comum com carros e muitas conversas soltas. Dois quarteirões antes um semáforo fechou e Anne apoiou sua cabeça na parede da porta do carro quando viu uma outra garota. Cabelos curtos e pouco enrolados, um cigarro pendia quase caindo de sua boca, ela olhava para o céu como se fosse um amigo próximo e pouco antes que o sinal voltasse para o verde seus olhares se cruzaram em um timing perfeito.
A encarada interrompida pela velocidade dos carros ao voltarem para o movimento deixou um pingo de curiosidade rondando os pensamentos de ambas foi retomada de súbito quando cada uma desceu do carro, uma parecendo que nunca estava dentro do veículo enquando a outra esperava enquanto recebia a carga diária de conselhos do pai. Seguiram pelo mesmo caminho até a sala sete no segundo andar do prédio, então uma tomou seu rumo até a cadeira no canto da sala ao lado da janela e Anne parou na porta pensando em se sentar ao lado ou perto, ou muito longe.
Anne passou o dia inteiro evitando a tal menina, passava longe do grupo, não falava, se fingia de ninguém. E assim ela passou a semana inteira, pelo menos até sábado. Seus pais iam passar o dia fora, largaram ela em casa com 20 reais e disseram "DIVIRTA-SE!", "não, claro vou me divertir com o total de zero pessoas que eu conheci haha muito divertido!" foi a primeira coisa que ela pensou quando os pais sairam. O máximo que poderia fazer para se divertir era andar 10 metros até uma cafeteria vizinha do seu vizinho, então foi o que ela fez.
_ Bom dia! O que vai querer? - A mulher no balcão perguntou com um sorriso no rosto apontando para o cardápio preso na parede atrás dela.
_Um suco de... Laranja. - Ambas acenaram e Anne subiu as escadas seguindo um placa que levava ao terraço do local. A cafeteria era bonita e colorida, bem cuidade e tudo mais o lugar cheirava a croissants e frutas frescas. Com o céu a vista e o vento batendo na cara um cheiro começou a destoar o cheirinho de doces frescos, era um cheiro bem suave de cigarro, e foi aí que ela percebeu.
_ Oi? Isso tá começando a ficar estranho, você tá me seguindo ou fugindo de mim? - Era ela, alta, os cabelos enrolados, estava com óculos escuros sentada olhando para a parede em frente ao parapeito com os pés apoiados nele, usava uma calça jeans cinza escuro e uma camisa verde musgo com a mesma logo bordada na camisa da mulher que atendera Anne no balcão com uma plaquinha "JOY" embaixo. - O gato comeu a sua língua ou você não fala meu idioma mesmo? In English is better? (*Inglês é melhor?) - ela soltou uma baforada e depois me olhou assustada apertando o bico do cigarro em um cinzeiro. -Me desculpa... Mas?
_ Ah desculpa! E-eu, eu vim conhecer melhor a cidade, desculpa voei aqui um pouco.
_ Tranquilo... - Ela disse com um sorriso lateral. - Senta aí, me fala... Qual é o seu nome mesmo? Ana ou Anne? É alguma coisa assim né?
_ O segundo... Anne.
_ Tá... Anne, pelo visto você é nova então não vou nem perguntar se você é... Isso já tá meio óbvio, então pediu o quê?
_ Suco de laranja.
_ Péssima escolha... Você não combina com suco de laranja, na moral deve ter uns 22 sabores de suco e você escolheu laranja... - Ela parecia comicamente decepcionada, era tranquilo falar com ela. - Então você provavelmente vai viver um dia pacato pra cacete.
_Dócil.
_Sempre... Suave como um vira-lata ciumento.
_ O quê? - Anne começou a rir enquanto a garota olhava com um sorriso aberto. - Ai! Eu nem sei qual é o seu nome... Qual é?
_ Joy... Pode rir se você quiser, meus pais só lembraram que emoções em outro idioma não são nomes quando meu irmão nasceu, então eu me acostumei já. - Anne tentava segurar o riso, mas Joy sorria para ela como se desse permissão. De qualquer jeito ela mudou o curso da conversa antes de começar a rir.
_ Quantos anos você tem?
_ 17... Você sabe fazer outras perguntas além de perguntas do formulário de adesão da academia ali da esquina? - Ela sorriu passando a mão no cabelo. - Vamo fazer o seguinte... Eu me chamo Joy, tenho 17 anos, gosto de cozinhar, fumo bastante, mas pelo menos pratico muito esporte, gosto de estudar outros idiomas, tenho uma média muito boa até na escola, tô no time de basquete, desenho um pouco demais as vezes, gosto de ler, tenho dois cahorros, medo de aranha e um pouquinho de medo de gato quando eles tão com os olhos meio cerrados sabe? Ah e cobra, tenho um puta medo de cobra, não tenho alergia nenhuma, e pendo um pouquinho pro lado de fazer merda... Meus pais são casados e eu tenho uma irmã mais velha... Inclusive ela acabou de chegar com o seu suco TEDIOSO de laranja.
_ Tenta não assustar a menina Joy. - A irmã disse com um olhar de quem está com medo de falar algo errado.
_ Tá tudo bem... - Anne respondeu com um sorriso, e quando a irmã da garota desceu as escadas ela retribuiu a frase. - Anne, 16 anos, pais casados, sem irmão, uma média mediana, não curto muito ler, mas gosto de química... Tenho medo de insetos e toco violino... E não acho sucos de laranja tediantes.
_ Tá certo... Vai parecer muito ruim, mas posso acender um cigarro? Preciso espairecer um pouquinho.
_ Tranquilo.
Joy acendeu o cigarro, baixou os óculos escuros e voltou a olhar para as nuvens, Anne não entendia o que estava acontecendo, parecia que a garota ao seu lado estava voando enquanto sentada bem ali ao seu lado, Joy suspirou, fecou os olhos e continuou parada, voando escondida entre cigarros e sonhos numa nuvem de fumaça.
"In and out somewhere else right now... Cigarette daydreams, you were only seventeen..." Cage the Elephant (MELOPHOBIA)
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Todas as coisas não ditas
RomanceEra para acontecer? Ninguém nunca acorda pensando que seu caminho vai cruzar com outro que vai mudar completamente a sua vida. A vida de Anne tem sido difícil desde que seu pai fora promovido, nunca foi legal mudar de escola pra escola, sem saber o...
