Estava chovendo. Como se não bastasse, as gotas escorriam pela janela zombando de mim como se dissessem: "Veja somos livres e você não." Ou diriam algo como: "A vida é uma tristeza e até o céu pode chorar." Mas isso é muito deprimente. Poderiam dizer também: "Você está preso numa vida que não quer, sofrendo atoa e somos a personificação da tristeza que não pode demonstrar." Sim. Acho que é isso que elas estão dizendo. Tudo que eu queria agora era sair desse fim de mundo e pegar meu violino.
Mas estou preso aqui. Batuco meu lápis na mesa e encaro minha prova de geografia em branco. Tudo passa por minha cabeça, exceto a maldita matéria. É tudo muito previsível. Sei que se olhar para o lado verei que a garota inteligente já fez a prova e estará lendo um de seus livros. Se olhar para trás verei os garotos colando da internet e uns dos outros sem se tocarem que tem provas diferentes. E se olhar para frente verei o professor mexendo no celular sem se importar com a gente.
Quando vejo minha prova só consigo pensar que é mais uma expectativa para mim, mais uma algema invisível que me prende. Em um pequeno ato de rebeldia marco qualquer resposta na prova inteira. Encosto minha cabeça na janela e suspiro. O que será que minha mãe vai pensar quando o filho perfeito dela não tirar uma nota perfeita?
Provavelmente ficará louca. Já que sou o filho perfeito, com a namorada perfeita e as notas perfeitas. Claro que nunca pude opinar sobre isso. Minha obediência vem de anos de privação, minhas notas são perfeitas para entrar na tão sonhada faculdade de Medicina da minha mãe, minha namorada foi escolhida a dedo por ela e assim como eu, é a herdeira de uma multinacional. Até o violino e o piano foram imposições da família. Sou a marionete perfeita.
Mas estou tão cansado que às vezes tenho vontade de sumir do mapa. Me jogar no mundo sem nenhum plano. Mas até isso minha formação me impede, pois não sou tonto o suficiente para acreditar que isso daria certo. Além da prova, a única coisa que fiz por mim foi aprender a tocar guitarra, escondido claro. É a única forma que encontrei de não me perder.
O sinal toca e entrego minha prova. Guardo minhas coisas e pego meu case. Só posso guardá-lo na escola, o lugar onde minha família nunca colocaria seus pés, apesar de ser uma escola renomada. Me dirijo a sala de música torcendo para não esbarrar em algum conhecido e ter que conversar. Mas Deus realmente não gosta de mim. Dobrando o corredor vem a piranha, opa, digo minha namorada. Escondo o case atrás da lixeira e espero ela vir.
Seria pouco dizer que a detesto. Ela é metida e superficial. É bonita, mas usa maquiagem demais e tem silicone (ela vai negar até a morte, mas tem sim) e o pior é o fato de ser arrogante e exibida até demais. Exatamente como agora. Ela vem correndo dando gritinhos e pula em mim, mas me abaixo fingindo amarrar os sapatos e ela passa direto caindo com tudo no chão. Não posso deixar de sorrir vendo aquela loira coberta de rosa com um salto agulha esparramada no chão.
Ela se levanta furiosa e me encara com as mãos na cintura.
_O que foi isso Will?
_Eu só fui amarrar meu sapato. Desculpe, não tinha te visto.
Seu cérebro vale tão pouca coisa que ela nem reparou que meus malditos sapatos eram sociais e não tem cadarço! Sério, um dia desses ainda vou ser contaminado pela burrice dela. Deus! Eu só queria tocar um pouco sem a minha vida estragar tudo.
_Tudo bem docinho. Hoje vou no salão me arrumar para irmos àquele concerto de Shakespeare.
Senhor, burrice é contagioso. E docinho? Eca.
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Quando Acontece
RomanceWillian é um garoto, que tem tudo, exceto sua tão sonhada liberdade. Mikael é o oposto, ele perdeu tudo, mas ainda lhe resta um tesouro e inúmeros segredos. Podem duas pessoas tão diferentes darem certo?
