Capítulo 1

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Audrey


A lua... A única coisa que faz a adrenalina em meu corpo diminuir por um segundo e torna minha besta interior um pouco mais humana.

A observo em toda sua plenitude, lua cheia, tão majestosa e única. Sinto o vento eriçar meus pelos, de repente algo cresce dentro de mim, não consigo evitar soltar um uivo longo e alto, como uma forma de agradecimento pela mera imagem de perfeição que ela me transmite. Quando acabo percebo que eu não era a única a fazer a homenagem, outro uivo rompe o silêncio da noite. Droga. Sinto o sangue pulsar mais forte em minhas veias, meu olfato se torna mais apurado e sinto o animal dentro de mim retomar o controle. Hora de caçar.

Acordo com o despertador do celular, cinco e meia da manhã. Ótimo horário para voltar para a cama. Resmungo já estendendo o braço para desligar o alarme, mas como se tivesse recebido uma mensagem telepática, a cidade inteira desperta e começa a funcionar. Perfeito. Levanto da cama, já sentindo as pontadas da minha enxaqueca matinal, e sigo para o banheiro. Ligo o chuveiro, deixo a água gelada escorrer por minha pele, enquanto isso me mantenho imóvel para não esbarrar na prateleira de produtos ou no blindex. Sim, meu banheiro é minúsculo, mal consigo sentar na privada sem encostar as pernas na pia em frente, porém, pelo preço do aluguel não tenho o que reclamar. Tento esvaziar minha mente um pouco, mas logo meus ouvidos irritantemente apurados começam a captar sons de televisões, secadores e liquidificadores, pego dois pedaços de algodão na prateleira e coloco neles. Silêncio afinal.

Termino meu banho calmamente, quando acabo enrolo meu corpo em uma toalha e vou em direção a pia. Escovo meus dentes encarando o espelho embaçado a minha frente, mesmo sem ver meu rosto perfeitamente, consigo notar o cansaço em minha face. Já fazia três noites que eu não dormia direito, um maldito forasteiro tem infernizado a cidade e minha besta interior não gosta de ver ninguém além dela aterrorizando suas presas.

Pego a escova e começo a pentear meu cabelo molhado, lembro do quão grande eles eram, quando pequena costumava fazer tranças enormes para ir brincar na floresta, mas quando fiz vinte anos cortei eles acima dos meus ombros. É difícil ter um cabelo grande quando você costuma sair pela floresta a noite e chega com ele cheio de folhas e lama. Saio do banheiro e pego meu uniforme pendurado na cadeira, enquanto visto noto arranhões em meu peito. O que aconteceu ontem? Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, quando alguém se transforma em lobo ela perde a maior parte de sua consciência, se não ela toda. Por exemplo, eu sei que fui na floresta, sei que havia outro lobo lá, porém, não lembro o que eu fiz e como parei com essas marcas de garra no meu corpo. Meu animal interior também não ajuda nem um pouco com detalhes. Outros como eu conseguem se comunicar normalmente com seus lobos, mas comigo é diferente, quando ela está no controle eu não tenho direito de opinar e nem de observar, como se fossemos dois corpos diferentes unidos por uma merda de transformação. O bom é que eu também consigo assumir total controle, às vezes, e quando faço isso fico vários dias sem que ela apareça, não é fácil, mas eu consigo.

Olho o celular para verificar as horas e percebo que já passei do horário de chegada, suspiro conformada, mais um emprego perdido, pego minha bolsa e saio sem esperanças para o trabalho.

Ando rápido pelas ruas, desvio o olhar das outras pessoas, não gosto de contato visual com estranhos, fico com a sensação de que eles podem ver algo em meus olhos, algo que desde pequena tive que esconder. Chego no ponto de ônibus bem na hora, entro no veículo e sento na primeira cadeira vazia que encontro, depois que os outros passageiros se acomodam o motorista continua sua trajetória. Observo as ruas passando rapidamente pelo vidro, até que percebo alguém tentando chamar minha atenção, viro e tiro o algodão do meu ouvido.

"Garota, pensei que você tinha ficado surda." Lisa fala alto, enquanto me encara com seu olhar maternal e preocupado.

"Desculpa, estava com dor de cabeça." digo baixo, esperando que ela também diminua o tom de voz.

"Você sempre está com dor de cabeça menina! Eu já falei para você ir no médico da Avenida 5, aquele gordo esquisito que cuidou do meu primo três anos atrás, lembra do Mike que tem cabelo preto,..." Ela continua falando por um bom tempo, enquanto eu apenas sorria e balançava a cabeça concordando.

Lisa é uma mulher negra de quarenta e sete anos, mãe de cinco filhos e empregada do hotel mais caro da cidade. Ela é uma baixinha nervosa, porém muito carismática e desde que me conheceu me trata como um de seus filhos, claro que na maior parte do tempo ela fala mal do seu trabalho e de como está cansada de sustentar eles, mas eu não reclamo, ela é a única parte da minha vida que permanece em uma rotina, mesmo eu tendo trabalhado em sete ou talvez dez empregos diferentes, sempre posso contar com ela me esperando no ônibus para contar as novidades de sua vida problemática.

"Garota, você realmente precisa ir ao médico, já te perguntei uma coisa faz três minutos e você continua encarando a rua." Sua voz sai irritada e eu viro a cabeça para demonstrar que estou prestando atenção. "Perguntei se você tinha mudado de trabalho ou se o uniforme é novo?"

"Eu mudei de trabalho e acho que hoje vou mudar de novo." Olho o celular rapidamente. Trinta minutos atrasada. Agora eu tenho certeza que vou mudar.

"Meu Deus, você muda de trabalho mais vezes do que eu mudo de roupa menina." Ela brinca, mas noto o tom preocupado em sua voz. "Já sabe onde vai trabalhar dessa vez?"

"Não... Quando eu sair hoje procuro uma vaga em algum bar não sei." falo despreocupada, já tinha perdido tantos empregos que procurar por eles tinha virado quase como um costume.

"Olha, não posso confirmar nada, mas acho que tem uma vaga de camareira lá no hotel, talvez se eu mexer uns pauzinhos você consiga ela." Seu sorriso confiante me traz um pouco de conforto.

"Seria ótimo Lisa. Amanhã eu passo por lá e me candidato." Tento soar confiante, mas minha voz sai baixa e fraca.

"Ânimo garota! Se você conseguir vai ter que me aguentar todos os dias puxando sua orelha, tem coisa melhor?!" Ela puxa minha mão e aperta levemente de forma carinhosa.

"Claro que não." Sorrio sincera para ela e depois volto a olhar a rua.

A Profecia da ÔmegaOpowieści tętniące życiem. Odkryj je teraz