Gatos

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Na rua Bandeira tem três gatos,
Na verdade, uma gata e dois gatos,
A gata é branca, mas não aquele branco,
Eclesiástico de tão puro, falso?
É acinzentado, com manchas negras,
Talvez reflexos de sua alma?
Os outros dois são as próprias manchas da branca,

No final da rua, um limoeiro,
E tornando à direita está a casa dos Graça,
Um casal tão amável,
Já completam 60 anos de união,
Uma relíquia do passado,
Abandonada aqui por um capricho,

São dois românticos desse mundo,
Cheios de graça!
Ela, repórter e contista, apaixonada pelas palavras e romântica de terceira geração,
Ele, pintor, amante das imagens e cores,
Diga-se rapidamente que o sobrenome do casal não era seu,

"Uma imagem vale mil palavras",
Ele provocava,
"Escreva Dom Casmurro com suas imagens então, seu espertalhão",
Ela rebatia,
"Pois eu posso desenhar Capitu, a madame pode fazer uma crônica de Guernica sem se enrolar nas suas palavras como um dos cachos desse seu cabelo, por acaso?"
Riam os dois em sua discussão,

Sra. Graça em sua mocidade tinha grandes cabelos encaracolados,
A pele morena, um sorriso radiante,
A língua afiada como uma navalha,
Mas nunca derramou sangue em vão,

O Sr. Graça, alto, cabelo lambido pro lado
Um bigode fino e,       interessante,
Roupas engomadas, sempre de terno,
Não era o que se chamaria de bonito,
Mas como dizem, a beleza está nos olhos de quem vê ,
E assim viu Sra. Graça, um cavalheiro com coração de ouro,

O dinheiro era escasso, visto que talvez não faltasse beleza só ao Sr. Graça,
Mas às suas pinturas também,
Porém eram apaixonados um pelo outro,
Compunham canções juntos,
Um tanto quanto desafinadas, mas ainda assim cheias de amor,
Com o dinheiro de um conto escrito pela Sra. Graça, e ilustrado pela próprio Sr.
Conseguiram ir num restaurante chique certa vez,

Comeram fondue, e o Sr. Graça,
Muito romântico, espetou um morango
e ia o dar na boca da Sra. Graça,
Pelo menos é o que parecia,
Na verdade ele errou, de propósito?
Sujou a bochecha da esposa de chocolate,
Como riram naquela noite!
Nem ligaram para os olhares feios ao saírem,

Então, veio a gravidez
O Sr. Graça corria, pra lá e pra cá,
O rosto vermelho, organizando tudo para a chegada do novo Graça,
"É preciso um quarto azul! Ou rosa?'
"Já não haverá silêncio no escritório!"
Sra. Graça conseguiu trabalhar de casa,
Escrevia manchetes, sempre com uma gata no colo
Os contos ganhando mais reconhecimento, e as ilustrações do Sr. Graça talvez começassem a ficar mais palatáveis agora,

Havia certa disputa,
Será um artista de cores ou de letras?
"Que puxe a mim, Deus tenha piedade dele se puxar seus rabiscos e tiver de viver deles",
O Sr. Graça ultrajado rebateu,
"Meu amor, todos sabemos que seus lindos contos não fariam um décimo do sucesso sem meus rabiscos",
E riam de novo,

No entanto, isso foi em outra época
O único e amado filho?
Nunca deu seu primeiro choro,
Os amigos, colegas, paixões passadas?
O tempo deles na terra já se esgotou,
O casal Graça se tornou solitário,

São agora só uma nota, isolada
na orquestra da história,
O Sr. Graça já não consegue mais apreciar suas pinturas,
A amargura das rejeições
E olhos que não eram compreensivos como os da Sra. Graça lhe tiraram o apetite, as cores já não tem mais aqueles belos tons,

As palavras não vêm à Sra. Graça,
Sua língua afiada tornou-se uma lâmina cega, seu nome, já se perdeu entre memórias de outras tardes, como se chamava mesmo? Maria? Glória?,
Quem era o formoso Sr. de bigode que a levava comida de manhã?,

Acontece que o tempo,
Tão vaidoso e efêmero,
Mas ainda imponente,
Talvez arrependido de sua crueldade,
Ou talvez cansado do tanto pedir
das vozes silenciadas dos antigos amigos dos Graça, pedindo por misericórdia ao casal,

Concedeu à eles o direito de conhecer
nossa gata, do branco não tão branco,
Tão amada, como o filho cuja voz nunca se ouviu, fez companhia ao solitário
Sr. Graça quando sua madame finalmente se foi,
E seu branco não tão branco foi a única cor que o Sr. Graça apreciou,

Ela decide quando está com eles,
Quando se sentava no colo de Sra. Graça,
Ou quando sujava as patas nas tintas do Sr. Graça, as quais ela mesma o devolveu

Afinal, ela é um espírito livre,
Não está vinculada a eles, ela segue o próprio caminho,
Seguida por suas manchas,

Ninguém mais se lembra do doce casal,
Houve uma homenagem à eles na TV,
Mas nada mais do que isso,
Ninguém visita seus túmulos,
Com exceção da gata branca não tão branca, a gata e suas manchas,

Mas é uma pena que ela não saiba ler,
Pois se pudesse, poderia nos dizer
O que está escrito no túmulo dos Graça.

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À minha vó, a minha dama dos versos
15/4/2021

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⏰ Last updated: Oct 03, 2021 ⏰

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