A lua cheia brilhava no céu, pálida e prateada a iluminar a grande plantação de uvas e a vinícola da família, o vento forte sacudia a copa das árvores com violência e assobiava ao passar pelas brechas das janelas. Dentro da casa, um enorme bungalow em estilo colonial, o fogo ardia na lareira enquanto consumia a lenha recém colocada pela mulher loira.
Ao terminar sua tarefa, Arizona levantou-se esfregando as mãos para tirar qualquer sujeira e pôs-se a passar o dedo nas lombadas dos livros que ficavam no console da lareira, livros esses que ela tinha escolhido a dedo para a filha, ou pelo menos foi isso que ela disse quando chegou em casa com uma caixa cheia de contos infantis antes mesmo da esposa apresentar grandes sinais de que estava grávida.
Arizona Robbins era uma ávida leitora, uma "devoradora de livros" como dizia sua esposa, sim, esposa. A loira era conhecida por "passar o rodo" nas garotas e ter verdadeira aversão à compromissos desde a escola, mas bastou uma latina birrenta cruzar seu caminho e tudo mudou. Só quando ouviu um resmungo baixo a loira percebeu que estava com a mente em outro lugar.
–Ela não dormiu?- Perguntou a loira sem parar de olhar os livros
–Não, eu não sei mais o que fazer! Esse salto de crescimento está acabando comigo!- respondeu a outra mulher enquanto cantarolava uma canção de ninar para acalmar a bebê
–Deixe-me ler para ela- disse finalmente escolhendo um livro e encaminhando-se para uma das poltronas à frente da lareira
–Ela é muito pequena para isso, Arizona- disse a morena sentando-se no colo da esposa e observando a filha que automaticamente se jogou nos braços da mãe loira- leia para mim- concluiu depositando um rápido beijo nos lábios da outra
–Ela não é pequena demais, não é Soso? Diz pra sua mãe que você já é uma mocinha- a loira falava com uma voz infantil arrancando um sorriso de dois dentes e muita baba seguido de uma gostosa gargalhada da filha que fez ambas as mães sorrirem bobas
–Arizona, não a chame assim, o nome dela é Sofia- disse a morena arqueando a sobrancelha
–Mas Calliope, Soso é um apelido carinhoso- defendeu-se a loira
–Se fosse para chamá-la de Soso, ela não se chamaria Sofia!- resmungou a morena
–Tudo bem, amor, você que manda- Arizona disse sorrindo para encerrar logo o assunto
–Ainda bem que você sabe- disse a morena- E não role os olhos para mim, Robbins!- completou cerrando olhos
A pequena Sofia só olhava de uma para outra com seus grandes olhos negros mordendo os dedinhos gorduchos e rindo das caras e bocas que suas mães faziam.
–Agora eu posso ler para minha filha, Sra. Torres?- perguntou a loira querendo provocar
–Sim, você pode ler para nossa filha, Sra. Torres Robbins - respondeu a morena deitando no ombro da esposa
–Como estamos mandonas hoje- disse Arizona beijando a esposa antes que ela protestasse- agora vamos lá, Soso.
A pequena deitou no peito da loira olhando para o livro como se entendesse o que estava escrito e nem ao menos prestou atenção quando a mãe ralhou com a outra.
–Era uma vez, uma menina tão doce e meiga que todos gostavam dela. A avó, então, a adorava, e não sabia mais que presente dar a criança para agradá-la. Um dia ela presenteou-a com um capuz de veludo vermelho.- A loira parou por um instante ouvindo um barulho estranho fora de casa- Você ouviu isso?- perguntou à esposa
–Não- respondeu uma Calliope sonolenta enquanto se aconchegava mais ao corpo da loira
Arizona achou estranho, mas deu de ombros e prosseguiu:
–O capuz agradou tanto a menina e ficou tão bem nela, que ela queria ficar com ele o tempo todo. Por causa disso, ficou conhecida como Chapeuzinho Vermelho.
YOU ARE READING
SILVER TONGUE
FantasyHá muito tempo Arizona decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Sofia é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que a mãe leia para ela na cama. Sofia jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que...
