A garota do ônibus

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Triiiiiim! Triiiiiim! Triiiiiim! O despertador do celular trocou de forma desesperadora. Afinal, acordar às quatro e meia da manhã é sempre uma experiência desesperadora, principalmente se o toque de despertar é um som estridente e irritante.

 Mesmo com a desmotivação costumeira trazida pelo horário absurdo no qual acordava todos os dias, Will se levantou aos tropeços para ir ao colégio. 

- Preciso mudar o som desse despertador. 

    Foi até a cozinha apoiando-se nas paredes, enquanto tentava se manter acordado. 

       - Café. Eu preciso de café! - falava como um zumbi em busca de cérebro fresco.

 Para sua sorte, a mãe já havia acordado e finalizado o café da manhã.

 Como toda mãe, a de Will tinha o mesmo costume de exagerar quando o assunto era acordar cedo.

 - Achei que fosse perder o horário! Já é quase meio-dia!

 - Pelo amor de Deus, mãe! Não são nem 5 da manhã. Passa para cá esse café!  

    O tempo passava rápido, como um viajante que tem pressa. Eram quase cinco e meia, e Will corria contra o tempo. Não é que a mãe tinha um pouco de razão?  Ele ia se atrasar.

 - Caderno, livros das matérias, a chave da moto… Acho que está tudo aqui! - Mesmo assim, a sensação de que havia esquecido algo não passava. 

Ele saiu às pressas e, quando olhou a vista em frente à casa da fazenda onde ele morava, parou e olhou fixamente para o alto.

 As nuvens se afastavam lentamente uma das outras, com tons multicoloridos de azul-escuro, turquesa e laranja. Os primeiros raios de sol saíam por entre as nuvens e tocavam a superfície do lago bem na frente de sua casa. O espelho d’água assumia um aspecto de uma pintura em tinta a óleo. A paisagem que parecia ter saído de um filme fez com que Will chegasse até a margem do lago e observasse seu reflexo. 

 Era um garoto magro, de estatura média, talvez um metro e setenta ou um pouco menos. Seu rosto era meio arredondado e tinha pele escura, que combinava com seus cabelos ondulados, negros como um céu em noite de Lua nova.

 - Will, você vai se atrasar! - gritou a mãe. Ele havia se distraído tanto, que mal percebeu que já eram quase seis horas da manhã. 

    A brisa fria da manhã vinha ao seu encontro, enquanto Will parecia ir ao encontro dela. O marcador de velocidade da moto apontava setenta quilômetros por hora, uma velocidade considerada baixa, se você vai numa via asfaltada, o que não era o caso de Will. 

O colégio ficava a uma distância de quatorze quilômetros, dos quais Will percorria seis de  motocicleta, até o ônibus escolar que o levava ao colégio. A estrada de terra batida era esburacada e com muitas ondulações. Também não havia muitas casas nesse trajeto.

 - Espero que não falte combustível - pensava.

 Os galhos tortuosos das árvores, a cor cinza da mata seca e a variação dos tons da terra, que iam do branco das areias até o laranja avermelhado do barro, faziam o garoto viajar nos pensamentos. Já havia caído algumas vezes por estar dirigindo e perder a atenção. 

    Faltava um quilômetro?… Mais?  Parecia ter entrado em um transe enquanto dirigia e, quando voltou a atenção para a viagem, ouviu um som alto e desarmonioso do motor do velho ônibus escolar, que mais parecia a máquina Mistério do Scooby Doo.

     - Droga! Não vai dar tempo!

Ele parou a moto embaixo de uma árvore solitária em frente a uma casa à beira da estrada e saiu correndo em direção ao ônibus que havia parado mais a frente  para outro aluno subir.

 - Espera! - gritou.

 Ao chegar à porta do veículo, com a respiração ofegante, observou o motorista que o olhava com cara de poucos amigos.

 - Essa é a segunda vez essa semana, garoto! Você ainda vai acabar perdendo o ônibus qualquer dia desses!

   Foi até o meio do ônibus e se sentou em um banco de dois lugares que estava vazio. 

    As pequenas casas simples que se viam pela velha janela do ônibus tinham em sua grande maioria uma árvore na frente. Geralmente essas casas ficavam a uns dez metros de distância umas das outras.

 Senhoras de meia idade varriam sem necessidade os terreiros de terra vermelha. A poeira que subia com o vaivém das vassouras de palha formava uma cortina que mais parecia sujar as casas do que limpá-las.

“Isso não faz sentido, vai sujar tudo de poeira”. Pensava ele, alheio à subida de mais pessoas no ônibus. 

No momento que ele parecia sair de uma longa reflexão sobre um problema complexo, percebeu uma moça entrar no veículo. Seus cabelos eram longos e levemente ondulados, com uma cor de caramelo que passou do ponto. A cor dos cabelos contrastava com a pele muito branca e suave do seu rosto, que tinha expressões afiladas, mas combinava perfeitamente com os olhos cor de mel. Era baixinha, o que a deixava ainda mais atraente.

 - Uau! Como não tinha visto essa garota antes?

 Ela andou pelo corredor do ônibus, olhando de um lado para o outro, procurando um lugar vazio nas fileiras de assentos. De repente, Will se deu conta de que o único lugar vazio era ao seu lado.

 “Ela vai se sentar aqui!”. Pensou ele. 

No mesmo instante, a jovem se deu conta de que o único lugar vazio era ao lado daquele garoto que a olhava como um coelho assustado. O coração dele pareceu acelerar no ritmo de uma bateria de escola de samba, quando ela se sentou ao lado. E o ônibus seguiu viagem. 

A moça tinha um cheiro inebriante. Will sentia-se em meio a um jardim.

 “Não, não… um pomar de frutas vermelhas misturado com cheiro de madeira fresca”. Concluiu ele. Era simplesmente maravilhoso.

 “Acho que poderia dizer a ela: você cheira muito bem”. Mas, ao mesmo tempo, percebeu que seria loucura fazer aquilo sem ao menos conhecer a moça. 

“É claro! Que espécie de pessoa sai por aí falando para os outros o cheiro que eles têm… Um maníaco?” Pensou Will.

 De repente, a moça pegou um livro e começou a lê-lo. 

“Livro! É isso que me esqueci de trazer”

 Will costumava ler durante a viagem ao colégio, mas havia se distraído tanto naquela manhã que tinha se esquecido do próprio hábito.

O livro não era do tipo literário que costumava ler, mas havia se dado conta de que aquela era a oportunidade perfeita para começar uma conversa.

 - Albert Einstein… um grande físico! - Will falou em meio a um sorriso tímido. 

A moça olhou para ele e sorriu. 

- Sim, sim. 

Seu sorriso era lindo. Dentes grandes e brancos como um copo de leite.

 - Gosta de ler? - perguntou ela.

 - Sim - respondeu desajeitado - Costumo ler todos os dias aqui no ônibus, mas hoje me esqueci de trazer o livro. 

Ela riu, achando-o engraçado, e o fez sorrir também. O sorriso dela era contagiante. 

Antes que pudessem continuar a breve conversa, o ônibus parou em um colégio que não era o dele.

 - Olha, preciso descer. Estudo aqui - disse a moça. 

O sorriso dele deu lugar a uma expressão levemente decepcionada, mas sua mente não tinha decidido ainda se era pelo fato de a moça não estudar no mesmo colégio, ou se era por causa de a conversa ter durado poucos minutos.

 - Tudo bem, mas qual o seu nome? - perguntou, enquanto ela se levantava para sair.

 - Anna - a jovem respondeu prontamente - E o seu?

 - Will. 

- Bem, até mais, Will.

 - Até mais, Anna.

 Ela foi em direção à porta e saiu. Ele a observou atravessar a rua até o portão do colégio, enquanto o velho ônibus se afastava. 

POR CAUSA DOS LIVROSHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora