Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.
[...]
Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar
e se confessasse jubilosamente vencido,
até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Reconhecimento do amor. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Círculo do Livro, 1987)
Seria o presente perfeito, o problema é que ele teria apenas quatro dias para consegui-lo, demorara muito para decidir o que seria o presente perfeito: primeiro, coisas grandiosas, depois, coisas minimalistas e, finalmente, uma parte de seu próprio coração. Era uma das coisas preferidas de sua mãe e ele queria um igual, mesmo havendo versões mais recentes, queria aquela. Observando a companheira dormir tranquilamente, sorriu. Sim, ela iria gostar.
Ligia riu baixinho quando sentiu a barba do amado roçar em seu pescoço, Miguel sempre a acordava com beijos, que geralmente se transformavam em desejo e, por consequência, em sexo. Era esse o caso de hoje, dia 20 de dezembro. Irônico como a grandeza do amor cabia ali, na cama de casal que dividiam há meses. Quando dera por si, Miguel estava em cima da mulher, brincando com a calcinha dela, sussurrou-lhe ao ouvido:
― Tem satisfatório e tem maravilhoso, qual você prefere?
Com rapidez inesperada, Ligia montara no companheiro, rindo:
― Quero satisfatório e maravilhoso! – as línguas encontraram-se no meio do afã, o desejo que sentiam não diminuíra uma nesga durante todo esse tempo, muito pelo contrário, o casal parecia sentir uma necessidade cada vez maior de estar perto e transmutar o sentimento em consumação carnal.
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O primeiro Natal
FanfictionMiguel tem em mente o presente de Natal perfeito para Ligia, porém, não tem sucesso em suas buscas. Ligia interpreta uma cena equivocadamente e pensa que está sendo traída. Será que o Natal dessa nova família pode ser salvo?
