Guga subiu as escadas, Juliana desceu.
Quase se esbarraram, mas o garoto, ágil, conseguiu se espremer contra a parede antes que a mulher o atropelasse. Ela andava assim, ignorando sua presença e forçando passagem sobre ele, avançando com seu corpo adulto e grande pelos corredores e espaços e Guga desse o jeito dele de escapar. Durante as últimas semanas esse castigo foi crescendo. Primeiro o privou dos brinquedos e agora o estava ignorando. O garotinho, porém, se sentia tão culpado que não ousava reclamar e fazia o possível para não ser visto nem atrapalhar os caminhos enquanto a mãe andava com os afazeres da casa. Ela cooperava, ignorando-o. Havia, sim alguns momentos em que ela o olhava, chorosa, mas logo desviava o olhar e saia pisando firme limpando os olhos.
Isso ia passar. - Ele disse para si mesmo. - Em pouco tempo ela estaria convidando o menino para um abraço onde o cobriria com beijos intermináveis e coçaria sua cabeça lentamente até que Guga dormisse. O menino descansava o coração nessa esperança sempre que o castigo começava a se tornar insuportável.
Não que ele pudesse mesmo entender tudo isso. Era jovem demais. Talvez sentisse ali um aperto no coração, talvez fosse uma nota de sentimento triste na alma, talvez só uma pequena pontada de dor sempre que pensava no quanto ele fez a mãe chorar. E com isso se resignava, culpado, à rotina de fugir das vistas de Juliana e abri-lhe os caminhos.
Os passos dela a levaram até a porta da cozinha, os dele para seu quarto.
Quando começou com o castigo, ela tirou do cômodo todos os brinquedos e depois até os enfeites. Ficou-lhe a cama e um lençol. Mesmo esse sem cores nem desenhos. Guga tinha sorte de estarem no meio do verão, não dava falta das cobertas e mantas, ao contrário, o sol quente que castigava as paredes todo o dia mantinha o quarto ainda aquecido pela noite. Vez ou outra apenas, Guga sentia um frio em suas pernas. Se encolhia todo sobre si mesmo, abraçava seus joelhos e terminava a noite assim, enrolado no único lençol da cama. Quando isso acontecia, Guga apressava-se para acordar antes pois sua mãe nunca reagia bem a bagunça da roupa de cama.
O menino passou a mão sobre o móvel, pensou em deitar-se e remoer um pouco dos sentimentos tristes. Por um momento, sonhou com a volta dos bonecos, carros, aviões e seus livros de cantigas infantis e alguns outros mais coloridos com histórias que seu pai sempre trazia de suas viagens. Esse pensamento, entretanto, foi tão fugaz que, antes que terminasse, Guga já saltava sobre a cama e olhava a janela. Umas gotas de chuva fina caíam sobre ela desenhando rabiscos que apontavam para o mundo lá embaixo.
A Janela se abria para um vasto quintal de uma casa comprada há anos pelo pai. Tinham um gramado amplo que pintava de verde todo o chão e, onde falhava, surgiam umas flores violetas que cresciam em arbustos espessos e largos. Guga adorava essas plantas, mas a mãe exigia que o pai as arrancasse. Ele sempre prometia fazê-lo. O que não acontecia. Tanto que o primeiro desses arbustos a surgir, agora já se abria por vários metros, enchendo os espaços de tons entre roxos e liláses. O menino decidiu que ia ajudar o pai a capinar tão logo ele voltasse, quem sabe assim sua mãe mudava os olhos com que o via e seus carinhos retornavam?
Ele imaginou onde seu pai estaria. Fazia muito tempo que Guga não o via. Tentava reviver a última lembrança do pai, que o empurrava no balanço que construiu e de todas as promessas que seriam cumpridas quando ele chegasse. A casa na árvore, capinar o quintal, consertar o assoalho da cozinha. Essa tábua perturbava muito sua mãe. Ultimamente, se Guga pisava no chão frouxo, rangendo, ela o olhava tão rápido e com tanta severidade que o menino sentia um frio percorrer sua espinha e saia na ponta dos pés. Outras vezes, quando Guga pisava li desavisado, ela vinha até de outro cômodo e olhava para a tábua irritada por não ser capaz de consertá-la sozinha. Certamente, ela também sentia falta do pai de Guga.
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O Balanço Vazio e Outras Histórias
HorrorContos diversos que eu gostaria de compartilhar
